     CABOCLA

       Romance de Jussara
          Psicografia de
Vera Lucia Marinzeck de Carvalho
                Outros livros psicografados pela mdium
                 Vera Lcia Marinzeck de Carvalho:


Pelo Esprito Antnio Carlos
                               Reconciliao
                             Cativos e Libertos
                             Copos que Andam
                               Filho Adotivo
                             Reparando Erros
                          A Manso da Pedra Torta
                           Palco das Encarnaes
                                Aconteceu
                          Muitos So os Chamados
                             O Talism Maldito
                            Aqueles que Amam
                     O Dirio de Luizinho (infantil)


Pelo Esprito Patrcia:
                             Violetas na Janela
                   Vivendo no Mundo dos Espritos
                            A Casa do Escritor
                             O Vo da Gaivota


Por Espritos diversos:
                               Valeu a Pena!
                            Perante a Eternidade
                  Deficiente Mental: Por que Fui Um?


Pelo Esprito Rosngela:
                              Ns, os Jovens
           Narro a histria de minha vida como falo e escrevo agora, com os
conhecimentos espirituais que hoje possuo, usando termos que Allan Kardec,
tempo mais tarde, codificou na Doutrina Esprita, de fenmenos existentes e
praticados por vrios de ns, negros, e por muitos desde longnqua data. Com
palavreado da poca e caracterstico nosso, dos escravos, iria dificultar a leitura.
Continuo simples, a simplicidade requer aprendizado e eu tenho tentado aprender
no decorrer do tempo.
           Dedicamos esta obra a todas as pessoas singelas que esto dando valor na
oportunidade da reencarnao.


           Jussara
           Inverno de 1998




           Dedico este trabalho, com todo o meu amor, ao Gustavo, meu filho
querido.


           Vera
        Atualmente, h diversos livros de Histria, inclusive didticos, que esto
resgatando a riqueza da cultura africana e, felizmente, desfazendo algumas idias
errneas e at mesmo preconceituosas sobre os negros, que foram sendo
alimentadas e tidas como verdadeiras durante muitos anos.
         importante lembrar que os africanos sofreram influncia de outros
povos, inclusive dos rabes, antes mesmo de sarem do continente africano. Com
isso as crenas, tradies e religies que eles trouxeram sofreram modificaes ao
longo do tempo.


                                                                         O editor




                                         Sumrio


        1   - A fuga
        2   - A cobra
        3   - Recordaes
        4   - Fatos e fatos
        5   - Minha passagem
        6   -Visitas
        7   - Na enfermaria
        8   - Fui escravocrata
        9   - Acontecimentos no quilombo
        10 - Na fazenda
        11 - Meu passado com Jos
        12 - Trabalho de reconciliao
                                              1




                                        A FUGA


        "Preciso conseguir! Ir em frente! Meus Deus, me d foras!"
        s vezes resmungava, tentando me encorajar a continuar. Estava cansada,
com dores, fome e sede. Minhas pernas continuavam a trocar passos impulsionadas
pela minha vontade forte, vontade dirigida pelo amor, pela necessidade de salvar
aqueles que mais amava: meu filho, minha filha e meu genro.
        Estava com vrios ferimentos, os galhos me dilaceravam a carne. Alguns
arranhes eram profundos e sangravam. Doam, mas no importava, no deveriam
me incomodar. Tinha um objetivo, que era me afastar o mais possvel. s vezes
olhava meus ferimentos e segurava o choro, estava muito machucada, mas no
queria me apiedar de mim mesma. Um arranho acima do meu olho direito
sangrava muito, obrigando-me a fech-lo. Tentava sec-lo com uma blusa de minha
filha. Levou minutos para parar de sangrar, quando parou, suspirei aliviada, porm,
continuava a doer, a arder.
        Os galhos fechavam a passagem, no tinha nada para abrir caminho e no
podia me dar ao luxo de escolher o melhor lugar para passar. Meu tempo era
precioso, tinha que continuar a andar e assim fiz.
        Tentava abafar meus gemidos, mas de vez em quando saam dos meus
lbios alguns ais. Cada passo que dava era um sacrifcio, dores latejantes nas costas
e os arranhes continuavam, ardiam, doam.
        Usava as mos para tentar afastar os galhos, mas eram estas e os braos os
mais machucados.
        Ao entrar na floresta eu marcava um rumo e o seguia, no queria desviar e
continuava a andar... No  fcil marcar rumo em mata fechada, mas eu marquei,
tinha o instinto forte do povo indgena.
        Por vezes sentia que ia morrer, meu corpo queria parar, no agentava
mais, eu respirava fundo e pedia a proteo de Deus.
        "Preciso ir! Preciso ir o mais longe possvel! Deus Pai, me ajude!"
        E continuava, parecia que, ao respirar fundo, uma energia diferente me
impulsionava, sentia como se estivesse sendo protegida, como se algum com
muito carinho estivesse me ajudando.
        "Deus no desampara ningum, Ele me ajudar! Mas e se os que me
perseguem pedirem a ajuda de Deus para me capturar? A quem Ele ajudar? -
Pensava aflita. - Deus  meu Pai, mas  Pai deles tambm. Talvez faa como uma
me que com justia sabe entender uma disputa entre seus filhos e atende aquele
que lhe parece mais justo".
        E seguia, andava...
        "Uai!"
        Um espinho grande entrou no meu brao esquerdo. Tive que pux-lo com
fora, o sangue esguichou. Amarrei as roupas que trouxe nos braos, estas estavam
em tiras e j no me protegiam.
        "Au, au, au..."
        "Os ces..."
        Escutava o latido dos ces e nesses momentos tentava andar mais rpido.
Ao escut-los pela primeira vez, senti mdo, mas tambm alvio, meu plano dera
certo, eles estavam atrs de mim.
        "Se me pegarem, ser pior, bem pior!"
        E continuava. Comecei a pensar em minha vida. As lembranas vieram e
isso at que me fez bem, parecia que os ferimentos doam menos e a dor nas costas
e pernas ficou mais amena com meu crebro cheio de recordaes.
        Ali estava eu, fugindo. Fugindo? No era bem isso que estava fazendo.
Que me importava agora fugir do cativeiro? No temia a escravido, era livre em
esprito, depois de ter vivido trinta e oito anos como escrava, no importava ser
liberta, tinha poucas iluses, havia sofrido muito e o entusiasmo juvenil da
liberdade havia passado. Sabia, tinha a certeza de que ao ter o corpo morto meu
esprito seria libertado, livre igual a um passarinho a voar pelas campinas por cima
das copas das rvores das matas.
        Mas necessitava fugir, tinha que andar ligeiro e me distanciar da fazenda
para que meus entes queridos estivessem a salvo.
        Fazia mais de um dia que estava andando. Sa da fazenda no dia anterior,
de madrugada. Nas primeiras horas caminhei com mais facilidade, depois com
muito esforo e s estava conseguindo ainda porque queria muito, tinha que
continuar andando. Trouxera comigo s uma cabaa de gua. Os alimentos que
conseguimos guardar, meus filhos levaram. Comi algumas frutas que encontrei no
caminho, no queria parar ou desviar, no podia, estavam atrs de mim, iriam me
pegar com certeza, mas precisava prolongar minha captura. Quanto mais
demorassem para me alcanar, maior a chance de meus filhos serem salvos.
        "E eles pensam que esto perseguindo os quatro. - Sorri com lgrimas nos
olhos. - Os quatro!"
        Recordei os planos de fuga.
        "Cabocla - perguntou Dito -, voc no quer vir conosco? Tem certeza de
que no quer mesmo?"
        "No, Dito - respondi -, estou velha, ou me sinto velha, e com o meu
problema s iria criar dificuldades e atras-los. Vo vocs, estarei orando para que
tudo d certo".
        "Sinto deix-la, mame - falou Tomasa, minha filha, que todos chamavam
carinhosamente pelo apelido de Tobi.
         - Tenho receio de que o senhor Lisberto lhe castigue quando derem por
nossa falta".
        "Ele no far isso - respondi. - J me bateu uma vez e quase me aleijou".
        "Odeio ele por isso, pelo que fez  senhora e ao nosso irmo Manu" - disse
Antnio, meu filho Tonho.
             "Precisamos ter cautela - disse Dito -, no  bom que nos vejam
conversando, podem desconfiar".
        Nisso Filo, outra escrava da senzala, aproximou-se.
        "O que vocs tanto conversam? Posso saber?"
        "Falvamos que, se no chover, as plantaes iro morrer" - disse Tobi.
        "Ah, que temos com isso? O que nos importa que eles tenham prejuzo?" -
Falou Filo com desprezo.
        "Filo - disse Tonho -, fomos ns que plantamos e seremos ns que iremos
replantar. Depois, se faltarem alimentos, seremos os primeiros a passar fome".
        " verdade! - Respondeu Filo nos observando. -Pensei que estivessem
falando do interesse do senhor Lisberto por Tobi".
        Tobi nem respondeu. Filo era uma pessoa boa, trabalhadeira, mas muito
faladeira, tnhamos desconfiana de que ela contava o que ocorria entre ns para o
capataz. Demos por encerrada a conversa e cada um foi para o seu canto.
        A fazenda em que vivamos era bonita, grande, havia criaes e muitas
plantaes a perder de vista. Mas a seca estava castigando aquele ano.
        Os senhores, donos da fazenda, estavam em viagem pela Europa. Nosso
sinh, Narciso, deixou um primo para cuidar de tudo. Mas quem cuidava eram os
empregados., principalmente dois, o senhor Joo da Tripa, que administrava a
fazenda, e o senhor Lisberto, que coordenava o trabalho dos escravos.
        Senhor Lisberto, que passou a ser o nosso terror, era casado, tinha filhos,
mas estava sempre cobiando as jovens negras. Era mau, exigente e rancoroso.
        Continuei a lembrar. Embora isso tivesse acontecido anos atrs, ainda doa
e lgrimas escorreram fartas pelo meu rosto. A imagem de meu filho Manu veio
forte, lembrava de cada detalhe do seu rosto, do seu modo meigo e bondoso, do
seu jeito amigo.
           Manu enamorou-se de uma moa, escrava da fazenda vizinha. Querendo
v-la, pediu vrias vezes que o deixassem ir at l e lhe foi negado. Numa tarde,
num impulso apaixonado, saiu sem permisso e foi encontrar-se com ela. No
contou a ningum. Senhor Lisberto julgou que havia fugido e procurou-o pela
fazenda. Encontrou-o quando voltava, trouxe-o amarrado e no quis escutar
explicaes. Colocou-o no tronco e comeou a chicote-lo.
           Estava lavando roupas quando me contaram. Fui correndo para o ptio
onde ficava o tronco. Gritei desesperada pedindo clemncia. Como no fui
atendida e recebi apenas risadas em resposta, avancei sobre o senhor Lisberto na
tentativa de que ele parasse e me escutasse. Ele ento me deu uma pancada com o
cabo do chicote, que era de madeira, nas minhas costas, e ca com forte dor, sem
conseguir me mexer.
           "Fique quieta, negra! Seno morre junto com seu filho!"
           Ali fiquei, no cho, a dor me tirava o flego. Apavorada, fiquei olhando o
terrvel e injusto castigo. As chicotadas, o barulho do chicote nas costas dele, os
gemidos abafados eram como um delrio, um pesadelo horrvel que nunca mais
esqueci.
           Naquele momento, ali, sozinha na mata, me esforando para caminhar, as
lembranas eram to fortes, to ricas em detalhes que me faziam tremer de
indignao. Estava soluando, respirei fundo e parecia ver meu Manu no tronco.
           Foram minutos que me pareceram horas. Eu ali, inerte no cho, e meu
filho amarrado no tronco, sendo castigado.
           Senhor Lisberto o chicoteou at cansar ou talvez at sua raiva passar. Manu
estava desmaiado. Ento, os outros escravos, que vieram correndo e ali ficaram
vendo horrorizados o castigo, desamarraram-no e o levaram para a senzala, e como
no conseguia me mexer pegaram-me e levaram-me para perto dele.
           Manu estava com as costas que era uma pasta sangrenta, havia perdido
muito sangue. Pedi aos que me carregavam:
           "Por Deus, me coloquem perto de meu filho!"
         Maria e Jacinta, chorando, fizeram o que pedi: me colocaram na esteira, de
costas, ao lado dele. Enfaixaram-me e me deram ch de ervas para tirar a dor.
Fiquei ao lado de Manu, consegui pegar sua mo.
         "Que a dor dele passe para mim, meu Deus. Tenha piedade de ns, que
sofremos!"
         Jos e outros negros cuidaram de Manu, deram uma beberagem forte para
ele, limparam os ferimentos. Ele voltou do desmaio, comeou a balbuciar palavras
sem nexo.
         Meus filhos eram de estatura baixa e Manu era fraco. Temia por ele, achava
que no iria resistir.
         "Cabocla - falou um dos negros que cuidou dele -, o que pudemos fazer
por Manu foi feito, ele est muito machucado e perdeu muito sangue".
         Pela manha ele teve febre alta que no abaixou mais, seus ferimentos
infeccionaram.
         No me afastei do seu lado, fiquei ali deitada. J me mexia, mas no
conseguia me levantar. Manu delirava, falava alto:
         "Vou? Sim, quero! Isso  o cu? Quem  voc? Branco me ajudando?"
         "Manu, meu filho, converse comigo!"
         s vezes eu implorava e ele tentava responder a algumas de minhas
rogativas. No conseguia, me olhava somente e foi s uma vez que me respondeu
sorrindo:
         "No sofra por mim, mame, no vale a pena. Vou ser muito feliz!"
         Foi piorando. Aps trs dias de muito sofrimento, ele quietou e Jacinta me
abraou.
         "Cabocla, Manu parou de sofrer!"
         No chorei, at senti um certo alvio, meu Manu seria feliz, tinha a certeza.
Fiquei olhando-o. Dois amigos da senzala pegaram Manu, aproximaram-no de mim
para que pudesse beij-lo e foram enterr-lo.
          Sofri muito aqueles dias, tive muitas dores fsicas, mas a dor moral foi bem
maior. Sentia-me como que arrebentada por dentro, me revoltei.
          "Por qu? - Indagava. - Por que tudo isso? Por que sermos escravos, ver
entes queridos maltratados?"
          Ningum me respondia. Abaixavam a cabea e algumas escravas choravam
comigo.
          Foi aps chorar muito que a revolta passou e a vida continuou. Mas fiquei
quase invlida. Minhas costas passaram a doer muito, foi com muito esforo que
consegui me sentar e depois ficar de p. Usava uma faixa apertada e s dei alguns
passos doze dias depois. Foi com dificuldade que voltei a andar.
          Meus dois filhos sofreram muito, tinham medo, choravam, tiveram que
voltar ao trabalho no outro dia e s nos vamos  noite. Mesmo cansados,
apavorados, com medo do senhor Lisberto e do castigo, todos na senzala nos
ajudavam  noite. Durante o dia s as negras que estavam para ter filhos e as que os
tiveram recentemente nos ajudavam.
          No voltei ao trabalho porque provaram ao senhor Lisberto que eu estava
machucada e minhas colegas de infortnio prometeram trabalhar por mim.
          Logo que consegui andar, voltei a lavar roupas. Minhas companheiras me
ajudavam, deixando o servio leve para mim. Era grata a elas, agradecia sempre.
          Aos poucos melhorei, mas fiquei curvada. As dores iam e vinham; alguns
dias me sentia melhor, outros pior. "Ai!"
          Tropecei e senti uma dor forte nas pernas que me obrigou a parar uns
instantes. Passei a mo no lugar dolorido e escutei os ces.
          "Preciso continuar! Preciso! Por Tobi..."
          Minha filha Tobi estava com quase dezesseis anos, mulata bonita,
despertou paixo no senhor Lisberto. Mas minha filha amava Dito e eles
escondiam esse amor para que o feitor no descontasse sua raiva no pobre rapaz.
          "Mame - me disse Tobi, dias antes -, amo Dito e ele me ama, estou
grvida. Entreguei-me a ele para que o senhor Lisberto no fosse o primeiro,
porque se ele cismar me ter de qualquer jeito. Mas estou com medo de ele
descobrir; ruim como , matar Dito como matou Manu".
        Tobi, triste, abaixou a cabea enquanto falava. Tinha o hbito de passar as
mos nos cabelos lisos como os meus.
        "Se Dito morrer, morro junto!" - Exclamou minha menina.
        "No - pensei -, no vou agentar v-los ser castigados, no vou!"
        Tobi tinha razo. No entendia como o senhor Lisberto ainda no a
estuprara. Achei que era porque a sua mulher, ciumenta, estava vigiando-o ou que
ele estava aguardando alguma ocasio propcia. Fiquei apreensiva ao saber de sua
gravidez. Resolvi ajud-los sem que eles soubessem.
        Os trs planejaram fugir pelo riacho. No seria fcil, teriam que subir um
morro alto, aps ir pela montanha, onde sabamos existir um quilombo. Ningum
sabia onde ficava e os brancos tinham medo de ir l. Os fazendeiros que tinham
escravos fujes esperavam ajuda de soldados para invadi-lo. Mas o tempo passava e
a ajuda no vinha, e tnhamos conhecimento de que l viviam muitos negros livres.
        Muitos escravos sonhavam em ir para l, mas os senhores e os feitores
redobraram a vigilncia, dificultando as fugas e aumentando os castigos. Quando
capturavam os fujes, eram castigados at a morte para servir de exemplo.
        "Eles correm perigo, se ficarem aqui certamente iro ser castigados, se
capturados tambm, mas se conseguirem fugir estaro livres" - conclu.
        "Mame - disse Tobi -, quando o senhor Lisberto descobrir que estou
grvida ir me bater at que eu diga de quem. Muitos sabem que Dito e eu nos
amamos e, quando de souber, com certeza ir mat-lo. Temos que arriscar. Venha
conosco! No quero me separar da senhora".
        "Quando amamos, s nos ausentamos, no nos separamos. Estarei sempre
com vocs, unidos pelo amor. Eu fico!"
        "E se ele lhe bater?"
         "Posso dizer a ele que no sabia. Que fugiram pelo riacho e foram para o
quilombo. No se preocupem, ele no ir me bater. Vo com Deus e que sejam
felizes e livres no quilombo."
         Marcaram o dia, seria na madrugada do domingo, em que os negros se
levantariam mais tarde. Aos domingos era feito um rodzio: folgava-se duas vezes
por ms e trabalhavam-se dois. Havia servios que no podiam deixar de ser feitos,
como tratar dos animais. E aos sbados os empregados da fazenda costumavam
beber  noite, reunindo-se para conversar, indo dormir altas horas, e a vigilncia era
menor.
         Arrumei escondida alguns alimentos para que eles levassem e os fiz tomar
banho no sbado e colocar roupas limpas. Como planejei, fiquei sem tomar banho
e com a roupa suja.  noite, disfaradamente, me despedi deles. No pude abraar
meu filho e nem meu genro para no desconfiarem, mas discretamente abracei
Tobi.
         " a ltima vez que eu a abrao - pensei. - Que Deus os proteja!"
         Segurei-me para no chorar, olhei-os como que querendo gravar suas
fisionomias dentro de mim.
         De madrugada, como planejaram, saram. Eu, que no havia conseguido
dormir, vi seus vultos sarem da senzala cuidadosamente. Dito saiu primeiro, depois
Tonho e Tobi. Era costume algum acompanhar as mulheres, principalmente as
jovens, para ir  latrina, e por isso no desconfiariam ao ver Tonho indo com Tobi.
Meu corao bateu apressado, senti a dor da separao, que chegou a ser fsica; me
separava dos meus familiares, daqueles que amava. Mas no chorei, tentei orar,
roguei proteo a Deus para eles. Afastaram-se. Fiquei quieta por minutos.
Acompanhei em pensamento o trajeto deles.
         "Agora passam pelo ptio, pelo curral, devem estar ao lado do pomar,
atravessaram a pequena plantao de milho, chegaram ao riacho. Pronto,  agora
que devo fazer o que planejei. Que o Senhor dos Cus me ajude!"
        Como no escutei barulho, tive a certeza de que eles conseguiram chegar
ao riacho. Porque, se tivessem sido descobertos, j teria ouvido a gritaria.
        Antes de o primo do nosso sinh vir tomar conta da fazenda no havia
fugas, ramos bem tratados e no havia razo para sair de l. A senzala sempre teve
um porto que nunca era trancado. Senhor Lisberto at que tentou tranc-lo, mas
no fazia diferena faz-lo ou no, porque era fcil sair de l. Feita de pau e barro,
havia muitos buracos por onde passaramos com facilidade. Para torn-la segura
seria necessrio construir outra e ele no queria dispor de dinheiro para isso,
preferiu punir e vigiar mais.
        Levantei-me com cuidado, mas Filo acordou e me olhou. Dei um sinal de
que ia  latrina, ela se acomodou e pareceu dormir novamente.
        Cautelosamente sa da senzala. Havia pegado uma pea de roupa suja de
cada um dos trs e a cabaa com gua. Andei com muita prudncia. Havia
decorado o caminho. Tinha que passar perto da casa-grande, que estava sempre
vigiada, dia e noite, para chegar ao outro lado, o da mata.
        "Vou despistar os empregados para facilitar a fuga deles. Quero que
pensem que tomamos esse caminho, no s eu, mas os quatro!" - Resmunguei.
        Quase que o vigia me viu. Tremi, estava no cho, me arrastei uns cem
metros. Achando que no seria vista, me levantei e andei cuidadosamente. Tive
dificuldade de passar pelo muro de pedras, no qual fiz meus primeiros ferimentos.
Os joelhos sangravam, mas no me importei.
        J estava quase clareando quando entrei na mata.
        "Que beleza  o nascer do sol! Como a energia do astro-rei nos fortalece!"
        Suspirei aliviada por ter chegado at ali, marquei o rumo e me pus a andar
o mais rpido que conseguia. Sempre gostei muito das rvores, de admir-las, sentir
seu frescor, amava as florestas, mas no prestei ateno em nada dessa vez, tentava
passar pelos lugares mais fceis.
           Mas naquele momento, cansada, j no escolhia, ape-nas andava... Meu
desejo era parar, deitar e chorar, mas no podia... As pernas se moviam, ora a
esquerda, ora a direita... Trocava passos...




                                                 2

           A COBRA


           Peguei, assim que entrei na mata, um pau que me serviu de bengala, mas
ele se quebrou no meio.
           "Mais esta! E agora?" - Resmunguei.
           Olhei ao redor, mas no vi nada que pudesse substitu-lo.
           "Como uma faca est me fazendo falta!"
           Ns, os escravos, no tnhamos acesso a nada que pudssemos usar como
arma. Ferramentas como foice e enxada eram distribudas antes do trabalho e
recolhidas no fim do dia. E ai daquele que no as devolvesse! Na cozinha da
senzala - assim chamvamos uma parte  esquerda, na frente, onde eram preparadas
nossas refeies - havia um grande fogo e duas facas, e a responsvel por elas era
uma negra que seria castigada se deixasse algum peg-las. Um empregado sempre
vinha conferir se elas estavam l. Nem cogitamos peg-las, no queramos a velha e
bondosa Isaura no tronco.
           Sem minha bengala, passei a andar com mais dificuldade, mancando muito.
           Ouvi os ces, tremi de medo, tinha horror dos enormes cachorros da
fazenda.
           "Acho que consegui engan-los, esto atrs de mim, mas devem ter
percebido que perseguem apenas uma pessoa -pensei. - Eles devem ter imaginado,
quando descobriram a fuga, que, como todos, fomos para o riacho. Mas os ces me
farejaram e eles vieram pela mata atrs de mim e esto atrs de um s".
        Sempre que escutava os ces tentava andar mais rpido. Quanto mais longe
eles me encontrassem, melhor, mais tempo teriam os trs para se distanciar e
chegar ao destino: o quilombo.
        Deixava rastro de propsito, pedaos das roupas que levava, e tambm
ficaram manchas de sangue dos meus ferimentos.
        "Quando me pegarem iro me torturar - pensei tristemente. - Iro
descontar a raiva de t-los enganado, de, em vez de quatro, pegarem s a mim, e
por saberem que dificilmente iro capturar os outros. Poderei dizer que fiquei para
trs, mas no se enganam os ces, que no acharo mais os rastros. No acreditaro
em nada do que eu falar. No tem importncia, irei morrer de qualquer jeito, ento
no falarei nada, nada!"
        Tonho calculou que em cinco dias acharia o quilombo, talvez um ou dois
dias a mais.
        "Os feitores vo levar mais dois dias para chegar  fazenda e ento, quando
forem procur-los pelo riacho, meus filhos estaro a salvo no quilombo. Consegui
ajud-los, antes eu ser torturada do que eles. Tomara que ao me encontrarem
deixem os ces me atacarem, pois eles me faro em pedaos cm minutos. Ser
prefervel a morte rpida  tortura."
        Sabia que quando eles queriam torturar era com extrema maldade, extraam
dentes, unhas, queimavam com ferro quente, podiam at furar os olhos.
        Gemi e roguei:
        "Meu Deus, tenha piedade de mim. Porm, salve meus filhos e no a
mim."
        A tarde estava quente, o calor mido me fazia delirar de sede. Tambm
estava faminta.
          "Ser que estou andando em crculos? - Preocupei-me. - No faz mal, no
quero ir a nenhum lugar, se estiver, eles estaro tambm. At quando agentarei
andar?"
              Parei  noite e, quando no enxerguei mais nada, me deitei no cho e
tirei um cochilo. Estava aflita e com medo, por isso no conseguia dormir,
descansei pouco e logo nos primeiros raios de claridade me levantei e me pus a
andar. Estava ansiosa para parar novamente, mas a noite demoraria a vir. Meus
perseguidores pararam tambm  noite, ningum se aventuraria a andar pela mata
no escuro.
          "Se eles no me pegarem esta tarde, iro faz-lo s amanh - conclu. -
Meus filhos..."
          Tive,  noite, ali na mata, um sonho: parecia que eu me desligara do corpo
para ir at meus filhos. Os trs dormiam num vo entre as pedras, estavam
cansados, mas aliviados, ningum os perseguia.
          "Ser que meu sonho  verdadeiro? - Balbuciei. -Quero crer que sim".
          No sabia como, mas tinha a certeza de que eles estavam bem.
          Tentei ver a posio do sol entre as rvores e calculei que deveriam ser trs
ou quatro horas da tarde. Foi quando me defrontei com uma pedra grande, num
lugar onde no havia muitas rvores. Vi o cu, o seu azul bonito. No resisti.
          "Vou parar um pouquinho! Vou descansar por alguns minutos."
          Deitei na pedra e me pus a olhar o cu. O barulho dos ces me alertava que
eles no haviam parado e que a distncia diminua.
          Por uns minutos fiquei quieta, esticada sobre a pedra. Resolvi continuar,
encolhi as pernas para me levantar, quando senti uma dor aguda, uma pontada no
tornozelo esquerdo. Olhei assustada e vi uma cobra se afastando, to assustada
quanto eu.
          "A cobra me picou! Uma cascavel!"
          Ela certamente estava perto de mim e se assustou com o meu movimento
brusco, deve ter se sentido ameaada e me picou.
        "Meu Deus! - Resmunguei. - Irei com certeza morrer. E agora, levanto e
continuo a andar ou fico aqui? - Cheguei a sorrir. - Morrer? Vou morrer de
qualquer jeito e se for por causa do veneno da cobra ser o melhor que pode me
acontecer".
        Sentia um cansao to grande que s a idia de me levantar e andar me deu
enjo. Resolvi ficar. Acomodei-me novamente, esticando meu corpo cansado.
        Sabia lidar com picadas de cobras, j vira companheiros morrerem por
terem sido picados. Tentava aliviar as vtimas desse bicho peonhento, mas raras
vezes conseguia salv-las se a cobra era mesmo venenosa.
        Aprendi com os negros da senzala a fazer remdios, chs, como tambm a
colocar ervas no ferimento. E ali, longe de tudo, nada podia fazer por mim, nem
gua tinha para beber. Ao lembrar-me da gua, desejei imensamente saborear esse
lquido delicioso.
        "gua, gua - falei. - Que gostoso poder tom-la. gua  bno! Que
grande bno!  to bom sabore-la!" Ergui a cabea e olhei o ferimento, l estava
o sinal dos dois dentes da cobra. Fiquei quieta ali na pedra, no tinha nimo nem
para me mexer. E as lembranas vieram...
        A nica pessoa que me chamava de Jussara era minha me adotiva, a meiga
e bondosa Jacinta.
        "Jussara - dizia ela -, foi seu pai que deu esse nome a voc. Ele era livre,
branco, empregado da fazenda. Quando o sinh Silva comprou este lugar, ele veio
junto como empregado. Aqui ele se apaixonou por sua me, a ndia Japira. Foi um
amor lindo e voc nasceu. Quando sua me morreu, seu pai perdeu a razo, parecia
que ia enlouquecer de dor. Acabou pedindo ao sinh para fazer um servio
perigoso e morreu assassinado. Acho que morreu feliz para ir se encontrar com sua
me. Mas, antes de ir para o tal servio, me pediu para que tomasse conta de voc.
Jussara, voc no  escrava!  cabocla, filha de branco e ndio".
        "No sou escrava, mas vivo como uma!" - Falava sempre.
        Jacinta tentava me confortar:
        "Jussara, o sinh Silva sabia disso. Quando seu pai morreu servindo-o, ele
at me falou: 'Negra Jacinta, crie a menina do Limo, ela  livre, mas o que ir fazer
com essa liberdade sendo to pequena? Ela viver aqui com voc, na senzala, e
depois veremos'."
        Quando encarnada, nunca soube o nome do meu pai, s seu apelido:
Limo. Ele era chamado assim porque, como me contaram, um dia ele confundiu
laranja com limo. Foi alvo de risadas e brincadeiras, e ficou o apelido. Ele se
chamava Joo.
        Tinha oito anos quando o sinh Silva desencarnou e seu filho, sinh
Floriano, como herdeiro, ficou dono de tudo.
        Fui criada como escrava e era tratada como uma. Estava com doze anos
quando um dia, estando trabalhando na colheita de milho, o sinh Floriano
aproximou-se de mim, verificando o trabalho. Aproveitando a oportunidade,
mesmo com medo, lhe falei:
        "Sinh, por favor, posso lhe dizer algo?"
        "Diga, negra!" - Respondeu ele me olhando.
        " que no sou negra, sou filha de um branco, ex-* empregado da fazenda
do seu pai, com uma ndia."
        "Nota-se pelos cabelos lisos que  filha de ndia. O que voc quer,
Cabocla?" - Indagou o sinh.
        "Ser livre!"- Respondi baixinho.
        "Livre? Para qu? Aqui voc come, tem lugar para dormir. Voc pensa que
irei sustent-la vagabundeando? Se no quiser trabalhar, no ir comer. O que far
com sua liberdade? Vamos, diga!" - Falou meu sinh, j irritado.
        "Bem, no sei..." - Respondi com medo.
        "Ento fique como est e no me encha!"
        "No  justo! Vivo como escrava sem ser uma!" -Falei.
        "No me faa perder a pacincia. O que sabe voc de justia? Acha injusto
eu tratar voc como escrava sem ser? Poderamos ter deixado voc morrer de fome
e no o fizemos."
        "Mas  que no sou negra e nem escrava!" - Repeti.
        "Voc j disse isso e eu lhe digo, se  tratada com uma,  escrava! Chega,
menina! Tenho o que fazer. Saia da minha frente!" - Gritou o sinh.
        Como no sa, um feitor que o acompanhava me deu uma bofetada no
rosto e eu ca, ele ia me chutar quando o sinh ordenou:
        "Pare! S essa bofetada est bom. E voc, menina, decida, ou fique aqui
como escrava ou v embora se quiser a liberdade."
        Lgrimas caram pelas minhas faces e o sangue escorreu do lado esquerdo
de minha boca. Limpei-a e continuei meu trabalho.
        Naquela noite chorei muito nos braos de Jacinta.
        "Cabocla - disse Maria bondosamente -, no chore,  seu destino ser
escrava sem ter nascido uma. Voc pode ir embora. Mas como ir? Para onde? Os
perigos so muitos para uma menina que logo ficar mocinha. O que fazer loira da
fazenda? Aqui voc tem a gente, tem Jacinta, que a ama como me, conhece todos
e  conhecida. Tem lugar para dormir e alimentos. O que far se sair daqui? Ir para
a cidade? Eu no conheo a cidade, nem sei como , aqui ningum sabe ao certo,
s temos as informaes de Onofre, que veio de uma. Diz ele que l  estranho,
muitas casas, uma ao lado da outra, muita gente branca e escravos. No deve ser
bom para uma menina sozinha.  melhor que fique aqui".
        "Como escrava sem ser?" - Questionei.
        Maria me abraou e disse carinhosamente:
        "Somos o que podemos ser. Se no  escrava e no consegue viver de
outro modo, de que lhe adianta ser livre? No fique triste, Cabocla, aceite o que a
vida lhe oferece."
        "Voc, Maria, sempre foi,  conformada" - disse Filo, que estava
escutando.
         "Tento ser paciente, Filo - respondeu Maria. - De que adianta viver
reclamando, querendo ser o que no somos? Aprendo muito nessa senzala, com
essa vida".
         "Voc, Maria, sempre fala esquisito. Aprende! O que pode aprender como
escrava? A carpir, lavar roupas, ter filhos?" - Indagou Filo.
         " verdade, Maria - falou Jacinta. - Voc fala muitas coisas esquisitas que
no entendo.  to boa e conformada".
         "No falo nada de estranho - replicou Maria-  que sonho sempre..."
         "Sonhos esses bem estranhos" - falou Filo.
         "Tambm os acho estranhos - repetiu Maria. - Sonho sempre que j fui
uma sinh, passei a vida toda sem fazer nada, nem de bom, nem de mau, uma
preguia s. Esqueci de trabalhar, ser til, e sofri por isso. Agora, como negra e
escrava, trabalho, ajudo os outros, os doentes, benzo, fao chs que so remdios
que curam, sinto-me til e no temo a morte, estou tranqila. Aprendo sim, Filo,
mesmo forada, trabalho muito".
         "Se seus sonhos so verdadeiros, voc j foi uma sinh. E agora prefere ser
escrava. Quer continuar sendo uma?" -Perguntou Filo, confusa.
         "No sei explicar direito - respondeu Maria. - Certamente que eu queria ser
uma sinh, ter roupas bonitas, me alimentar bem, ter um quarto s para mim. Mas
sinto que j fui uma e que tudo passou, que todo o conforto que tive no me serviu
de nada. A morte  para todos e quando ela vem modifica tudo. Morre pobre,
morre rico. Nosso ex-sinh no morreu? Meu pai escravo no morreu? Tudo o que
nasce morre, temos uma alma e vamos com certeza continuar vivendo. E acho que
aquele que  preguioso, nada fez de til, sente-se vazio, triste e aborrecido, logo,
infeliz. J aquele que foi til sendo sinh ou escravo est contente, esse
contentamento vem l do ntimo, da alma.  o que sinto nos meus sonhos, eu,
como sinh, tinha tudo, mas era infeliz, vazia, e agora que nada tenho estou
satisfeita comigo, tranqila, e sei que serei feliz".
        "No entendo seus sonhos - disse Jacinta. - Ou ser que os entendo? Estou
me lembrando agora de Nau, um negro que viveu aqui quando eu era menina. Ele
veio de longe, de um lugar com nome esquisito. O feitor dizia que ele era da
frica. Nau falava de um modo estranho, s vezes no conseguia entend-lo. Mas
ele dizia que sua terra era muito linda, tinha animais grandes e bonitos. Dizia
sempre que, quando a gente morre, deixa na terra o corpo apodrecer e vai para um
lugar por algum tempo, e depois volta e nasce em outro corpo1. Por isso se pode
ser sinh, morrer e nascer escravo e vice-versa. Riam dele, eu o achava engraado,
mas nunca me esqueci de suas palavras. Talvez esse negro estivesse com a razo, e
seus sonhos, Maria, no sejam to estranhos. Se Deus  bom e misericordioso, por
que nos fez escravos? Ser que Ele cria uns para servir a outros? Por que essa
diferena? Se Ele no  justo, no  Deus e a Ele no existe! Se existe e  justo, tem
que haver um motivo para essas diferenas. Agora, se acreditar que o esprito, ns,
nascemos muitas vezes, a escravido pode ser uma ocasio de aprendizado, de fazer
preguiosos trabalharem".
        "Vocs falam muito e no acham soluo para o meu problema" -
resmunguei, sentida.
        "Minha filha,  melhor voc ficar aqui conosco - falou Jacinta me
abraando. -No quero me separar de voc! Maria tem razo. De que adianta ser
livre se no tem para onde ir?"
        "Cabocla, sabe que me revolto por ser negra e escrava, queria ter nascido
filha dos sinhs, mas tambm no vejo outra soluo para seu caso, deve ficar aqui
conosco na senzala e como escrava" - opinou Filo.
        Chorei muito naquele dia, resmungando:
        "Se no tivesse ficado rf no estaria sendo tratada como escrava. Meu pai
certamente teria cuidado de mim."
        O tempo passou e acabei por aceitar a situao.
        "Minha infncia! -- Balbuciei baixinho. - No posso reclamar de minha
infncia!"
          I- Muitos negros vindos da frica tinham conhecimentos sobre vrios assuntos,
principalmente os africanos pertencentes a algumas tribos. Nau foi um rei em sua aldeia, era um
esprito que em existncias anteriores teve a compreenso da reencarnao e nessa, com o sofrimento
que a escravido lhe- imps, recordou. (Nota da Autora Espiritual)


          Falava devagar, estava ofegante, respirava com dificuldade e fazendo
barulho, suava e ansiava por gua, minha boca estava seca. Levantei a cabea, senti
tontura e escutei os ces mais perto.
          As lembranas de minha infncia, a imagem de cenas vividas, vieram
fortes.
          Brincava com a garotada na senzala, era amiga de todos. Jacinta cortava
meus cabelos bem curtos para evitar falatrio, porque os tinha diferentes dos
outros.
          Gostava muito de ir ao pomar, subir nas rvores, colher frutos. Fazamos
armadilhas para passarinhos, mas eu acabava soltando-os, no gostava de ver
animais presos.
          Brincvamos que ramos os sinhs e eu gostava de imitar o padre que vira
somente duas vezes, que fora benzer a fazenda. Pegava um galho em que deixava
umas folhas na ponta e o balanava, falando enrolado. Ramos, achando graa.
          Ns, as crianas, ramos bem alimentadas e vestidas, andvamos soltas
pela fazenda. Os adultos tambm tinham lazer, s que estavam proibidos de
realizar os cultos africanos e eles foram esquecidos.
          Desde pequena gostava de um negro, Jos, que era casado e tinha filhos.
Quando menina, queria que ele fosse meu pai; adolescente, o quis para marido.
          "Jos, Jos... - Balbuciei. - Meu primeiro e nico amor..."
          Mas Jos era srio,trabalhador e bondoso, estava sempre acalmando os
negros, ajudando todos. Um dia, um de seus filhos foi ferido com a enxada.
Cuidaram dele na senzala, mas o ferimento infeccionou e ele ficou mal. Jos pediu
ajuda ao nosso sinh, este nem respondeu e o mocinho desencarnou. Jos chorou
muito, ficou quieto e tristonho por dias, escutou muitas ironias, como:
         "Voc, Jos, sempre nos pediu pacincia, sempre fez tudo para os sinhs e
agora, quando precisou deles, nada fizeram por voc, nem foram buscar o
benzedor na outra fazenda e nern chamaram o mdico da cidade" -- falou um
jovem amigo do mocinho morto.
         "Chamar mdico para negro, s na sua cabea" - retrucou uma negra.
         "Mas para Jos bem que poderia - opinou uma escrava. - Ele sempre foi
exemplar".
         "Mas  negro e escravo!" - Disse um negro maldosamente.
         Jos no respondia a nenhum comentrio. Sua esposa -Morou muito pelo
filho morto. Eles tinham oito filhos. Ela, desesperada, disse:
         "Eu no terei mais filhos, no vou dar mais escravos para servir os sinhs,
que nem cuidam de ns."
         Tive vontade de consolar Jos, mas no o fiz, evitava falar com ele. E a
esposa dele cumpriu a promessa, passou a dormir com as mulheres sem
companheiros e no teve mais filhos.
         Algum tempo depois da morte do filho de Jos, reunidos aps um dia de
trabalho, ele disse:
         "Sofri, sofro muito com a morte do meu filho. Acredito em Deus e O acho
justo. Estive pensando e cheguei  concluso de que a morte, para os bons, no 
castigo, , deve ser, um acontecimento bom. Mas a morte no deve ser voluntria,
no devemos acabar com a nossa vida, cada um tem um tempo certo para ficar no
corpo fsico. Devemos nos conformar com a vida que temos, porque no  Deus
quem escolhe nossa sina,  a gente que faz por merecer t-la de um modo ou de
outro. Meu filho morreu jovem, sentiu muitas dores, mas no momento da morte
estava tranqilo e agora deve estar num bom lugar."
        "Ora, Jos, o que nos importa morrer e ir para um bom lugar! - Exclamou
uma negra com ironia. - Ir para o cu dos brancos? Se formos para l,
continuaremos servindo!"
        Jos a olhou por um instante e respondeu tranqilo:
        "Minha cara, Deus, ao criar tudo, a Terra, o sol, as estrelas, no estava
servindo? Tudo isso no foi um trabalho d'Ele? Por que ns no podemos servir?
Tenho a impresso de que h apenas um cu para onde vo todos os homens bons,
sejam eles brancos ou negros. E que este cu  temporrio, porque  aqui, na Terra,
que acertamos nossos erros. No sei por que, mas acredito nisso."
        "Que ningum da casa-grande escute isso - disse Jacinta. - Os sinhs no
querem que se fale sobre isso. Eles no acreditam. Talvez porque no tolerem
pensar que j podem ter sido negros e escravos ou que podero vir a ser".
        ,"Mas, se pensarmos que o esprito tem muitas existncias fsicas em
corpos diferentes, a gente cr que Deus  justo e bondoso" - falou Maria.
        Escutei a conversa atenta, sem coragem de opinar. Achava que, se Deus
era justo, Ele no ia fazer diferena entre seus filhos, e se estas existiam era porque
ns mesmos as fizemos.
        Continuei a amar Jos, nunca fiquei sabendo se ele soube ou no desse
meu amor, nunca me deu ateno e nem conversou comigo a ss. E ele continuou
sempre sendo o amigo de todos de todas as horas.
        Caolho interessou-se por mim. Chamava-se Jernimo, mas, como tinha os
olhos tortos, todos o chamavam por esse apelido. Era um rapaz simptico.
Acabamos por namorar e at gostei dele, passamos a viver como marido e mulher.
        Tivemos trs filhos, deixei os cabelos crescerem e nem falava mais que no
era escrava. Como no ser, se era casada com um e os filhos eram mulatos e
escravos?
        Um dia Caolho, indo atrs de uma vaca, caiu do cavalo e fraturou a perna,
o fmur, na altura dos quadris. Ficou imobilizado, cuidamos dele, mas a perna
gangrenou e, como no tnhamos recursos para cort-la, a doena se espalhou
rapidamente pelo corpo. Caolho sofreu muito. Fui afastada do trabalho para cuidar
dele e o fiz com toda dedicao e carinho.
        "Cabocla - disse ele -, devo partir, vi hoje ao meu lado minha me e meu
amigo Tiu, que esto mortos h tempo. Eles me disseram para ter calma que logo
meu sofrimento ir acabar e que iro me levar para um lugar onde no terei mais
dores. Confio e no tenho medo. Cuide dos nossos filhos, olhe sempre por eles".
         Fiz que sim com a cabea e comecei a chorar. Ele comeou a delirar,
desencarnou tranqilo e suas ltimas palavras foram:
        "Me, eu vou!"
        No quis mais me unir a ningum, aprendi ento a cuidar dos doentes e
passei a faz-lo com carinho.
        Voltei a me lembrar de Jos, sempre calmo, tranqilo, conselheiro da
senzala. J estava velho e eu o respeitava e admirava. Agora, ali deitada naquela
pedra, fraca, compreendi que meu amor por Jos sempre foi uma jia que guardei
no fundo do meu ser.
        "A cobra! Seu veneno est me matando! Bendita ou maldita? Nem uma
coisa nem outra, ela  s um animal que, se sentindo ameaado, me picou. Talvez
seja melhor morrer pelo seu veneno que nas mos dos feitores. Deus 
misericordioso, teve, tem misericrdia de mim. A cobra..."




                                             3

        RECORDAES


        "Por que ser que recordo tanto? - Indaguei-me. - Ser porque estou fraca?
Ser o veneno da cobra? No, j o fazia antes de ela me picar. Essas lembranas me
so agradveis, no me sinto s..."
        S que as recordaes no vinham em seqncia; me lembrava de fatos
ocorridos anos atrs e outros que tinham acontecido havia apenas alguns dias. As
cenas iam e vinham na minha memria e me deixei envolver, pois me pareciam to
reais que era como se eu as estivesse vivendo novamente.
        O sinh Floriano era mal-humorado e resmungo, mas boa pessoa. Como
j mencionei, naquele tempo no era ruim nossa vida, a dos escravos da fazenda.
ramos bem alimentados, vestidos, tnhamos folgas e festas. Era raro haver
castigos, a senzala era grande, espaosa. No havia abusos sexuais. Mas eles, muito
catlicos, proibiram nossos cultos e, embora ns no entendssemos a religio
deles, tnhamos que dizer que tambm ramos catlicos.
        "Ser que esse Jesus morreu por ns tambm, os negros?"
        Negrito, um jovem escravo, estava sempre indagando e ningum sabia
responder. A sinh, a esposa de sinh Floriano, estava nos ensinando sua religio.
Ela, quando tinha vontade, nos reunia aos domingos  tarde e nos falava de sua
crena ,nos ensinava a orar, mas era difcil decorar aquelas oraes grandes que no
entendamos. Rezvamos pela metade, s vezes modificando a prece. Sorri ao
recordar. Uma vez, uma amiga minha rezou:
        "Pssaro de Maria, cheio de graa..."
        A sinh ficou brava e ela perguntou:
        "Ave no  pssaro?"
        A sinh no respondeu e ordenou:
        " ave e acabou..."
        Acho que nem ela sabia que ave era no sentido de salve.
        Um dia Negrito perguntou  sinh aquilo que tanto o incomodava:
        "Jesus  ou no o salvador dos negros?"
        "No - respondeu a sinh - , acho que no. Creio que no havia negros
naquele tempo".
        "Um dos reis magos no era negro? Ouvi o padre falar isso quando ele
esteve aqui no Natal" - disse Maria.
        "Bem, no sei - respondeu a sinh. - Pode ser que sim, pode ser que no.
No quero que pergunte mais nada, vamos aprender  orar".
        No perguntamos mais nada. Jacinta comentou aps a aula:
        "Esse Jesus  estranho, poderoso e foi morto na cruz..."
        "Para nos dar exemplo - disse Maria. - Ele foi humilde e no estranho".
        "Jesus nasceu para nos ensinar, certamente incomodou a muitos com Suas
palavras e por isso morreu - disse Jos, concentrado. - Acho que no foi Sua morte
a passagem mais importante de Sua existncia. Penso que foi Sua vida, o que fez, o
que falou, o que ensinou. Muitos focalizam Sua crucificao como o ponto
principal, esquecendo-se de Seus ensinamentos. A sinh at chora ao contar Suas
dores, mas diz Seus ensinamentos sem emoo. Concordo, Jesus sofreu, mas no
vemos tantos aqui sofrerem tambm? No sabemos de muitos negros que morrem
nos troncos, em torturas? Claro que no so como Jesus, mas so filhos de Deus
tambm. O importante  o que Ele ensinava, Sua orientao, e devemos seguir Seu
exemplo. Gostaria de saber mais, tudo sobre Jesus. Que homem excepcional foi
Ele!"
        Concordei com Jos, embora tenha ficado quieta. Achei que a maior lio
que Jesus nos deixou foi que Ele amou muito mais do que foi amado. Foram muito
boas aquelas aulas, aprendi a amar Jesus e Maria, Sua me.
         O sinh Floriano desencarnou e a sinh foi morar com a filha longe da
fazenda, e seu filho, sinh Narciso, veio com a esposa tomar conta de tudo.
        Esse novo sinh era bom, s que no ligava para a fazenda e eram os
empregados que cuidavam de tudo.
        O sinh Narciso e a sinh Frano tinham uma histria interessante. O
sinhozinho Narciso, na idade de casar, no o fez. A famlia havia tentado arrumar
casamento para ele, porm o sinhozinho recusou-se a aceitar. Comentavam em
cochichos que ele no gostava de mulheres. Os pais sonhavam em v-lo casado e
com filhos. E, numa viagem que ele fez  Frana, voltou casado. Ele deixou a
esposa no Rio de Janeiro e veio  fazenda dar a notcia aos pais. Contou &  que
ela, a esposa, era de famlia nobre, mas arruinada, e que estavam muito
apaixonados. Os sinhs foram  corte conhecer a nora. Parece que a aceitaram e o
casal ficou morando no Rio de Janeiro. Com a morte do sinh Floriano e a sinh
indo embora da fazenda, eles tiveram que ir morar nela. E era Filomeno, um velho
empregado, quem cuidava de tudo.
         A francesa, a nova sinh, despertou curiosidade em ns. Era bonita, loura
de olhos claros, alegre e risonha, os dois pareciam se dar bem. No tinham filhos.
Achvamo-la estranha, no tinha nenhuma escrava para ajud-la a se vestir, a se
banhar, e as escravas que serviam a casa-grande comentavam que ela tinha algumas
atitudes diferentes. As lavadeiras afirmavam que ela no tinha menstruao. Nos
primeiros meses at pensamos que estava grvida. Depois conclumos que a sinh
deveria ter alguma doena, mas ela parecia saudvel. Era muito simptica, tratava
todos bem, passeava a p ou a cavalo pela fazenda e levava sempre algumas
escravas com ela. Ria e brincava muito. Ela se chamava Georgette, mas passamos a
cham-la de Frano; no comeo escondido, depois ela veio a saber, gostou do
apelido e todos ns passamos a cham-la assim, com a sua aprovao.
        Foi um perodo feliz, em que ouvamos sempre sua risada alegre e
escandalosa. Mas eles resolveram ir para a Frana numa longa viagem, ficando em
seu lugar um primo do sinh Narciso, o cruel sinh Honorato, que tinha idias
diferentes em relao  escravido.
        Sua primeira providncia foi substituir os empregados da fazenda por
outros que vieram com ele. Despediu Filomeno com a desculpa de que ele estava
velho e levou-o junto com a esposa para a cidade. Ficamos sem proteo, no
tnhamos a quem nos queixar. Diminuiu nossa alimentao, passou a exigir mais
trabalho e comearam os castigos. Muitos velhos escravos voltaram a trabalhar.
Tnhamos saudade do tempo antigo. Foi um perodo difcil, em que muitos de ns
passaram a desejar a liberdade e a querer fugir.
        Ficamos sabendo que um quilombo foi formado no alto da montanha e
que muitos escravos da regio tinham ido para l.
         Na nossa fazenda houve uma fuga de onze escravos, que no foram
capturados. A o sinh Honorato adquiriu ces ferozes, contratou mais empregados
e a vigilncia aumentou. E foi logo aps a fuga desses escravos que meu filho saiu
sem permisso e foi castigado para servir de exemplo.
         No gostei do empregado Lisberto desde a primeira vez que o vi, nenhum
dos escravos gostou dele. Fiquei apreensiva quando ele comeou a se interessar por
Tobi. Minha filha era muito bonita, mulata com os olhos castanho-claros, com
traos do av branco e corpo bonito.
         Lisberto no havia feito Tobi de amante porque a esposa do sinh
Honorato no gostava, no queria abusos sexuais, mas ela viajava muito e, como
estavam ocorrendo muitos abusos, tudo indicava que poderia acontecer de tudo
naquela fazenda e que nem a esposa do Lisberto, que era jovem e bonita, salvaria
Tobi das taras desse feitor desumano.
         Torcamos para que o casal voltasse logo, mas eles estavam sempre dando
notcias adiando o regresso.
         Comeamos a perceber que o sinh Honorato estava roubando o nosso
sinh, depois tivemos a certeza. Mas no tnhamos como avisar nosso sinhozinho
Narciso, ningum sabia escrever na senzala. Tnhamos que ficar quietos, tentando
nos adaptar  nova administrao.
         Parei de recordar por instantes, olhei o cu. Como olhar o infinito nos
acalma. Estava me sentindo muito mal, no tinha foras nem para me mexer.
Conclu: "Logo irei morrer!"
         Todos ns sabemos que iremos morrer, que o corpo fsico que usamos,
ns, espritos, para nos manifestar no mundo fsico, ir um dia parar suas funes
biolgicas, mas quando esperamos pela morte com tempo determinado  outra
coisa.
         Conhecendo os efeitos do veneno, sabia que logo iria falecer. Fiquei
arrepiada.
         "Calma, Jussara - resmunguei para mim mesma. -Todos morrem..."
        Por que ser que a morte nos causa pnico? Ser que  por no saber o que
se passar conosco? Meu instinto de preservao veio forte.
        "No quero morrer!" - Exclamei.
        "Mas ser que nesse caso querer  poder?" - Pensei.
        "No!" - Cheguei a balbuciar.
        No tinha poder sobre a vida ou a morte. E a morte  uma continuao da
vida.
        "Tudo  passageiro!"
        Realmente, a vida  uma s, mudamos a forma de viv-la. Mas naquele
momento, ali, sozinha, esperando essa mudana, tive perodos que foram instantes
de medo e pavor, mas depois de paz e tranqilidade, em que senti que algum me
amparava, me transmitia profundo e puro amor. Senti que deveria me ligar a esse
sentimento que me acalmava, mas vacilava e esperava... E esperar sempre 
angustioso. Aguardar a morte me foi estranho. No estava esperando por algo
qualquer, ou por uma pessoa, mas pelo desconhecido. O que viria a ser essa
mudana? Vieram as indagaes. Ser que iria acabar? Desaparecer para sempre?
        "No - conclu. - Isso no! Sinto meu esprito, sinto-o dentro desse corpo
cansado. A vida continua!"
        Iria para o inferno? Cu? No fui to m para ir para o inferno e nem to
boa para merecer o cu. Que vida iria ter? Iria me encontrar com aqueles que amei
e que j morreram?
        Nesse momento os erros nos afligem e desejamos no t-los cometido. E
os acertos nos do tranqilidade.
        "Poderia ter sido melhor, ter feito mais o bem, ajudando mais os outros."
        Quase sempre desejamos isso, felizes os que aproveitam a oportunidade,
porque o tempo passa e no volta mais. E a morte do corpo fsico chega, levando-
nos a desencarnar, a viver de outra forma, que ser de acordo com nossas aes.
        "O que fiz de errado? - Indaguei. - No sei... Ser que amar um homem
que tem uma companheira foi um erro?"
        Envolvi-me novamente nas recordaes...
        Nunca aconteceu nada entre mim e Jos. Foi somente eu a am-lo. Ele era
muitos anos mais velho que eu. Quando pequena, Jos j era adulto e eu o olhava
admirada. Quando ele se juntou com Zefa, fiquei triste, tinha quase nove anos e
chorei escondida. Acompanhei sua vida, sabendo tudo o que acontecia com ele.
Era discreta, tinha horror de que descobrissem meu amor. Acho que ele
desconfiou, porque um dia estava sozinho encostado na cerca junto  senzala, me
viu olhando para ele, por um instante pensei que fosse me falar algo, mas afastou-se
rpido e desde aquele dia me evitou.
        "No, meu amor por ele no podia, no pode ser errado."
        No houve nenhuma ao errada decorrente desse sentimento. No fiz
ningum sofrer por isso. Foi algo belo, que por muitas vezes me incentivou a viver,
alimentou minha iluso, me deu esperanas. Foi um amor lindo!
        Os anos se passaram e eu fiquei mocinha. Jacinta sempre me dizia:
        "Jussara, voc est na idade de casar. Tem alguns pretendentes, escolha um
para ser seu marido." "Casar? Como casar?" - Indagava rindo. "Aqueles que se
ajuntam aqui na senzala  como o casar dos brancos. So companheiros e isso 
que  importante" - respondeu Jacinta pacientemente.
        "De fato - disse nossa amiga Maria -, todos os casais deveriam ser
companheiros, amigos que se ajudam enquanto esto caminhando juntos. O amor
paixo deve ser substitudo pelo amor desinteressado, sem apego. Quando um casal
se une s por fatos externos no h nada nessa unio que dure ou permanea.  no
ntimo que est o verdadeiro amor carinho, que no passa com o tempo".
        Achei que Jacinta tinha razo. Pensei bastante. Amava e no era
correspondida, ele no seria meu companheiro, estava ligado a outra. Resolvi
escolher dentre os jovens solteiros um companheiro.
        "Senzala, meu lar! A moradia que tive durante esta vida!"
        A senzala era a casa de todos os escravos da fazenda. Uma grande moradia
onde havia muitas pessoas que pensavam diferente. s vezes l era agradvel, havia
demonstrao de afeto, principalmente entre pais e filhos. Tambm foi bero de
grande amizades, lugar em que havia sempre ocasio de fazer o bem, ajudar o
prximo.
          Mas tambm s vezes tornava-se desagradvel por serem muitos a
desfrutar de um mesmo espao que nem sempre era respeitado. Havia muitos
desentendimentos, fofocas, discusses e at brigas. E os motivos eram diversos,
mas o maior era a inveja que um tinha do outro. Tanto que os escravos que serviam
na casa dos sinhs eram invejados e iam pouco  senzala, eles dormiam no poro
da casa-grande.
          Davam muitos palpites um na vida do outro, havia quase sempre brigas
entre casais, at algumas traies, que para no acabar em mortes eram apaziguadas.
          Sei que existiram muitas senzalas no Brasil, em inmeras fazendas, e que
no foram idnticas e os escravos foram tratados de muitas maneiras. Mas
descreverei aquela em que vivi.
          A senzala era feita de barro e pau, tinha espao para todos. Havia o canto
para a cozinha, uma latrina, que era uma fossa funda cercada de tbuas e ficava do
lado direito,  frente. Era usada s em casos especiais: por doentes ou  noite. Isso
evitava que a senzala ficasse com cheiro ruim. As outras latrinas eram fossas
externas, do lado esquerdo, a alguns metros de distncia, entre as rvores. Tinha
seis casinhas de barro, trs para as mulheres e trs para os homens.
          Tomvamos banho no riacho, as mulheres o faziam de roupa, que
trocvamos numa casinha, que tambm era de barro e pau, perto do riacho. Esses
banhos, dependendo da poca, eram de duas a trs vezes por semana.
          Guardvamos nossos pertences, sempre poucos, nas nossas esteiras de
dormir.
          Ns, as mulheres, sempre deixvamos a senzala limpa, varrida e
organizada. As jovens colhiam flores e as colocavam por toda ela, enfeitando-a.
Mas, mesmo assim, seu cheiro no era agradvel. Mesmo o espao sendo grande,
era para muita gente.
         Houve senzalas em que os escravos eram presos, s vezes pequenas para
muitos, onde as latrinas ficavam na parte interna, mal ventiladas, o odor era
realmente desagradvel.
         No calor, a senzala em que vivi era abafada, no inverno entrava muito
vento, era fria. Estvamos sempre reclamando.
         Mas foi o lar que tive, uma escola na qual aprendi muito, como a conviver
com outras pessoas, a respeitar quem no pensava como eu, a repartir, a ser
solidria e a dar valor a um lar, a uma casinha simples em que morasse s minha
famlia. Era isso que desejava quando estava na senzala, foi a isso que aprendi a dar
valor.




                                             4


         FATOS E FATOS


         "Ser que eu, ao morrer, virarei alma penada? No quero! Certamente irei
com uma alma boa para algum lugar. No quero assombrar ningum.
Assombraes..."
         Lembrei-me de um fato que ocorreu quando ainda era pequena. Por causa
de uma negra faceira, dois escravos brigaram, se machucando. Dias depois, um
matou o outro pegando uma enxada e golpeando o rival na cabea. O escravo que
matou ficou preso no tronco por no ter outro lugar para ficar. A escrava escolheu
um terceiro, outro jovem, para ser seu companheiro. O assassino ficou preso s
uma semana. Achando que estava solucionado o problema, o sinh mandou solt-
lo. Mas, ao ser liberto, ele pegou um pedao de pau e foi tentar matar a jovem que
amava. Ela gritou e um feitor foi acudi-la, sendo atingido por uma paulada. Um
outro feitor pegou uma faca e matou o negro assassino. Foi um fato triste, e os pais
dos que morreram sofreram muito com o ocorrido. Nada aconteceu com a escrava
e o feitor atingido s se machucou.
        Meses depois, a alma desse escravo passou a assombrar a fazenda. Eu tinha
muito medo. Ns, as crianas, nem ficvamos mais ao escurecer na porta da
senzala. Foram muitos a ver o escravo com a faca no peito, com o olhar rancoroso
e blasfemando.
        O sinh Floriano mandou chamar Maria e outros escravos mais velhos na
casa-grande e lhes pediu:
        "Dem um jeito na alma desse escravo! Faam o que for preciso para que
ele no assombre mais. Todos da fazenda esto amedrontados e essa alma penada
teve a ousadia at de vir assombrar a casa-grande. Chamei o padre da cidade, ele
veio benzer, orou, mas j no outro dia a assombrao estava aqui novamente."
        "Bem - falou Maria -,  que no se manda em esprito como se manda em
ns. No sabemos o que fazer".             "Ele era escravo como vocs e devem se
entender. Minha esposa est com medo e no quer ficar aqui. Faam o que for
preciso!" - Exigiu o sinh.
        Joaquim aventurou-se a falar:
        "Sinh Floriano, tenho um irmo que mora na Fazenda Santa Helena, ele
sabe fazer esse trabalho, ele e alguns amigos conversam com os mortos e creio que
eles podero falar com essa assombrao e orient-la para que no assombre mais."
        "Voc deve ir l hoje mesmo com o capataz. Vou escrever ao meu
compadre, o dono da Fazenda Santa Helena, para deixar que seu irmo e amigos
venham aqui nos ajudar" - disse o sinh.
        E assim foi feito. Logo  tarde estavam os visitantes, o irmo de Joaquim e
duas mulheres j idosas, hospedados na nossa senzala. Ficaram conversando,
trocando idias, at tarde da noite. As crianas foram afastadas para que no
escutassem.
        No outro dia, o trio saiu a andar por toda a fazenda, orando e queimando
ervas, foram at a casa-grande.  tardinha se reuniram no ptio em frente  senzala.
Fizeram um crculo, riscaram o cho, cantaram. Todos ns, inclusive as crianas,
ficamos vendo. Quando escureceu, eles pediram para quem tivesse medo entrar na
senzala. S algumas mulheres o fizeram, e ns, as crianas, fomos obrigadas a
entrar. Mas ns tnhamos nossos truques para fazer o que nos convinha.
         O medo era grande, mas a curiosidade era maior, ficamos a espiar pelas
frestas do porto, interessados em ouvir e ver o que se passava no ptio.
        "Meu Deus! - Exclamou um menino de oito anos. -Estou vendo o negro
assassino! Valei-me, Nossa Senhora! Ele est sendo obrigado a vir, tem dois
espritos pegando-o pelos braos "2.
        "No vejo nada - disse um outro menino -, mas acredito em voc. Mame
me disse que eles falavam que iam mesmo buscar a alma penada para conversar
com ela e explicar os inconvenientes de ficar a vagar com tanto dio. E eles fazem
isso porque tm amigos que tambm so mortos, s que so bons e os ajudam".
        "E, pelo que ouvi - disse uma mocinha -, quando uma pessoa  boa viva,
tambm  boa depois de morta. Tanto aqui como l os bons ajudam sempre e os
maus tentam fazer maldade".
        "Os bons sempre vencem .'"-Exclamou uma menina.
        "No acredito nisso! S se for l do lado dos mortos -disse um menino. -
Aqui os maus dominam, maltratam".
        "? - Disse a mocinha. -  s ver o assassino, como ele est, para perceber
que os maus so castigados".
        "Vamos ficar quietos, seno no escutaremos nada" -pedi.
        No deu para ouvir tudo, mas entendemos que o negro, o esprito que
assombrava, falou por uma, das mulheres e o irmo do Joaquim conversou com
ele. Exigiram que fosse embora e largasse de assombrar a fazenda. Foi uma
conversa demorada. Ajudaram-no tirando a faca de seu peito e curando o
ferimento. Ele foi embora para o alvio de todos e o irmo de Joaquim falou alto*:
        2- A criana que viu era sensvel, um mdium vidente. (N.A.E.)
          * O esprito falou por meio de incorporao. A mulher, que era mdium, serviu de
intercmbio entre o esprito e os escravos.
          Assim, o irmo de Joaquim pde esclarec-lo, e este, tomando conscincia de que havia
desencarnado, deixou de ter a impresso da dor do ferimento de seu corpo fsico. (Nota do Editor)


          "Esse jovem ir para um lugar aonde devem ir todos os que morreram. Foi
orientado a no voltar mais aqui. Vamos orar por ele desejando que fique em paz e
que receba a orientao necessria. Ele tem que perdoar a todos e a si mesmo,
esquecendo o rancor. Esse moo estava sofrendo muito, como fazem os que no
perdoaram, e esperamos que agora ele tenha alvio, siga o seu caminho e no volte
mais aqui."
          O trio voltou para sua fazenda no outro dia e ficamos a comentar o
episdio por muito tempo. Deu certo o ritual deles, que nada mais foi que uma
evocao e incorporao para uma orientao. E a assombrao no apareceu mais.
          Contavam-se na senzala muitos casos de assombrao. A maioria tinha
medo e eu sempre temi alma de outro mundo, mas sempre gostava de ouvir.
          "Quem se suicida so os que sofrem mais aps a morte do corpo -
comentou Joaquim. - Embora creia que cada caso seja visto por Deus de forma
diferente, justa. Lembro-me bem de um fato ocorrido quando eu era criana:
suicidaram-se em curto espao, aqui na fazenda, um negro, um capataz e sua
mulher. Uma negra velha, muito bondosa, pediu a todos ns que fizssemos
oraes e pensssemos com firmeza em no nos suicidar. Ela dizia que vibraes
de suicdio estavam sobre a fazenda e que aquele que se ligasse a essa energia teria
vontade de se suicidar. Recomendou tambm que falssemos com ela se tivssemos
vontade de morrer. Pois no  que foram muitos os que pensaram em se suicidar?
At a sinhazinha, a irm do sinh Floriano, que era menino naquela poca. O sinh
Silva mandou-a para a casa de sua irm passar uns tempos e foi ento que ela
conheceu o marido e por l ficou".
         "E os suicidas? Os trs que se mataram? Como ficaram? Assombraram a
fazenda?" - Indagaram.
         "Pelo menos ningum os viu. Mas falaram que eles sofreram porque no se
pode matar um corpo que Deus nos deu para viver aqui na Terra. Ao sofrer, deve-
se ter pacincia, tudo passa e sempre se tm momentos felizes" - respondeu
Joaquim.
         Joaquim, sempre que possvel, nos falava sobre o suicdio, que ningum
deveria faz-lo porque no se foge dos problemas arrumando outros piores. E acho
que no falou em vo. Enquanto vivi na fazenda, ningum se suicidou. Algumas
vezes se desejou a morte, mas nunca a ponto de pensar em acabar com a vida,
porque acreditvamos que a vida no acaba e que continua com a morte do corpo.
E suicidar-se no resolve nada, os problemas continuam os mesmos e, ao saber que
se continua vivo, surgem outras dificuldades e o remorso vem quase sempre forte.
E sabendo que existe a reencarnao  que no devemos mesmo pensar em tirar
nossa vida fsica e nem a de ningum, porque a reao para essa insensata ao 
sempre dolorosa, embora se tenha sempre o socorro e a ajuda de outros, irmos
auxiliando irmos. A colheita  de quem plantou.
         Um dia, conversando sobre assombrao, Jos comentou: "Por que alma
do outro mundo? Ser que ao morrer passamos a ser do outro mundo? De outro
lugar? Penso que todos os que morrem devem ir para um lugar nesse mundo
mesmo. E os que no vo e por algum motivo ficam aqui conosco podem ser
vistos e assombram aqueles que os vem."
         "Por que ser que uns vo para esses lugares e outros no?" - Indagou uma
negra.
         Jos respondeu, aps pensar uns instantes: "Acho que se tem sempre
motivos para ficar. As pessoas boas so os bons espritos, esses no assombram,
continuam sendo teis. H aqueles que foram bons, s que, apegados s suas
posses, no querem abandonar o que julgam ser deles, se sentem presos aos seus
bens, que na verdade no lhes pertencem mais. E at pelo amor egosta, paixo,
muitos no conseguem entender que necessitam viver separadamente por algum
tempo. Outros ficam pelo dio, odeiam tanto que se ligam aos seus desafetos,
querendo faz-los sofrer e sofrem junto. Os que ficam so sempre imprudentes."
            Ficamos quietos a pensar, conclu que Jos tinha razo. Morrer deveria ser
uma partida da qual no se leva nada, iramos s conosco mesmo, com nossas
aes boas e ms.
            Filo quebrou o silncio:
            "Voc, Jos, deve ter razo. A sinh antiga, que morreu h tempo, vagou
pela fazenda. Dizem que ela no foi m, mas que era apegada demais a sua casa e a
seus filhos, li, na fazenda vizinha, aquele capataz maldoso, depois que morreu,
assombrou por anos a fazenda, perseguido por alguns negros. Acho que o capataz
no encontrou sossego porque foi mau e os negros por no terem perdoado."
            "So muitos os fatos ouvidos e vistos - falou Jos -que servem para nos
confirmar que o esprito continua vivo aps a morte. Os bons tm o merecimento
de ficar bem, os maus sofrem pelas suas maldades e os que no perdoam sofrem
tambm, embora possam ser vtimas e bons".
            Naquele tempo no pensava na morte para mim, parecia que nascera para
no morrer. Mas essa passagem  para todos. Mesmo quando planejei a minha fuga
para despistar a dos meus filhos, no pensei em morrer. Enganei a mim mesma.
Quando queremos fugir da realidade, conseguimos. No pensei muito nas
conseqncias. Agora, ali estava esperando por ela, pela morte, ou pela chegada dos
feitores.
            "Quem chegar primeiro?" - Indaguei-me.
            Olhei para a pedra em que estava deitada, era cinzenta e irregular. Ao lado
do meu rosto estava passando uma fileira de formigas. Cada uma levando algo,
pedaos de folhas, gros, at pedacinhos de pau para sua casa, o formigueiro.
Observei-as por instantes.
            "Ser - me indaguei - que as formigas vivem no formigueiro juntas como
ns, negros, nas senzalas?"
           Vi-me criana...
           Dormia junto com outras meninas, muitas preferiam dormir com os pais,
mas, como eu era rf, dormia sempre com um grupo de amigas. Brincava e fazia
pequenos trabalhos, conversvamos muito e aprendi logo a ter medo. Temor do
sobrenatural, das pessoas, de alguns escravos que eram pessoas com qualidades e
defeitos e que olhavam para ns com cobia, a ns, as jovenzinhas, e muito para
mim, que era diferente, pele mais clara, cabelos lisos.
               Jacinta temia por mim e estava sempre me protegendo, queria que
casasse porque um companheiro me protegeria da cobia,de alguns homens.
           Mas queria encontrar um amor, um sentimento forte como o dos meus
pais. Pedia a Jacinta com olhar suplicante: "Conte, Jacinta, me conte a histria dos
meus pais." "Voc, menina, no se cansa mesmo de escutar. Eu no agento mais
falar dessa histria. Dizem que aqui nessas terras, antes de o branco vir e trazer os
negros como escravos, viviam os ndios, que eram os donos de tudo." Interrompi:
           "No entendo, Jacinta, se eles estavam aqui e eram donos da terra, como
puderam vir outras pessoas e mandar em tudo?"
           "Acho que poder mesmo no podiam, mas no so feitas tantas coisas que
no se podem fazer? Ns, os negros, ramos livres na nossa terra e os brancos
foram l e nos tiraram de nossos lares como se fssemos pedras, nos trouxeram
para c e nos obrigaram a trabalhar para eles. Somos como animais."
           Filo, que escutava, indagou indignada:
           "Jacinta, se nascemos para aprender, qual ser a lio que um escravo
aprende?"      l
           "Deve ser trabalhar, sem dvida" - respondi. ' "A obedecer e a domar o
orgulho" - respondeu Jacinta. "Parece que vocs duas esto pensando como Jos -
disse Filo. - No acredito nisso. No creio que aprendemos aqui na Terra. Acho
Deus injusto, se fosse justo, Ele no seria deus s dos brancos, ou no faria
negros".
        "Filo - falou Jacinta -, os negros sofrem, mas os brancos tambm. Ficam
como ns, doentes, sentem a morte de entes queridos, h brancos pobres".
        "No venha defender esse Deus em que voc cr!" -Exclamou Filo.
        "Como se Ele precisasse de minha defesa! Se o que Jos fala estiver certo,
Deus  justo! Talvez sejamos ns que diferenciamos, que fazemos por merecer a
vida que temos. No sei se Jos est certo, mas aprendemos quando queremos. E
eu aprendi muito aqui na fazenda."
        Filo riu de gargalhar.
        "No ria de Jacinta" - defendi-a.
        "Ora, Cabocla, no estou rindo dela, mas do que ela disse. Aprender algo
aqui? O qu? Na senzala?"
        "Sim, aqui na fazenda, na senzala - respondeu Jacinta. -Hoje no sou
orgulhosa, tenho f, amo a vida, sou obediente e gosto de trabalhar".
        "Jacinta - pedi -, fale de meus pais..."
        Minha me de criao, querendo pr fim na discusso, me atendeu:
        "Limo era branco, de sorriso bonito, era um timo empregado. Sua me
vivia com sua tribo nessas passagens, na floresta. Conheceram-se, mas no falavam
a mesma lngua. Comunicavam-se por sinais e um foi aprendendo a linguagem do
outro. A tribo de sua me, que era composta de poucos ndios, porque com uma
doena trazida pelos brancos, muitos morreram, no gostou do namoro de sua
me. Japira, sua genitora, era muito bonita e geniosa, e resolveu fugir com seu pai.
Os ndios resolveram ir para outro local se reunir com outra tribo. Seus pais
viveram felizes o tempo que ficaram juntos. Moravam numa pequena casa aqui na
fazenda, sua me ficou grvida e voc nasceu, mas infelizmente ela morreu. Seu pai
desesperou-se e o sinh me pediu para cri-la, tinha dado  luz um de meus filhos e
tinha leite para ambos e assim a criei. Seu pai, aps o falecimento de sua me,
tornou-se triste, ningum o viu mais sorrir, mas vinha todos os dias ver voc. A
teve o acidente e ele morreu."
        Jacinta calou-se e Filo, que escutava, comentou:
         "Filha de branco com ndio, criada na senzala e escrava!"
         Quis dizer que no era escrava, mas estava cansada de faz-lo sem
resultado. E, aps escutar a histria de meus pais, ficava sonhando com eles.
Imaginava-os belos e carinhosos comigo.
         Na senzala repartamos o ambiente com folhas tranadas ou tbuas. Eram
como biombos que dividiam alguns espaos para as famlias. Todos dormiam no
cho, mulheres e meninas de um lado, homens e garotos de outro. Fazamos
esteiras de palha, s vezes colocvamos penas, que serviam de colches. Quando se
ajuntavam, casavam, iam dormir numa parte bem fechada, um quadrado num canto
por dias, depois nos quadrados das famlias.
         At certa hora da noite, o fogo aceso dava uma fraca claridade, depois que
ele se apagava ficvamos na escurido. Mas, se precisssemos, um lampio era
aceso.
         Desde pequena, como todas as crianas, sabia o que acontecia entre os
casais. Falava-se abertamente sobre sexo 3. Tinha vergonha de me ajuntar. Mas,
achando que Jacinta tinha razo, escolhi um rapaz simptico e bondoso para
namorar. Caolho ficou feliz por ter sido o escolhido, ele era simples, trabalhador e
me amava. Depois, de um tempo de namoro, passamos a viver juntos. A primeira
noite foi de carinho e no outro dia agentamos risos e gozaes.
         Vivemos bem juntos, ele era pacato, me tratava bem, com delicadeza.
         Sempre trabalhei perto da sede. Quando criana, no pomar, secando caf,
colhendo milho. Depois, nas lavouras, costurando e lavando roupas dos escravos.
         Tive meus trs filhos sem problemas. s escravas grvidas era dado servio
mais leve e no oitavo ms no trabalhavam e s voltavam com o nen desmamado.
Isso acontecia entre o oitavo e o dcimo segundo ms. Mas elas ficavam na senzala,
trabalhavam nela, cuidando das crianas, cozinhando para todos os escravos.
         Tnhamos poucas diverses, algumas festas, conversvamos  noite,
fazendo rodas com afins. No perodo da sinh Frano ela fazia festas para ns, nas
quais tnhamos carne de vaca para comer  vontade.
         Senti muito quando Caolho morreu e resolvi no casar mais. Jacinta me
aconselhava:
         "Jussara, voc  jovem, arrume outro companheiro." "No quero, Jacinta.
Vou ficar viva at morrer." Houve pretendentes, que recusei. O tempo passou e a
aconteceu a morte triste do meu filho mais velho, a vida tornou-se difcil na
fazenda e ns fugimos.
         Na vida de todos ns h acontecimentos, so fatos e fatos que formam
histria, e a nossa, por sermos o personagem principal, nos  importante.
         3- Fao essa ressalva para dizer que essa foi minha experincia na senzala. A vida dos
escravos no Brasil diferiu muito: houve lugares em que foram bem tratados e em outros viveram
miseravelmente. E certamente a escravido foi. uma perodo de muito aprendizado. (N.A.E.)




                                                   5



          MINHA PASSAGEM


         Parecia que me lembrava de tudo o que me acontecera, at fatos sem
importncia me vieram  mente. Lembrei-me at de que, quando criana, achamos
no pomar, Tnica e eu, um ninho com ovinhos. Todos os dias amos v-lo at que
nasceram os filhotes, ficaram grandes e voaram. Quando o ninho ficou vazio, fiquei
triste, havia me acostumado a ir v-lo. Quando somos privados de algo a que nos
acostumamos, sentimos falta. E isso acontece com tudo o que faz parte de nossa
vida.
          "Ser que sentirei falta do meu corpo? Sim, acho que sim, uso-o h tantos
anos como roupa do meu esprito. Mas ele  da natureza e a ela deve voltar. Que
pensamentos estranhos, parece que me so sugeridos" - nunca pensara isso antes.
           Jamais imaginei que pudesse recordar toda a minha vida em poucos
minutos. No deveria estar deitada na pedra muito tempo. Escutei o barulho dos
meus perseguidores, agora estavam bem perto.
           Tinha dores, garganta seca, muita sede e suava. Estava agonizando e no
tive mais medo, me senti segura, amada, protegida e tranqila. O temor da morte
passou como por encanto e comecei a ter a sensao de que estava sendo erguida
do cho. Sentia pessoas junto a mim, me esforcei para abrir os olhos do meu corpo
fsico, mas no consegui. Porm conseguia ver vultos.
           "No so meus perseguidores - pensei. - Esses me amam e querem me
ajudar".
           -- Me, mame, fique calma!
           -- Meu filho! Ser?  voc, Manu?
           Parece que balbuciei, mas no falei, no mexi os lbios. Senti-me mais
calma com os fluidos de carinho dele. No escutei mais minha respirao, que
estava ofegante, mas continuei a respirar. As dores acalmaram e um dos socorristas
gentilmente me levantou a cabea e me deu gua. Tomei-a apressada, levando as
mos  caneca prateada.
           -- Tome devagar!
           Que gostoso saborear aquela gua limpa e fresca! Quis agradecer, mas senti
sono. Estava tranqila, meu filho apertou minha mo.
           -- Estarei com a senhora.
           Meus perseguidores chegaram.
           ---A Cabocla! Deixaram a Cabocla! Parece morta!
           Um dos feitores me chutou. No senti nada, mas seus fluidos de raiva e
dio me despertaram. Foi como se me chacoalhassem e o sono passou, temi e
passei a ver tudo nitidamente. Meu filho me abraou e me beijou.
           -- Manu, vo maltratar voc - falei preocupada.
           Ele sorriu. "Meu filho est morto e eles no podero mais maltrat-lo" -
conclu. Aconcheguei-me mais perto dele e fiquei observando. Manu estava sentado
na pedra e eu deitada no seu colo. Os dois vultos, os quais agora via bem, eram
uma mulher e um homem simpticos e tranqilos, que calmamente mexiam no
meu corpo e me faziam sentir separada dele. Eram dois socorristas que me
desligavam da matria. Preferi olhar para meu filho. Que saudade! Ele estava feliz,
sadio e lindo. Passava com delicadeza a mo nos meus cabelos.
        Voltei meu olhar para a pedra e vi meu corpo deitado, cheio de ferimentos.
Estava com as roupas rasgadas e sujas. Olhei para mim, sim, porque eu era aquela
que meu filho acariciava; estava com a mesma roupa, do mesmo jeito, s que no
sentia os ferimentos. Escutei os feitores:
        -- Cabocla est morta! Olhem, picada de cobra! Mas e os outros?
        -- Os ces no acham mais rastros. Eles no existem. Eu estava certo,
perseguamos uma s pessoa. Cabocla nos enganou! Os fujes foram para um lado
e ela pela floresta, para despistar, para que os filhos fugissem. Esperta!
        -- E agora? - Indagou um deles.
        -- Vamos voltar - respondeu o senhor Lisberto. - Andamos muito e
estamos longe da fazenda. Devemos ter cuidado, h cobras por aqui. Que raiva!
Tanto trabalho por nada e ainda teremos que ouvir as gozaes dos outros.
Andamos pela mata fechada, no pegamos ningum, uma escrava tola nos enganou
e os fujes devem estar longe.
        -- S por sorte iremos captur-los - queixou-se um deles.
        -- Eu bem que falei que seguamos um rastro s! -
        Repetiu o outro.
        -- Voc tem razo! Um rastro s! Enganados por uma maluca! - Disse o
senhor Lisberto, irritado.
        -- Por uma me que ama! - Consegui dizer e at me assustei, minha voz
era normal, s que os feitores no escutaram.
        -- Mame, durma nos meus braos. Cuidarei da senhora!
        -- Ficaremos aqui? - Indaguei
        --Vou lev-la para onde moro! - Respondeu meu filho. Comecei a sentir
sono, mas escutei os feitores.
        -- Temos pouca gua. Vamos reparti-la com os ces, um pouco para
cada um. Amanh  tarde chegaremos  fazenda. Vamos voltar! - Ordenou o
senhor Lisberto.
        -- E Cabocla? - Perguntou um deles.
        --Vamos deix-la a, no devemos perder tempo enterrando-a.  s uma
escrava! - Respondeu o senhor Lisberto.
        Foram embora. Olhei para Manu, ele me transmitiu calma. Adormeci
confortada nos seus braos.
        Acordei disposta num leito. Apalpei, o colcho era macio, com lenis
como os dos sinhs, cheirosos e muito limpos. Estava num quarto grande com
vrias camas, quase todas ocupadas por mulheres brancas e negras. Olhei tudo
espantada, sem coragem de me mover.
        Uma moa branca, muito bonita, veio at mim e sorriu agradavelmente.
        -- Bom dia! Como est passando? Precisa de alguma coisa?
        No tive coragem de falar, s respondia com movimentos de cabea. Senti
muita vergonha. Uma moa branca me dirigindo a palavra como se eu fosse igual a
ela. A jovem, sempre risonha, sentou-se no leito em que eu estava e ajeitou com
carinho os lenis. A percebi que estava vestida com um camisolo branco, de
mangas longas e com detalhes de renda, de tecido macio, passei a mo, encantada
com a pea de roupa. Olhei novamente para a moa, que continuava me olhando
com carinho. Segurou a minha mo e disse sorrindo:
        -- Por favor, no se sinta envergonhada! Como voc prefere que eu a
chame, Cabocla ou Jussara?
        -- Cabocla - respondi, abaixando a cabea e os olhos.
        A moa passou a mo pelo meu rosto, levantou-se e disse delicadamente:
        -- Seja bem-vinda, Cabocla! Aqui no  mais escrava e no se sinta
inferior. Voc no ! Aqui somos todos iguais!
            Fique  vontade. Vou avisar Manu que voc acordou.
            Tive vontade de falar, fazer perguntas sobre muitas coisas, mas fiquei
quieta, sem me mexer. Ela se afastou.
            Passei as mos pelo meu rosto, nada de ferimentos. Levantei as mangas e
olhei para meus braos e mos, nenhum arranho. Suspirei aliviada e sorri feliz.
            Respirei fundo. Como gostei de sentir o cheiro daquele lugar. A senzala,
por mais que a limpssemos, no tinha bom cheiro e nos ltimos tempos, com o
servio aumentando, no tnhamos mais disposio para limp-la melhor.
            Manu    entrou    no   quarto,   olhei-o   maravilhada.   Cumprimentou
educadamente todos que estavam no quarto e aproximou-se de mim, emocionado.
            -- A bno, minha me!
            -- Deus o abenoe, meu filho! - Respondi com lgrimas de alegria nos
olhos.
            Beijou-me a mo, depois meu rosto e nos demos um forte abrao. A
percebi que no sabia onde estava e por que estava ali. Indaguei-o:
            -- Manu, meu filho, que fao aqui? Por que estou num quarto igual ao
das sinhs, com essas roupas cheirosas?
            -- A senhora est bem? Quer alguma coisa? - Indagou meu filho em vez
de responder.
            -- Estou muito bem, muito confortvel! - Respondi.
            -- Mame, a senhora desencarnou! Seu corpo fsico morreu com a picada
da cobra.
            Ficamos quietos uns segundos.
            "Estranho - pensei -, morri e estou como viva!"
            -- Mame - continuou Manu a explicar -, a senhora morreu mesmo, quer
dizer, seu corpo fsico morreu. Temos mais este corpo, que  igual ao que usamos
quando encarnados. Este corpo chama-se perisprito, que  uma roupagem do
esprito.
            -- Onde est meu corpo morto? - Perguntei.
        -- Ficou l na pedra, est apodrecendo e logo ser esqueleto e p -
respondeu Manu.
        -- Hum...
        -- Entendeu? - Indagou meu filho.
        Estava um tanto confusa. Mas, se meu corpo morrera, eu agora deveria ser
alma e graas a Deus no era penada.
        -- Morri... Que vai ser de mim agora? - Perguntei.
        -- Ir morar comigo numa bela casinha. Ir aprender muitas coisas e
seremos felizes.
        -- Manu, a moa me tratou como se eu fosse uma sinh.
        -- Mame, diferenas existem s no mundo fsico, aqui  diferente.
Somos todos iguais, filhos do mesmo Deus.
        -- Ns, os escravos, somos filhos de Deus? Tem certeza?
        Manu riu.
        -- Sim, mame, somos todos filhos de Deus, porque fomos criados por
Ele.
        -- Onde est Caolho, seu pai? - Quis saber.
        -- Papai nasceu de novo, reencarnou.  um lindo menino.
        -- Branco ou negro?
        -- Branco. Nosso esprito, mame, vive num corpo fsico, quando este
morre, vive-se ento um perodo na erraticidade * ( erraticidade  perodo em que o
esprito passa desencarnado, aguardando uma nova encarnao . N.E.), em que se pode ser
feliz ou infeliz, dependendo do seu merecimento, depois ele nasce de novo num
outro corpo, reencarna.
        Ficamos quietos por momentos e eu pensei no que ouvi e achei bem certo.
Falei com entusiasmo:
        -- Se Jacinta ouvisse isso ficaria muito alegre e Jos entenderia muitas
coisas. Ambos dizem que Deus no  injusto. Eu at que em certos momentos
duvidei dessa justia.
           Mas, se Caolho foi negro e agora  branco, ns nascemos na Terra,
reencarnamos, para aprender mesmo.
           Manu riu. Sempre segurando minha mo, falou:
           -- Mame, Deus  justo. Temos, na Terra como na erraticidade, a reao
de nossas aes, o aprendizado a que fazemos jus. Mas agora chega de conversa.
Durma, a senhora precisa se refazer, descansar. Mais tarde virei busc-la para um
passeio.
           No queria dormir, mas tive sono e adormeci tranqila.
           Quando acordei fiquei quietinha, respirei fundo, sentindo o aroma
agradvel daquele lugar. Abri os olhos devagarinho e me alegrei por no ter
ningum perto ou me observando. Prestei ateno em tudo, nos detalhes, achando
o quarto maravilhoso.
           A moa risonha aproximou-se de mim e me cumprimentou baixinho:
           -- Oi, Cabocla! Chamo-me Regina. Trouxe um alimento para voc.
           Sentei-me na cama sem saber o que fazer e muito envergonhada. Estava
mesmo com vontade de me alimentar. "Mas morto se alimenta?" - Indaguei-me.
Regina, lendo meus pensamentos, disse calmamente:
           -- Cabocla, voc est aqui h dez dias somente. Logo aprender a viver
sem os reflexos do corpo fsico e a no necessitar se alimentar mais. Isso  caldo
de legumes e tomar suco. No  uma alimentao como a do encarnado, mas se
sentir melhor aps se alimentar.
           Aprender muitas coisas e creio que logo no sentir falta de nada do que
fazia encarnada, porque voc no era apegada a nada.
           -- S aos meus filhos... - Suspirei, me esforando para falar, porque tinha
receio de dizer algo que fosse inconveniente.
           --Voc aqui saber deles e poder, logo que possvel, v-los. Vamos,
alimente-se! - Disse ela carinhosamente.
           Regina afastou-se e eu tomei a sopa, achando-a deliciosa. Logo que
terminei, ela veio pegar o prato.
         "Tratada como sinh!" - Pensei. - "Como sinh!"
         Uma senhora branca, elegante, aproximou-se do leito ao lado do meu,
abraou com amor a moa que nele estava e disse em tom baixo, mas, como estava
ao lado, escutei:
         -- Filha, como est?
         -- Mame, sofro, no estou bem. Morrer de parto, que injustia! Agora
que ia ter nosso primeiro filho!
         -- Filha, no reclame! Por seu merecimento pude traz-la para c. H
tantos lugares feios e tristes a que um desencarnado pode ir.
         -- Preocupo-me com meu nen! Que ser dele sem me, sem mim? -
Queixou-se a moa, chorosa.
         -- Seu esposo ir trat-lo bem. Sua cunhada est cuidando dele - tentou a
senhora consolar a filha.
         -- Mame, no amava meu esposo, sabe bem que fui obrigada a casar
com ele e que era minha cunhada quem governava a casa. No fui feliz no
casamento, mas no queria morrer. Estou muito triste! S tenho dezoito anos!
         -- Filha - disse a senhora pacientemente -, aqui ser feliz. No tenha d
de si mesma, o pior que nos pode acontecer  deixarmos a autopiedade nos privar
de ser feliz ou de tentar ser.
         -- Mame, aqui ficam todos juntos, negros, brancos e ndios.
          -- Isso faz diferena para voc? - Indagou a senhora.
         -- No - respondeu a jovem -, sabe bem que no. Sempre achei a
escravido uma grande injustia e amei Juvelina, a nossa me negra, como minha
segunda me.
         -- Vamos, nimo, voc j podia ter se levantado e est h uma semana s
se lastimando!
         Com muito custo a senhora conseguiu que a filha se levantasse e saram do
quarto para um passeio.
         "Brancos, negros e ndios tm os mesmos sentimentos: bons e maus,
sofrem pelos mesmos motivos" - pensei.
         Estava achando muito gostoso estar ali naquele quarto e naquela cama.
         "Meu ltimo leito na Terra foi aquela pedra. Meu corpo deve estar l. O
que importa  que eu estou agora aqui."
         Estava feliz, cochilei e acordei com um beijo gostoso de Manu.
         -- Mezinha, vim v-la!
         -- Bom dia, filho! - Exclamei, me sentando na cama.
         -- A senhora quer ir ao jardim? - Perguntou Manu.
         -- Quero! - Respondi de imediato, me levantando do leito.
         Olhei para mim, o camisolo ia at os ps. Perguntei a ele:
         -- Posso ir assim?
         -- Claro! Venha! - Disse meu filho, sorrindo.
         Passamos pela porta, por um corredor e chegamos ao jardim. Encantei-me,
nunca vira flores to bonitas e perfumadas. Sentamos num banco e lgrimas
escorreram pelo meu rosto. Manu me abraou.
         -- O que se passa, mezinha? Por que chora? O que lhe falta? O que
sente?
         -- Gratido! - Respondi emocionada. - Estou como vida com tantas
belezas, com o tratamento que estou recebendo. Nunca pensei que merecesse
tanto. Mas no quero ser servida por muito tempo. Quero ser como Regina, que
serve com alegria.
         -- Fico muito contente em ouvir isso da senhora, esperava por isso
mesmo. E logo estar apta a servir. A ociosidade, mame, tanto para encarnados
como para os daqui do plano espiritual,  a causa de pararmos no caminho do
progresso. Felizes aqueles que servem, trabalham e so teis, porque esses
caminham e, se fazem com amor, a caminhada  prazerosa e alcanam seus
objetivos mais depressa do que imaginam.
        -- Manu, voc est falando certo, como um sinh que estudou - observei
contente.
        -- Mame, aqui estudei e ainda estudo. O aprendizado  para todos. Aqui
na colnia no h escravos e para c vm s pessoas boas.
        -- A escravido acaba com a morte do corpo fsico? - Quis saber.
        -- Infelizmente h os cativos dos desejos, prazeres e vcios. As pessoas
ms, as que abusaram, podem sofrer entre aqueles que no as perdoaram. Quando
desencarnam, por afinidades podem vir para c ou para outros locais de socorro,
porm os que no tm merecimento podem ir para outros lugares que nada tm de
parecido com este que v. So os imprudentes, que podem tanto vagar por lugares
em que viveram encarnados como ir para o Umbral, que  um local triste onde se
sofre muito. E l h escravos, s que a cor externa no importa, so as aes
erradas que os ligam queles lugares.
        Olhei para meu filho, ele deveria ter aproveitado bem o que aprendera ali.
Achei-o sadio, me orgulhei dele. Fiquei calada uns instantes, depois lhe indaguei:
        -- Manu, se  o merecimento que nos fez estar aqui e muitos em outros
lugares tristes, por que encarnamos como escravos? Foi por essa tal lei de
afinidades ou por que nos foi necessrio?
        Manu riu, ele estava muito belo.
        -- Mame, Deus  justo nos dando oportunidade de aprender todas as
lies. Quando no queremos aprender, no dando valor  oportunidade do amor,
a dor pode vir ensinar. Esse planeta, que temos por abenoada moradia,  de
expiaes e provas. Expiaes quando perdemos a oportunidade de reparar nossos
erros pelo amor, pelo trabalho edificante no bem. A sentimos a reao de nossas
aes erradas,  o sofrimento tentando ensinar. S que a dor  persistente, no nos
deixa at que tenhamos aprendido, e assim vamos tendo novas oportunidades at
que nos harmonizemos. Provas. E muitos aprendem ou acham que aprende ram. A
Terra  uma grande escola e as provas nada mais so que ocasies que nos
mostram se estamos ou no aptos, se aprendemos de fato a lio que nos foi dada.
         Confesso que no entendi bem o que Manu disse naquele dia, mas guardei
bem suas palavras, vindo a compreend-las depois. Segurei forte a mo dele e
indaguei:
         -- Manu, por que sofreu tanto se nada fez de errado?
         Voc sempre foi to bom! Esqueceu seu amor por Juvencia?
         -- Gostava de Juvncia, foi um amor de adolescncia, agora a amo como
uma irm e quando posso vou v-la e tento ajud-la. De fato, no errei nessa
encarnao, mas j cometi muitos erros no passado. O sofrimento para mim foi
uma lapidao que me fazia falta. Tive necessidade de passar pela prova de sofrer e
perdoar. Precisava provar a mim mesmo que perdoaria sem rancor e ao faz-lo me
senti muito feliz. Sinto-me forte ao lembrar-me de tudo o que me aconteceu. Amo
a vida e todas as suas manifestaes.
         -- Voc disse que errou? Onde? Como?  Perguntei curiosa, sem
entender.
         -- Mame, somos espritos eternos e, pela bondade e justia do nosso Pai
Amoroso, nos revestimos de muitos corpos fsicos, reencarnamos.
         --  o que aconteceu com seu pai? Voc disse que o esprito dele agora
est em outro corpo, de branco.
         -- Sim, mame, temos, pela bondade de Deus, sempre oportunidades de
acertar, reparar...
         -- Ou errar mais...
         -- Temos o nosso livre-arbtrio, quer dizer, fazemos o que queremos, s
que somos responsveis pelos nossos atos - respondeu Manu.
            -- Filho, pode um esprito reencarnar e passar pela: prova de ser um
bom sinh?
         -- Sim - respondeu Manu. - Muitos vencem, outros, infelizmente, so
reprovados, a iluso da matria sufoca seus bons planos. Provas no so fceis.
Muitos, antes de reencarnar, julgam-se aptos e so poucos os que conseguem fazer
o que se propuseram.
        -- Podem, alm de no passar por essa tal prova, ainda cometer erros?
Estou pensando no senhor Lisberto, ele  muito mau - falei.
        -- No sei qual  a situao dele. Se o senhor Lisberto escolheu como
prova ser bom, humano com as pessoas, ser reprovado se continuar agindo com
maldade. Se ele queria reparar erros, acumular mais. Sim, mame, podemos no
passar nessa prova e ainda acumular mais erros. Eu escolhi passar por uma situao
difcil, em que tivesse que perdoar, prova que eu mesmo escolhi. Poderia, pelo meu
livre-arbtrio, no perdoar e ainda querer me vingar. Se agisse assim, teria errado.
Certa mente que teria outra oportunidade, mas no devemos abusar das ddivas do
ensejo, sbios so os que aproveitam. No se deve deixar para o futuro o que se
pode fazer no presente.
        -- Acho que a reencarnao no  muito comentada para que pensemos
que temos uma s chance e que por isso devemos aproveit-la.
        Ri, pensando ter falado uma besteira.
        -- Mame, a senhora est certa, oportunidade no  para ser
desperdiada, devemos pensar que  a nica e aproveit-la ao mximo. Porque, de
certa forma,  a nica, pois nada que nos acontece se repete. E nem sempre
podemos dispor de amigos que nos acompanham ou ajudam. E as provas podem
ficar cada vez mais difceis.
         Concordei com ele. Crer no Deus justo me foi gratificante. Lembrei-me
dos meus outros filhos e me preocupei com eles.
        -- Manu, voc sabe de seus irmos? Como eles esto?
        -- Esto bem no quilombo - respondeu ele.
        -- Conseguiram! - Suspirei aliviada.
        -- Sim, caminharam muito, passaram frio e fome, mas conseguiram subir
o rio, atravessaram uma floresta e aps doze dias chegaram  comunidade e foram
aceitos. Esto l, contentes e livres.
        -- E sua irm, e a criana que espera?
        -- Est tudo certo com eles, mame - respondeu Manu. -
        Tobi est forte e saudvel e a criana tambm.
        -- Meu sacrifcio no foi em vo!
        -- No, no foi! - Exclamou Manu.
        -- Ser que eles se preocupam comigo? - Indaguei.
        -- Conversei com Tobi enquanto ela dormia e falei que a senhora
desencarnou e que est feliz comigo. Ela acordou, lembrou e contou a todos o
sonho. Eles acreditaram, creram que estamos juntos e felizes.
        -- O que acontecer com eles? - Perguntei.
        -- No sei, mame. Mas para que se preocupar? Eles agora esto bem e
os feitores decidiram no ir atrs deles.
        -- Obrigada por tudo, filho - falei, emocionada.
        -- Amo a senhora, mame!
        Sorri, estava realmente feliz.


                                             6

        VISITAS


        Senti-me to bem com a nova vida, vivendo como desencarnada, que me
envergonhei de estar sendo servida. Comentei com Regina:
        --Amiga, sinto-me bem, quero fazer alguma coisa de til, no quero s
ficar descansando.
        -- Isso  bom! - Exclamou Regina. - So muitos os que vm para c e
demoram para se sentir dispostos. Mas voc logo poder fazer algum trabalho.
Hoje  tarde seu filho vir busc-la para morar com ele.
        "Onde ser que Manu mora?" - Pensei. No me importava onde, mas sim
ficar com ele.  tarde meu filho entrou na enfermaria todo contente.
        -- Mame, a senhora vem comigo! Quero lhe mostrar nossa casinha.
           Regina me deu uma roupa para vestir, um vestido que no era luxuoso
como os das sinhs, mas muito bonito e confortvel, azul, de bolinhas brancas, e
que achei maravilhoso.
           -- Estou bonita, filho? - Perguntei.
           -- A senhora sempre foi e ser para mim a mulher mais bela que existe.
           Despedi-me de todos e de Regina, emocionada:
           -- Obrigada, Regina! Sou grata por tudo. Voc  muito dedicada.
           E l fui eu de mos dadas com Manu, encantada com tudo o que via. E
fiquei mais ainda ao chegar na nossa casa.
           -- Por favor, mame, no chore! - Pediu Manu, emocionado com minha
alegria.
           -- Nunca vi uma casa to linda assim!
           Era uma casa pequena, cercada de flores, tudo simples, limpo, tinha s o
essencial. Sorria sem parar ao ver cada detalhe.
           -- Que lindo! - Suspirei.
           Dias depois, sempre acompanhada do meu filho, conheci toda a colnia e
meu encantamento no foi menor. A cidade espiritual que me abrigou era muito
limpa, ordenada, cheia de flores, muito linda. Mas o que achei maravilhoso foram
seus moradores, pessoas boas, conscientes de suas melhoras interiores.
           Cuidava da nossa casinha, do nosso jardim. Querendo trabalhar, foi me
dada a tarefa de preparar alimentos para os abrigados do hospital. Gostei muito,
logo fiz vrios amigos e aprendi rpido a preparar sopas e sucos. Sentia-me
importante, a alegria  diferente quando nos sentimos teis.
           Encontrava todos os dias,  tarde, com meu filho em nossa casa. Manu
trabalhava doze horas por dia no hospital, na enfermaria masculina, com os
abrigados recm-chegados da crosta. E ainda estudava. Ainda bem que ele no
dormia mais, porque em casa lia muito, amava os bons livros, que pegava na
biblioteca da colnia. Mas sempre tinha tempo de conversar comigo, de me dar
ateno. Comentei com ele:
          -- Manu, ser que mereo tudo isso?
          -- Na espiritualidade no se pode dar jeitinho. Se est aqui  porque
merece.
          -- Sou muito grata, quero fazer de tudo para continuar merecedora. Se
todos soubessem que aqui  assim to bom, acho que se esforariam mais para ter
o merecimento de vir para c.
          -- Mame, gostos diferem. Sente-se bem aqui porque se afinou. Mas para
muitos a colnia no seria o lugar ideal.
          -- No? - Perguntei espantada.
          -- Aqui, mame, h muita disciplina, ordem e trabalho. A colnia pode
abrigar ociosos por algum tempo, mas se no quiserem ser teis no podem ficar.
Muitos, ao virem para c, no querem obedecer e sim dar ou continuar dando
ordens, fazer as coisas a seu modo. Como no  permitido, acham as colnias
simples demais e no querem compartilhar com outros o quarto, a casa, etc. E h
ainda os quequerem realmente estar encarnados. Para mim, os locais de socorro so
maravilhosos porque me afino com a sua simplicidade. Semelhantes se atraem e,
quando ainda no fazemos por nos assemelhar a esses lugares, estes nos servem s
como abrigos e no como lares. Mas a vida nos ensina e todos acabaro por se
adaptar um dia.
          -- Os desencarnados que esto no Umbral iriam gostar daqui? - Quis
saber.
          -- Mame, h muitos desencarnados no Umbral e l esto por diversos
motivos. H os que sofrem, estes certamente iriam querer que acabassem seus
sofrimentos. E logo que se sentissem bem poderiam gostar ou no daqui. Por isso
os socorristas ajudam os que sofrem no Umbral ou os que ficam apenas vagando
s quando eles pedem auxlio e querem mesmo mudar suas atitudes. Porque muitos
querem ficar livres da ressaca, das conseqncias de atos errados, mas no querem
deixar seus vcios. Estes, aqui, s iriam perturbar a ordem. Mame, muitos l esto
bem, julgam-se felizes morando nos lugares trevosos ou vagando, gostam da forma
de vida que levam e se viessem para c no iriam gostar. No se sentiriam bem com
a forma de vida e desrespeitariam seus moradores como tambm o local.
        -- Por isso  que voc sempre fala da afinidade? - Indaguei.
        -- Sim, aqui, mame, s se sentem bem os simples - respondeu Manu. -
A simplicidade no deve ser confundida com desleixo ou ignorncia.  a pessoa ser
natural, sincera e sem afetao. Tendo muitos conhecimentos, se faz compreender
por todos, aceita as regras do lugar e no se julga melhor que ningum.
        Compreendi bem. Lembrei-me de que na senzala muitos a achavam
insuportvel e outros tudo faziam para melhorar sua vida e a de todos os
companheiros. Pensei que, se alguns dos escravos viessem para a colnia, iriam
estranhar, porque iriam querer beber ou comer em excesso, outros se julgariam
merecedores de ser eternamente servidos. Mas a maioria iria gostar, como eu estava
gostando.
        Passei a vestir uma roupa simples: saia at os ps e blusa branca. Fazia as
tarefas com prazer e gostei demais de estudar, aprender.
        Sentia muita saudade dos meus filhos e amigos. Manu sempre estava me
dando notcias deles, mas eu ansiava por rev-los. Meus filhos eram como se
fossem pedaos de mim e tinha muitos amigos. Vivendo na senzala por muitos
anos, sentia como se todos os companheiros formassem uma grande famlia e
muitos deles eram por mim muito queridos.
        Logo que foi possvel, Manu me levou para visit-los. Primeiramente
fomos ao quilombo. Chorei de felicidade ao rever meus filhos. Estavam bem,
contentes e adaptados na comunidade. Minha netinha nascera linda e sadia, recebeu
o nome de Jussara em minha homenagem.
        A vida no quilombo era rudimentar, todos contribuam para torn-la mais
agradvel. Viviam em casinhas de pau e barro, uma ao lado da outra. Plantavam,
criavam animais, ningum era dono de nada e o trabalho era repartido, e os frutos,
divididos igualmente. Havia um chefe, era um negro j idoso que tentava pr
ordem e apaziguar as desavenas, porque havia algumas fofocas e discusses, mas
eram todos amigos. Sabiam da possibilidade de uma invaso e temiam. Tentavam
viver normalmente, enfrentavam os problemas cotidianos. No alto da montanha,
onde viviam, fazia muito frio e isso os incomodava, pois no tinham abrigos
quentes.
           Abracei-os e beijei-os com amor. Fomos v-los  tardinha, quando,
terminado o trabalho do dia, se sentavam em volta de uma fogueira, conversavam e
quase sempre o assunto era a saudade dos entes queridos que estavam longe.
Aproximei-me de Tobi, sentia sempre muita falta dela. Minha filha, com a minha
aproximao, se ps a recordar de mim e comentou com uma amiga:
           -- Hoje estou com muita saudade de mame! Como ser que ela est?
Gostaria que meu sonho com Manu fosse verdadeiro. Sempre temi que pudessem
castig-la por termos fugido. Queramos que ela fugisse conosco, mas mame no
quis, falava que ia nos atrapalhar. Como ser que est sem ns?
           -- Sua me est bem, Tobi. Vejo o esprito dela ao seu lado, sorrindo,
pois ela j morreu.
           -- Voc a est vendo? Ela est bem? - Perguntou Tobi, esperanosa.
           -- Sim, est bonita e feliz!
           -- Se ela est aqui me escutar: mame, eu a amo e a amarei sempre! -
Disse Tobi, emocionada, e se ps a chorar.
           Os outros pararam de conversar para saber o que estava havendo e ela
contou a todos. Meu filho Tonho exclamou:
           --Ainda bem, pelo menos no  mais escrava. Prefiro saber que est morta
a estar viva na senzala. Quero-a feliz!
           Manu me abraou e pediu:
           -- Vem, mame, se quiser ir  senzala, devemos ir agora.
           Despedi-me deles abraando-os, dei a mo para Manu e voltamos rumo 
fazenda.
           Emocionei-me ao ver os amigos, tudo estava do mesmo jeito. Estavam
recolhidos na senzala e os ces agora ficavam do lado de fora, ningum podia,
depois que escurecia, sair mais. O cheiro forte me fez entender que eles agora
usavam a latrina de dentro, que era uma s para todos.
        Emocionei-me ao ver Jos, que continuava calmo, lder, tentando animar e
dando esperana aos companheiros. Mas ele estava triste e sofrido, dois de seus
filhos foram; vendidos e a saudade deles era grande, principalmente por no saber
como estavam.
        Chorei ao abraar Jacinta, ela no me sentiu. Minha me adotiva tambm
estava apreensiva e triste, sentia minha falta e a dos filhos. Ela teve oito filhos, dois
morreram pequenos, dois haviam fugido e um foi morto ao tentar uma fuga. Mas
Jacinta era querida por todos e tinha muitos netos e se preocupava com eles.
        "Eu pelo menos sei dos meus filhos e Jacinta no. Ter saudade sem saber
onde est o ser que amamos  bem pior" -pensei.
        Fiquei com muita pena de meus companheiros.
        -- Ser que a vida deles no vai melhorar?  Indaguei a Manu.
        -- O sinh Narciso e a sinh Frano devero voltar em breve.
        Voltei  colnia mais agradecida por tudo o que desfrutava, mas no me
esqueci deles, orava muito, enviando bons fluidos a todos que amava.
        E sempre que me era permitido ia v-los. Ia ao quilombo, onde continuava
tudo normal, e  fazenda. E foi com alegria imensa que um dia, ao chegar na
senzala, encontrei todos alegres, tudo mudando, os sinhs tinham regressado.
        Tome era um desencarnado muito bom, fora negro na ltima encarnao e
havia muitos anos tinha feito sua passagem para o plano espiritual. Trabalhava ali,
na fazenda, como socorrista, ajudando a todos com sua orientao e carinho. Ele
me explicou, contente:
        -- Cabocla, o senhor Honorato, que ficou administrando a fazenda,
quase levou  falncia o sinh Narciso, roubou-o de forma vergonhosa. Nosso
sinh foi avisado na Frana por carta por um parente e regressaram. Mas ele nada
pde recuperar do que lhe fora roubado. Teve at que pedir dinheiro emprestado e
vender um bom pedao da fazenda.
        A sinh Frano ficou indignada ao ver o estado sofrido dos escravos. O
sinh conversou com todos, lastimando ter se ausentado por tanto tempo. Os
empregados foram todos mandados embora e os ces foram com eles. Os escravos
voltaram a viver como antigamente. Bem... quase... No tm mais castigos, no so
vigiados, mas eles no tm dinheiro para melhorar a alimentao e a senzala. Mas
todos esto colaborando com o sinh, ajudando a recuperar a fazenda. Estas terras
so o nico bem que lhes resta e eles no querem vend-las e ir para a cidade,
porque, no tendo renda, no tm como viver e eles temem a pobreza.
        --Esto faltando alguns escravos - disse. - Onde esto? -- Alguns foram
vendidos pelo sinh Honorato, outros fugiram e, quando os sinhs regressaram,
terminando a vigilncia, uns resolveram ir embora, temendo que vendessem a
fazenda. O sinh Narciso e a sinh Frano queriam reaver os escravos vendidos,
mas no tm dinheiro para isso, planejam faz-lo assim que for possvel, pelo
menos com os que quiserem retornar - esclareceu-me Tome.
        Aos poucos tudo foi se ajeitando. Jos e Jorge, outro escravo, ficaram
como administradores da fazenda. Com o servio repartido e a boa vontade de
alguns, aos poucos tudo melhorou. As casas dos empregados foram ocupadas pelas
famlias dos escravos e outras mais foram construdas, e a senzala foi desativada.
Ningum mais fugiu da fazenda.
        A vida dos negros, escravos, libertos ou fugitivos, no era fcil. Se eram
escravos bem tratados era a melhor forma de viver. Fugitivos estavam sempre
temerosos, viviam escondidos passando fome e frio. Libertos, para sobreviver,
trabalhavam muito e s vezes viviam em condies piores que as dos escravos.
Claro que havia excees, mas eram poucas, e pelo campo no era fcil ser negro.
        Sinh Frano se empenhou muito para ver todos os negros contentes. Ela
se ps a trabalhar ajudando o esposo. Visitava os escravos nas casinhas, ensinando-
os a se higienizar, a cozinhar e a cantar. Todos a amavam, agradecidos. Eu tambm
me senti grata a ela e desejei lhe transmitir fluidos de amizade e carinho. Fui v-la.
Pela primeira vez, entrei na casa-grande.
        Admirei. A casa era muito bonita, mveis pesados e escuros, tudo limpo e
com flores. A sinh estava sozinha em seu quarto. Resolvi entrar no seu aposento
para agradec-la.
        Levei um susto. A sinh estava se barbeando. Sa rpido e fui procurar
Tome, o socorrista que ficava pela fazenda.
        -- Tome, vi a sinh se barbeando...
        -- Voc, Cabocla - respondeu ele -, foi indiscreta. Se queria ver a sinh,
que esperasse na sala, no deveria ter entrado em seu quarto sem ter sido
convidada. Aprenda a ser discreta quando se trata de visitar, ajudar ou at mesmo
agradecer aos encarnados. Um desencarnado consciente e bom s entra num local
de intimidade se for solicitado pelo encarnado ou para um auxlio.
        -- Desculpe-me!       -   Falei   envergonhada,   reconhecendo   ter   sido
inconveniente.
        Fiquei curiosa para saber o que acontecia, mas nada perguntei, sabia que
no deveria me intrometer na vida de ningum. Tome segurou minha mo e falou
com bondade:
        -- Cabocla, no  a mim que deve pedir desculpas. Espero que tenha
aprendido a lio. A sinh Frano no  mulher e nem se chama Georgette. Seu
nome de batismo  Gerald. Nosso sinh apaixonou-se por ele, que j na poca se
vestia de mulher. E esse amor no diminuiu quando ele soube a verdade.
Resolveram ficar juntos, escondendo seu segredo.
        -- No sei o que dizer! - Exclamei. - Nunca ouvi isso! E eles so to
bons!
        -- No julgue para no ser julgada! - Disse Tome. -
         Tambm no entendo bem como isso aconteceu. S sei que eles vivem
juntos, que se entendem e so pessoas boas, principalmente com os escravos.
Gostavam de viver na Frana, l iam a festas, tinham uma vida social intensa. Aqui
esto isolados, mas agora, com poucos recursos financeiros, optaram por morar
definitivamente na fazenda.
        -- No sei o que dizer, continuo achando estranho! - Exclamei.
        Tome suspirou e me disse, explicando:
        -- Confesso que quando soube do fato tambm fiquei curioso para
entender o procedimento deles. Um dia, quando a me do sinh Narciso, que est
desencarnada h anos, veio visit-los, ficou conversando comigo por tempo e a
indaguei sobre o assunto. Ela me disse que Narciso e Gerald j viveram muitas
existncias juntos e se amaram apaixonadamente todas as vezes em que se
encontraram. E dessa vez planejaram ficar separados. Na encarnao anterior,
Narciso, que tinha outro nome, era casado e tinha filhos quando conheceu Gerald,
que era mulher e se chamava Georgette. Ele largou a mulher e os filhos para ficar
com ela. Seu ato causou muitos acontecimentos que resultaram em infelicidade para
a esposa e os filhos. E isso lhe deu muito remorso, pela sua paixo fez sofrer
muitas pessoas que ele tambm amava. Arrependeu-se e nesta encanao planejou
casar com sua ex-esposa, que agora veio como sua prima, e lhe dedicar carinho de
esposo fiel. Georgette tambm sofreu pelos seus erros, no se constri felicidade
com sofrimento de outros. Pediu para reencarnar num corpo masculino e
prometeu ficar longe de Narciso, no atrapalhar o relacionamento dele com a
esposa. Mas, encarnados, mudaram de planos. A ex-esposa de Narciso apaixonou-
se por outra pessoa, os pais dela queriam obrig-la a casar com nosso sinh, pois
estavam prometidos desde crianas. Narciso, compreensivo, desfez o noivado e
ajudou-a, convencendo os tios a aceitar o escolhido dela para marido. At a, tudo
bem, se ela j tinha sofrido com ele, poderia ter medo de sofrer novamente,
apaixonou-se por outro e foi viver feliz com seu amado. Narciso agiu certo no lhe
guardando rancor e a ajudando a ser feliz. Ele foi para a Frana e conheceu Gerald,
que tinha adotado o nome de Georgette, o mesmo que teve na encarnao anterior,
e a paixo ressurgiu forte. Mesmo tendo os dois conscincia de que no estavam
agindo certo, porque Deus criou o homem para a mulher e vice-versa, ficaram
juntos. Na Frana, disseram para os amigos que casaram no Brasil e, aqui, que
casaram l.
         -- Todos os casais assim, do mesmo sexo, j estiveram juntos no
passado, em outras encarnaes?
         -- No, esse caso  especfico. Certamente pode ter ocorrido reencontro
do passado com outros casais. Mas cada um tem sua histria, os porqus tm
respostas diversas e so muitos os fatos que levam as pessoas a agirem assim.
         -- Errado? - Indaguei.
         -- Sim, errado - respondeu Tome.
         Meu amigo socorrista calou-se, ficamos em silncio por instantes. Depois
ele me olhou nos olhos e disse:
         -- Os dois no conseguiram vencer a paixo. Mas iro com certeza
aprender a amar de modo puro, sem posse e egosmo. Voc no ia visit-los? Pois
v!
         Fiquei indecisa e Tome bondosamente aproveitou para me dar mais uma
lio.
         -- Por que voc queria ver a sinh? No era para lhe enviar fluidos de
gratido por ela ser to boa com os escravos? Est estranhando eu cham-la de
sinh?  que a conheci assim e  como gosta de ser chamada. Voc, tanto como eu,
no aprova essa atitude, mas no  por isso que devemos ignorar o que eles tm de
bom. Erros nos pertencem. E quem no erra? Ou errou? E dessa vez esto juntos,
mas no fizeram ningum sofrer pela atitude deles.
         Abaixei a cabea, envergonhada. Tome tinha razo, no achava certo o
procedimento deles, mas quem era eu para julg-los? Ali fora para agradec-la. Sorri
para Tome e rumei para a sala da casa-grande e esperei pela sinh. Logo esta veio,
sem querer reparei nela. Tinha um jeito diferente, mas seu sorriso era cativante e
bondoso. Os escravos a amavam ainda mais agora, que haviam conhecido a
maldade da perseguio.
         Sinh Frano chegou perto da janela e olhou para o pomar, suspirou e
no pude deixar de escutar seus pensamentos.
         "Meu Deus, por que sou homem? Queria tanto ser mulher, ter dado filhos
a Narciso. Sinto que errei em assumir uma falsa identidade e em ter ficado com ele.
Perdoe-me! E eu o amo tanto!"
         Compreendi que eles no eram to felizes como pensvamos, como
tambm tive a certeza de que eles aprenderiam a amar sem paixo, porque recebiam
fluidos de gratido, que  um sentimento quase to forte quanto o amor. Gratos
so os que aprendem a amar. Quando somos agradecidos a uma pessoa, os fluidos
mais puros que temos lhes so enviados, e como nos faz bem receb-los! E eles
recebiam de muitos, encarnados e desencarnados.
         Orei para eles com f, pedindo ao Pai que os orientasse. Desejando paz
para aquele lar, voltei  colnia.




                                             7


         NA ENFERMARIA


         Gostava muito de ir  escola, estudava com muita dedicao, maravilhada
com tudo o que estava acontecendo. Aprendi a ler e a escrever com facilidade,
porque em encarnaes anteriores o fazia corretamente, como tambm sabia
bastante do Evangelho e da Bblia.
         "Sabia, sei - pensei -, agora  o momento de viver o que reaprendo".
         A escola era simples, com muitas salas de aula. ramos separados pelo grau
de conhecimento. Ali tive noo de tudo, conhecimentos gerais, morais e
evanglicos. Os professores eram atenciosos, prestativos, e eu me esforava para
compreender tudo, ou melhor, colocar em prtica o que aprendia no meu dia-a-dia,
e o meu trabalho dava-me boas oportunidades para vivenci-los. Fiz muita amizade
com os companheiros da escola, conversvamos muito, trocando opinies,
querendo conhecer mais e viver de acordo com o que aprendamos. Estudei por
anos naquele local, at estar apta a freqentar outras escolas. Mas parei de estudar,
optei por outra tarefa.
        Lembro-me com alegria dos anos em que estudei naquela escola, dos
momentos felizes que ali passei.
        Nossa casa era muito agradvel, com vrios quartos, que eram cantinhos
particulares de cada um. Manu tinha o seu, eu o meu e conosco moravam mais seis
amigos, quatro senhoras e dois rapazes. Cuidei do jardim por muito tempo, este
estava sempre na responsabilidade de um de ns, de preferncia dos recm-
chegados, por ser tarefa fcil e prazerosa. Cada um tinha em casa um afazer para
que nosso lar fosse agradvel e ordeiro. Tornamo-nos to amigos que passamos a
ser uma famlia e um tinha o prazer de ajudar, orientar o outro.
        Tornei-me muito amiga de Eleonor, uma senhora que foi sinh de muitos
escravos. Ela era bondosa, mas o esposo no, foi cruel para com as pessoas que o
cercavam, com os escravos. Ela sofreu muito com ele e at recebeu agresses por
defender os escravos.
        -- Preocupo-me muito com meu esposo, ele est no Umbral e sofre
demais - Eleonor se queixava sempre.
        -- Eleonor - consolava-a -, seu esposo um dia acabar por entender sua
situao, pedir perdo arrependido e ter o socorro.
        -- A escravido nos traz muitos sofrimentos. Negros encarnados sofrem
muito por serem escravos. Desencarnados, temos visto feitores e sinhs sofrendo,
e negros que no per doaram. Se a abolio acontecer, creio que muitos problemas
sero solucionados.
        Manu, que estava conosco, sorriu com seu modo amvel. Convidado por
ns a dar sua opinio, o fez nos ensinando:
        -- Todos os perodos que a Terra passou e passa nos so teis. E no  a
escravido a vil de todos os nossos problemas. Quem no quer perdoar no o faz
nem por atos graves e nem pelos mais amenos. Como tambm aqueles que querem
fazer maldade sempre acham como faz-la. E se agora so cruis com os escravos 
porque a escravido faz parte de suas vidas. Pases que no tm escravido tm os
mesmos problemas e dificuldades.
        -- Verdade? - Indagou Eleonor.
        -- Tm os mesmos nmeros de crimes, abusos, estupros, enfim, as
mesmas aes erradas. As causas so inmeras para os mesmos tipos de erros.
Mesmo depois de anos que a escravido for banida do Brasil, teremos, como agora,
muitos imprudentes vagando, sofrendo, odiando, e o Umbral com muitos
moradores. Enquanto o homem no resolver trocar seus vcios por virtudes,
aprender a amar e exemplificar os ensinos de Jesus, haver sofrimentos. Mas no
maldiga a escravido, est sendo um perodo de muito aprendizado. Mas ser uma
marca em nossa bendita ptria, uma marca dolorosa que ficar por muito tempo
causando tristes conseqncias. Para alguns, incluo-me nestes, foi um aprendizado
abenoado, ocasio de reparao em que aprendi a perdoar e a amar. Para outros o
remorso ser como chaga viva a doer por anos. Muitos aprenderam a trabalhar
obrigados a servir, passando a amar todas as formas de ser teis. Mas h tambm
dios que demoraro sculos para ser amenizados, gerando muitas obsesses. Mas
acabaremos nos amando como irmos que somos.
        Eleonor estava sempre tendo notcias do esposo. Depois de muito tempo,
com a ajuda de Manu, minha amiga teve permisso de socorrer o esposo no
Umbral, e ele ficou por anos na enfermaria do hospital, at que pde reencarnar,
esquecendo e assim ficando livre do remorso que o atormentava. Para muitos, a
reencarnao  um bendito refrigrio, porque esquecemos tudo e temos a
oportunidade de recomear novamente.
        Como fiquei contente quando, recebida pelo orientador do hospital, ele me
disse gentilmente:
        -- Cabocla, voc trabalhar conosco seis horas por dia. Ir cuidar da ala
feminina da enfermaria quatro. L esto as desencarnadas que vagaram tempo por
entre os encarnados e no Umbral. Tiveram seus momentos difceis de colheita da
imprudente plantao que fizeram quando estiveram no corpo fsico. Agora, aqui
conosco, tentamos auxili-las do melhor modo possvel.
         Dividia bem meu horrio e tinha bastante tempo para o lazer, que passava
com colegas ou na Terra, com meus filhos e amigos.
         Sempre fazia meu trabalho com nimo e quase sempre voltava para casa
cansada, mas, aps um suco ou caldo, ia descansar e me refazia rapidamente*.
         * A necessidade de alimentar-se ou no varia de acordo com o aprendizado de cada um.
Quem j aprendeu a se revitalizar, a retirar energia do meio ambiente pela absoro dos princpios
vitais da atmosfera, certamente no ter mais que se alimentar. (N.E.)


         Foi este um perodo em que me senti muito til, em que, ao lidar
diretamente com as pessoas, ao ter contato com grupos de desencarnados
heterogneos, tive conhecimento da alma humana, aprendendo a lidar com muitas
situaes. Sempre me lembrarei com carinho desses anos em que l trabalhei,
aprendendo a servir com amor.
         Todos os dias, ao entrar na enfermaria, cumprimentava-as sorrindo:
         -- Bom dia!
         Nem sempre recebia resposta. Ia de leito em leito, limpava-as, ajeitava-as,
algumas eu tinha que alimentar, a outras eu s servia os alimentos, falando de
assuntos alegres, de Jesus. Algumas me escutavam, umas pareciam me ignorar,
outras, j se sentindo melhor, conversavam comigo, queixando-se ou falando do
que as preocupava.
         Tianinha era jovem ainda, desencarnou aos vinte e dois anos. Era uma
mulata bonita quando o sinhozinho, filho do dono da fazenda em que ela morava,
veio da capital onde estudou e se engraou com ela. Como Tianinha no queria
nada com ele, o sinhozinho vendeu seu companheiro e seus dois filhos. Revoltada,
louca de dio, aceitou ser amante dele, esperando a oportunidade de se vingar. Ela
veio no stimo encontro. Conseguiu se apossar de um punhal dele e o golpeou no
pescoo, matando-o. Depois tentou se suicidar cortando os pulsos. Mas no
morreu, foi socorrida por uma negra que os atou, estancando o sangue. Foi presa
pelos feitores, levada para uma cela, um local fechado por grades onde ficavam
presos os escravos rebeldes. Os sinhs foram para a cidade enterrar o filho e ela
ficou aguardando o castigo, que deveria ser terrvel. Ficou passiva, havia se vingado.
Os sinhs demoraram na cidade e os feitores a estupraram. Ela se arrependeu de
ter tentado o suicdio, mas no de ter matado. Estava grvida e, aps ter sido
violentada, abortou, desencarnando por hemorragia. Sofreu muito revoltada por
anos no Umbral, at que aos poucos foi abrandando seu dio, reconheceu seu erro
e pde ser socorrida. Ela sofreu mais por odiar e no perdoar.
            Conversava muito com ela, animava-a, queria que entendesse que a vida
no era s infelicidades.
            -- Acho, Cabocla - suspirou, tristinha -, que no entendi o que a vida
quis me ensinar. Na encarnao anterior a esta, fui um sinh que judiou muito dos
escravos, separando famlias como forma de castigo. E nesta, no aprendi a lio,
mas quero aprender.
            -- Tianinha - consolava-a -, ningum precisa aprender sofrendo. nimo.
Construa, ajude, repare seus erros com amor.
            Depois de algum tempo ali, teve alta e foi morar com seu pai, que era um
orientador da colnia. Anos depois veio despedir-se de mim:
            -- Cabocla, tive a bno da reencarnao, logo voltarei ao corpo fsico.
Serei abandonada por minha me, irei para um orfanato. Espero que de rf possa
me tornar me de muitas crianas, que l tero lar. No quero ter filhos, mas sim
ser me amorosa de muitos. Papai me ajudar daqui, espero reparar meus erros
com trabalho edificante. S temo que, ao reencontrar antigos desafetos, o dio
ressurja.
            Quero aprender a am-los. Sei que no  fcil, aqui fazemos planos e no
corpo fsico muitas coisas podem mudar. Mas volto  matria confiante.
        -- O amor cobre multido de pecados - respondi. - Anula erros. Ame,
Tianinha. Tenha esse sentimento forte dentro de voc. Desejo que, ao encontrar
seus desafetos, voc possa am-los como irmos.
        Almejei a ela e a muitos que iam reencarnar que aproveitassem bem essa
oportunidade maravilhosa que todos ns temos.
        -- Cabocla, estou cansada. Quando irei sair daqui? - Reclamava sempre
uma senhora, exigindo ateno.  Quero mais atendimento, aqui no me tratam
como mereo.
        -- A senhora est sendo tratada igual a todos - respondia. - O que deseja
dessa vez?
        -- Ir para o cu! J fiquei muito aqui no purgatrio.
        -- No se iluda, Donana, no existe cu como pensa e aqui  um lugar de
recuperao - explicava.
        -- Voc mente como todos! - Gritava ela. - Existe o cu e eu quero ir
para l. Mereo!
        Quando no conseguia, pela minha pouca experincia, resolver casos como
esses, dr. Antnio, mdico que visitava todos os dias as enfermarias, conversava
com elas, tentando resolver os conflitos de cada uma.
        -- Donana - disse ele calmamente -, espero que a senhora no se torne
inconveniente. No deve exigir e sim ser grata a quem lhe auxilia. J lhe dissemos
como  o plano espiritual. Se fosse como pensava, no teria sado do Umbral, sua
permanncia l seria eterna. A senhora deveria pensar no tempo em que esteve l,
no que sofreu, para dar valor ao que recebe. Esforce-se para melhorar e se tornar
til  comunidade que a abriga.
        Ela, assim como as outras, respeitava dr. Antnio, que era bondoso, mas
enrgico. Tratava todas com carinho e ateno, mas dizia sempre o que cada uma
precisava ouvir e nem sempre isso lhes era agradvel ou era o que queriam ouvir.
Nosso mdico impunha respeito at no jeito de olhar.
         -- No quero me lembrar do tempo em que estive no inferno - respondeu
Donana. - Foi terrvel e ainda bem que no  eterno. Mas por que nos ensinaram
errado? Por que essa confuso? O senhor tem razo, vou me esforar para
melhorar.
         Passava uns dias se esforando, mas logo tinha uma recada e tornava a
fazer exigncias. Como no queria ser til, agia como se todos tivessem o dever de
lhe servir, no queria fazer nada. Foi providenciada a sua reencarnao. No corpo
fsico teria um recomeo, uma nova oportunidade em que as dificuldades talvez a
despertassem para que progredisse.
         Vieram para a enfermaria, ao mesmo tempo, uma senhora que foi sinh,
dona de escravos, e uma negra que foi sua escrava. As duas tinham rancor uma da
outra.
         A senhora, sinh Rita, estava sempre reclamando:
         -- Confesso a voc, Cabocla, que aqui estou bem melhor que antes. Mas
 injusta minha situao. Voc cuida de mim, mas deveria me dar mais ateno, foi
escrava, apesar de no ter sido negra. No acho certo voc cuidar de tantas aqui e
de negras! Como aquela ali, a Rosa, que  muda, no fala por motivos justos. A
miservel!
         A passava mal, se sentia sufocada e sua crise permanecia por horas. s
vezes s melhorava com o passe do dr. Antnio.
         -- Sinh Rita, da prxima vez s irei acudi-la aps ter sofrido mais tempo
- brincava o mdico.
         -- J sei, tive essa crise pelo meu rancor - dizia ela. - Mas como no ter se
Rosa foi a causa de tudo?
         -- A senhora no errou? Foi inocente? Por que no reconhece sua culpa?
- Perguntou o mdico, olhando-a com firmeza.
         -- Bem... - Balbuciou ela.
         -- Sinh Rita, no transfira a culpa a outrem. Assuma seus erros, se
esforce para perdoar e pea perdo, seno no poder permanecer aqui...
         -- No, por favor - pedia -, no quero voltar para o lugar horrvel em que
estava, vou me esforar, prometo.
         Perdo...
         Beijava a mo do dr. Antnio.
         A negra Rosa no falava, embora o mdico insistisse com ela que agora
poderia faz-lo. Quando sinh Rita falava dela, Rosa gesticulava com raiva e
tentvamos acalm-la. Dr. Antnio dizia sempre a ela:
         -- Rosa, ir falar quando no tiver mais rancor.
         Aproveitando que ele se afastou das duas, pedi que me explicasse algo que
h tempo queria compreender:
         -- Dr. Antnio, s vezes no entendo. Para serem socorridas,
prometeram perdoar e esquecer o rancor, mas basta lembrar o que lhes aconteceu
que a raiva volta.
         Nosso mdico sorriu, compreendendo minha curiosidade, e me esclareceu:
         -- Isso acontece muito. Pensa que os socorristas que as acolheram no
sabiam disso? Sim, eles tm esse conhecimento, entretanto, por misericrdia, foram
socorridas. Se tivessem realmente perdoado com esquecimento, no esta riam aqui
nesse estado de necessitadas e sofrendo ainda, embora menos que no Umbral. Se
esto aqui precisando que as ajudem  porque no compreenderam ou no querem
ainda passar de ajudadas a ajudantes.
         -- No seria melhor separ-las? Esto sempre trocando fluidos negativos
de rancor - falei.
         -- Quer conhecer a histria das duas? - Indagou-me dr. Antnio.
         Afirmei com a cabea, fomos para o jardim do hospital, sentamo-nos por
momentos num banco embaixo de uma rvore frondosa e ele narrou:
         -- Conheo, para ajud-las melhor, a histria das duas. Uma, sinh
orgulhosa, exigente, tratava os escravos com desrespeito. A outra, escrava que
servia a casa-grande.
        Ambas tinham filhos, famlia. Um dia, o esposo da senhora desconfiou que
ela o traa, chamou a sua presena Rosa e ameaou castig-la se no lhe contasse a
verdade. Ela, temerosa, falou ao sinh dos encontros amorosos de sua esposa. Ele
prendeu sinh Rita no quarto, foi atrs do amante e o matou. Era um de seus
empregados. A sinh, ao saber, conseguiu que um outro empregado trouxesse Rosa
a sua presena. Ele a segurou e sinh Rita cortou sua lngua com uma faca.
        "Dias depois o esposo da sinh Rita a matou, sufocando-a com o
travesseiro. Desencarnou com dio. Foi para o Umbral.
        "Rosa viveu algum tempo, muda e com dio de todos pelo que lhe
acontecera. Desencarnou e no pde ser socorrida. Foi tambm para o Umbral
junto com sua ex-sinh. Ficaram unidas pelo dio.
        "At que, cansadas de sofrer, pediram clemncia para ficar livres do
sofrimento. Muitos fazem qualquer coisa para parar de sofrer e no so fingidos os
pedidos de ajuda. Nesse caso, as duas acharam que se haviam perdoado, queriam
mudar a forma de viver e pensar. Mas, j sem o sofrimento, comearam a ver tudo
diferente, acham-se vtimas, injustiadas.  por isso, Cabocla, que nossas
enfermarias esto sempre lotadas. E, quando pedidos de socorro so fingidos, os
socorristas no socorrem, pois esses espritos necessitam passar mais tempo
sofrendo para poder ter auxlio."
        -- Que coisa! - Exclamei. - Rosa prefere continuar muda a perdoar e
sinh Rita, a ter seus ataques de sufocao a esquecer o rancor.
        -- Deixamo-las perto para que se perdoassem. Mas vou transferir uma
delas. Tero tempo para se entender.
        Voltei aos meus afazeres, agradecida pela lio recebida.
        Sinh Rita foi transferida para outro quarto da enfermaria, foi melhorando
e as crises de sufocao foram rareando. Quando melhorou, pediu para reencarnar
e seu pedido foi atendido: ela voltou ao mundo fsico. Rosa melhorou, passou a nos
ajudar na enfermaria. S depois de um bom tempo conseguiu falar de novo, ento
foi para a escola estudar e passou a trabalhar. Reencamou como filha de sua antiga
sinh na tentativa de se reconciliarem e acabaram amigas.
        Amava cada uma das abrigadas que atendia, e elas normalmente ficavam
por tempo na enfermaria. Sempre que possvel perguntava da vida delas, no por
curiosidade, mas por querer v-las bem.
        Muitas eram gratas, se esforavam para melhorar, reconheciam seus erros e
s vezes choravam de remorso. Estas logo estavam bem e lhes era oferecido viver
na colnia por mais tempo para estudar e se preparar para a futura reencarnao.
Algumas iam contentes, outras no conseguiam ficar livres do remorso e queriam
reencarnar para ter a bno do esquecimento. Mas so muitas as que querem
reencarnar, pedem, insistem, e tm que esperar. Vo sendo atendidas conforme a
sua necessidade. No existe tempo certo para a reencarnao, h uma mdia, mas
todos os casos so estudados separadamente. Assim, uns voltam logo, outros
demoram muito.
        Mas havia as que se queixavam para ns, as enfermeiras, e para dr.
Antnio. Tentvamos, antes de tudo, ensin-las que a queixa e a autopiedade no
fazem bem a ningum.
        -- Dr. Antnio - disse uma senhora recolhida havia tempo na enfermaria -,
no tive escravos e estou s sofrendo depois que meu corpo morreu. Confessava
meus pecados e ia sempre  igreja. No era para eu estar em condies melhores?
        E o mdico respondeu, porque no deixava ningum sem explicaes:
        --Dona Filomena, a senhora no teve escravos por no ter tido condies
para t-los. Bem que gostaria de ter tido. Mas nossos problemas, ou de quem est
aqui, no so s pela escravatura. Atos errados so bem diversos. No basta s
pedir perdo, temos que reparar nossos erros. Quando pedimos perdo com
sinceridade, este deve ser dirigido a quem ofendemos e, quando for pedido a Deus,
deve ser com a convico de que, se o tempo voltasse, no erraramos, como
tambm no erraremos novamente. Devemos estar cientes de que atos errados e
acertos so plantaes que do frutos. Somos livres para fazer o que queremos, mas
obrigados a arcar com as conseqncias. Ento a senhora acha que deveria estar em
condies melhores? Quero crer que seja para ajudar os outros, para trabalhar
comigo e com a Cabocla.
          -- Melhorar para servir? J trabalhei tanto encarnada!
          Pensei que descansaria pela eternidade.
          -- Ento, se queixa de qu? - Perguntou dr. Antnio. - No est
descansando aqui? Est no leito,  servida, no faz nada de til para si ou para os
outros.
          -- No  esse o descanso que almejava, que almejo... - Falou ela,
abaixando a voz.
          -- Minha filha - disse o mdico pacientemente -, enquanto quiser ser
servida ser certamente necessitada. S quando doamos de ns mesmos  que
somos auto-suficientes.
          Trabalhou muito quando encarnada? Ser que foi assim mesmo? Voc quer
que a lembre de seus erros para que entenda que Deus  misericordioso com voc?
          -- No quero me lembrar de nada - falou ela.
          -- Dona Filomena, digo isso para que a senhora se esforce para
melhorar, mas  necessrio que modifique seus pensamentos, seja grata e queira ser
til. Aqui no plano espiritual no h lugar para ociosos. No exija de outros o que a
senhora pode fazer.
          -- E que pensei - resmungou ela - que o senhor e Cabocla tinham a
obrigao de fazer o que fazem.
          Dr. Antnio sorriu:
          -- Todos ns temos obrigao de aprender a ser bons, de fazer o bem,
de trabalhar e ser teis. Todos ns! Se Cabocla e eu estamos servindo  porque
entendemos que  bem melhor que ser servido, porque esto em condio de
mendigos os que querem s receber.
         E eu aproveitava as lies que dr. Antnio dava a cada uma delas. Ele,
sabendo disso, deixava que eu escutasse. Assim ia ao seu lado enquanto ele atendia
as abrigadas da enfermaria.
         -- Dr. Antnio - pediu uma senhora ainda jovem -, por favor, me
transfira deste lugar.
         -- Por qu? - Perguntou o mdico. --         Sei que estou doente, tenho
tuberculose, embora muitos digam que esta doena ingrata mata, eu estou
melhorando a cada dia. Mas aqui estou, junto de doentes mentais que dizem que
seus corpos morreram... No quero parecer ingrata, mas at as enfermeiras tm
essas manias, so boazinha mas dizem que j fizeram essa passagem, coisas que no
entendo e de que tenho medo. No quero ficar junto de doentes mentais.
         -- Filha, julga-se mesmo viva num corpo carnal? - Indagou o mdico
tranqilamente.
         -- Claro que sim! No morri, no vi Deus! No fui julgada com as
honras que cabem a uma religiosa. Fui freira e rezei muito. Nossa Senhora vir me
receber quando eu morrer e me levar para o cu - disse ela.
         -- Filha - continuou dr. Antnio a esclarec-la -, ser que no pode
pensar que a morte seja um pouco diferente do que acredita? Deus, nosso Pai, est
presente em todos os lugares e dentro de cada um de ns. Nossa Senhora  um
esprito sublime e no tenho conhecimento de que ela faa isso, porque cabe a cada
um de ns fazer por merecer a desencarnao que poder nos trazer alegrias e
felicidades de imediato.
         -- O senhor tambm... - Choramingou ela.
         -- J tenho conversado com voc, tentando faz-la entender que
desencarnou, e voc, iludida, no quer compreender. Filha, seu corpo com
tuberculose morreu, mas voc sabe que no foi s por isso. No terceiro aborto que
voc fez, a hemorragia ps fim a sua vida material.
          A jovem senhora colocou as mos nos ouvidos, no querendo escutar. Dr.
Antnio falava baixo, s ela e eu, ao seu lado, escutvamos. Calmamente ele tirou
as mos dela de seu rosto e a encarou com ternura.
          -- Eu confessei meus pecados, fui perdoada - balbuciou.
          -- Por quem? - Indagou dr. Antnio.
          -- Pelo meu confessor - respondeu ela.
          -- E esses espritos que iam reencarnar, os ofendidos, j lhes pediu
perdo?
          -- No, a alma s se une ao corpo quando ele nasce.
          -- No, filha, na concepo j h um esprito que teria a bno da
reencarnao. Voc errou, foi orgulhosa, vaidosa, entrou para o convento sem
vocao, porque, desiludida por amar um homem que teve que casar com outra,
temeu ficar solteira. No convento decorou muitos ensinamentos, mas no os viveu.
Esqueceu-se da caridade, preferiu a luxria. Grvida, optou por abortar, tomando
remdios de ervas conhecidos de muitas mulheres e que seu confessor sabia
utilizar. Filha, estou lhe dizendo isso para que reflita sobre a bondade de Deus, que
a ama como a todos ns. Voc teve o corpo fsico morto h anos, no se iluda
mais. Recorde! Vagou pelo convento por muito tempo, depois veio para c e sua
melhora tem sido lenta porque teima em no aceitar a verdade e quer ficar iludida,
julgando-se encarnada e isentando-se de erros. Errar  humano. O que importa 
que, reconhecendo os erros, passemos a repar-los. No se envergonhe! Se decorou
o Evangelho, convido-a a pratic-lo. Aceite seu estado de desencarnada para que
possa melhorar e viver como uma!
          A jovem senhora abaixou a cabea, pensativa, e depois dessa conversa foi
melhorando, aceitou seu estado de desencarnada. Um dia me disse:
          -- Cabocla, errei muito e quero pedir perdo para aqueles a quem ofendi.
 que no queria ter morrido. Queria tanto ter sido superiora e mandar naquele
convento! Mas agora comeo a pensar que foi melhor para mim ter desencarnado
sem ter conseguido isso. Vou seguir seus conselhos e os do dr. Antnio.
         Quando se quer, se consegue, ela melhorou e foi transferida. Logo estava
trabalhando como eu, de enfermeira numa ala do hospital. No esqueceu o que fez
e nem o muito que sofreu, mas isso para ela era motivo de incentivo, muito errou,
muito tinha que fazer para reparar.
         Logo que fui trabalhar na enfermaria, no sabia responder s queixas ou
exigncias. Dr. Antnio, bondosamente, me instruiu:
         -- Cabocla, voc deve responder aos queixumes delas,  preciso que as
orientemos com caridade e firmeza, porque se aceitarmos suas lamrias estaremos
concordando. Necessitam entender que no esto agindo certo e dar valor ao
trabalho alheio, que a ajuda que recebem  um esforo de outrem e que todo
trabalho deve ser respeitado.
         E assim aprendi a lidar com as diversas questes que surgiam dia a dia na
enfermaria.
         Honorina estava sempre resmungando: -- Voc demorou, Cabocla, quero
gua!
         -- A gua est perto de sua cama, na mesinha de cabeceira, por que no
pegou?
         Parecia que no me ouvia e continuava falando:
         -- Nada aqui funciona direito. Dizem que  s pedir socorro e se 
socorrida. Estava no Umbral sofrendo de mais, arrependida do que fiz, pedi
socorro e s fui auxiliada trs dias depois.
         -- Honorina - respondi -, voc acha que  possvel ter vinte e quatro
horas por dia um socorrista  disposio de cada um dos que esto sofrendo? Aqui,
por imprudncia de tantos, h muito o que fazer. A seara  grande, os necessitados
muitos e poucos os trabalhadores. Isso que dizem, que ao pedir socorro ele vem,
no quer dizer que seja de imediato. Os socorristas no Umbral obedecem uma
escala, vo a alguns lugares determinados a cada dia e l socorrem os que pedem
auxlio, sem ser necessariamente a primeira vez. H lugares, buracos, aos quais s
vo uma vez por ms. Voc acha pouco? Por que no vai ser socorrista, a talvez o
servio ande mais rpido, porque so poucos, querida, os que querem trabalhar nas
zonas inferiores.
         Podem pensar que respondi de modo rude, mas certas pessoas s
entendem assim. No era s porque foram socorridas que se livraram de seus
vcios, muitas ainda no entendiam seus atos errados, que praticaram, e nem as
conseqncias deles. Teriam que se educar, se modificar ou tentar faz-lo, como eu
estava tentando. E, se no respondia a algumas de forma mais enrgica, me omitia
de ensin-las a respeitar quem pelo trabalho as auxiliava.
         -- Eles no fazem seu trabalho com prazer? - Indagou.
         -- Fazem, como fao o meu. Precisamos aprender a ser teis, porque
aquele que no o , perde a oportunidade de servir. E quem no trabalha no deve
reclamar do servio alheio. Mas voc deve pensar seriamente em se melhorar e ir
trabalhar no Umbral.
         -- Deus me livre! - Exclamou ela. - No quero voltar l nem como
socorrista. Quando me sentir bem, quero algo mais prazeroso.
         -- Trabalhar nas enfermarias? - Perguntei.
         -- Tambm no! Acho que quero algo mais... digo, menos braal. Como
administradora de algo.
         -- Sabe fazer isso? Administrar? - Indaguei. - Nossos administradores
normalmente j passaram por todos os trabalhos, quem administra tem que saber
fazer.
         -- Hum!... - Respondia e mudava de assunto.
         Honorina demorou para melhorar. Dr. Antnio tentou faz-la entender
que necessitava fazer alguma tarefa, estudar, mas ela achava defeito em tudo e
recusava o que lhe era oferecido. Como o plano espiritual, na esfera em que
estvamos, que abrange postos de auxlio e colnias, no abriga por muito tempo
ociosos, Honorina foi convidada a reencarnar. E o fez como negra e escrava numa
fazenda onde teria que trabalhar. Espervamos que aprendesse, deixasse de ser
ociosa, porque a preguia  um grande obstculo ao progresso.
         Comecei trabalhando seis horas, depois de algum tempo passei a oito
horas. Nas outras oito horas quem cuidava daquela enfermaria era Pitu, e as oito
horas restantes eram deixadas para repouso, s havia atendimento de emergncia.
Havia na nossa enfermaria sessenta leitos, s vezes estavam todos ocupados, outras
no. O trabalho era intenso. Esse nmero de leitos varia dentro do mesmo hospital
e nas colnias. Pitu era negra, foi escrava, era muito bondosa e competente.
         -- Dr. Antnio - reclamou Ambrosia -, no quero ser atendida por negra
ou ndia. Ser que o senhor no poderia enviar uma branca para ser nossa
enfermeira? No gosto de pessoas de "cor" e no confio nelas...
         -- No, senhora, no d, porque Pitu e Cabocla so iguais a voc, apenas
tiveram a cor da pele e a aparncia fsica diferentes da sua na ltima encarnao.
Aqui no  lugar de racismo.
         -- Dr. Antnio, no quis ofender ningum.  que eu, sendo branca e
rica, devo ser atendida...
         -- Filha, aprenda de uma vez que reencarnamos ora num corpo negro,
ora branco ou amarelo para aprendermos a amar todas as raas. H pessoas boas
ou ruins em todas elas. Voc, na ltima, foi branca; e na penltima? J lhe passou
pela cabea que foi negra? Vamos lembrar?
         Dr. Antnio a olhou fixamente, ajudando-a a recordar, e Ambrosia
conseguiu lembrar.
         -- No, no e no! Fui negra! Recordo! Negra suja e fedida da senzala.
Como foi triste! No gostei de ter sido assim. Prefiro esquecer... Agora sou
branca...
         -- Ambrosia - disse dr. Antnio carinhosamente -, se j foi negra, no
renegue as pessoas que so ou sero. Aprenda a quer-las pelo que tm de bom.
Voc deveria pedir desculpa  Pitu e  Cabocla e se esforar para amar todas as
pessoas sem distino.
            Ambrosia ficou triste e pensativa e ps-se a se esforar para atender a si
mesma. Conseguindo, passou a ajudar as companheiras, logo se tornou nossa
ajudante.
            Isso estava sempre ocorrendo, e para esses casos dr. Antnio dava bnus-
horas que podiam ser usados na colnia. E, ao receber o seu, Ambrosia aproximou-
se de mim e me deu uma flor.
            -- Cabocla, voc me desculpa?
            Abracei-a em resposta.
            -- Estou contente por voc ter melhorado - respondi.
            Depois foi a vez de ela se desculpar com Pitu.
            -- Pitu, devo desculpas a voc. Aceite o meu bnus-hora como presente.
E meu, dr. Antnio me deu dizendo que mereci. Dou a voc algo que conquistei.
Seja minha amiga!
            Pitu chorou emocionada.
            -- Que tal me dar um abrao?
            -- Abraaram-se.
            -- Bem - disse Pitu -, queria ir ao teatro com esse bnus-hora, mas estou
sem companhia, que tal, Ambrosia, voc ir comigo?
            -- Claro que vou!
            Dr. Antnio, ao saber, sorriu contente.
            -- Vou transferir Ambrosia, est apta a morar na colnia. Quando teve
que se virar, aprendeu e, melhor, passou a ajudar as companheiras. Isso foi bom
para ela.
            E foi questo de tempo, logo Ambrosia estava trabalhando nas
enfermarias. Ela e Pitu tornaram-se amigas e esta a convidou para morarem juntas.
            Como aprendi trabalhando nas enfermarias! Como  complexo o ser
humano! Muitos exigem, pensando ter direitos, esquecendo os deveres que julgam
ser s dos outros! E todos ns devemos nos esforar para sermos bons, no exigir
dos outros, mas sim de ns mesmos, e largar de querer s receber, passar a doar
sem querer ter crdito, porque a vida  atividade e os que param, estacionam,
estagnam, prejudicando a si mesmos.
        Mas outra atividade me esperava e fui realiz-la contente e grata pela
oportunidade de aprender trabalhando.




        8

        FUI ESCRAVOCRATA


        Estava sempre escutando amigos falarem de suas outras existncias, de
suas encarnaes anteriores. Eu no tinha curiosidade. O que havia sido no me
importava, mas sim o que poderia ser e o que seria no futuro. Era a nica de nossa
casa que no sabia do passado. Embora tivesse alguns lances de recordaes, no
dava importncia. Depois de anos na colnia, resolvi assistir a algumas palestras
sobre o assunto.
        Fazemos parte do passado e o nosso est em ns e dele no podemos
fugir. Podemos ignor-lo, mas tudo o que vivemos est registrado na nossa
memria espiritual. Sei que para muitos essas lembranas devem vir em tempo
certo e elas nos servem de incentivos para melhorarmos. E recorda-se de vrias
maneiras: sozinhos, caso estejamos aptos para isso, ou com ajuda de pessoas
especializadas.
        Numa dessas palestras sentou-se ao meu lado Maria dos Anjos, uma
senhora que prestou muita ateno a tudo o que foi dito. Samos comentando
sobre o assunto e ela me disse:
        -- Cabocla, no quero lembrar minhas encarnaes anteriores. Para mim
bastam as recordaes desta, que j me doem muito.
        Percebendo que ela queria falar, convidei-a para nos sentarmos num banco
do jardim. Maria dos Anjos ps-se a contar sua histria:
        -- Obrigada por querer me escutar, contar a algum minha vida me
aliviar. Fui a terceira filha de um casal de comerciantes de uma cidade pitoresca de
Portugal. Desde pequena dei muito trabalho, sempre fui exigente e gastadeira.
Mocinha, quase levei meus pais  falncia, fazia muitas compras, gostava de
vestidos caros e de me exibir. Numa briga mais violenta com meu pai, sa do meu
lar e fui para a casa de uma tia em uma cidade maior. Minha tia deixou claro que
no estava gostando de me hospedar, mas no liguei. Tinha um plano: casar com
um homem rico, e a ocasio chegou. Conheci numa festa um senhor bem mais
velho que eu, fazia dezessete anos que morava no Brasil. Dono de terras, fora a
Portugal querendo se casar. Tudo fiz para conquist-lo. Minha tia preocupou-se:
"Maria dos Anjos, no se case, voc no sabe quem  ele e no ser fcil viver na
colnia portuguesa na Amrica. L  muito primitivo!" No quis saber de opinies
ou conselhos. Disse a ele que meus pais haviam morrido e um ms depois de nosso
primeiro encontro casamos. Vim para o Brasil toda esperanosa. Ficamos dias no
Rio de Janeiro, achei linda a cidade, mas a sociedade no era parecida com a de
Portugal. Decepcionei-me ao ver a fazenda. Achei-a horrvel e vivia resmungando.
Nunca mais quis saber de meus pais e nem dos meus parentes. Mesmo tendo um
marido rico, nunca pensei em ajud-los. Para meu desespero, fiquei grvida e tive
trs filhos em curto espao de tempo. Ia muito para nossa casa na cidadezinha
perto da fazenda, sempre na esperana de viajar para a Europa, viagem essa que
meu esposo tinha prometido e que estava sempre adiando.
        "Uma vez, estando na cidade, um vendedor ambulante veio at minha casa
vendendo quinquilharias. Achei-o lindo. Voltou outras vezes, resolvi ir embora
com ele, sair em aventura pelo mundo. Fugi de madrugada, deixando marido e
filhos para nunca mais saber deles. No comeo o gosto da aventura me deixou
contente, depois vi que nada valia a pena.
        Tnhamos pouco dinheiro e todos os lugares, para mim, eram cidadezinhas.
Tive uma filha e a deixei  porta de uma casa. Depois aprendi a fazer um ch
abortivo e quando achava que estava grvida o tomava. Tambm o fazia para
vender. Vivi anos viajando de um lado a outro, s que envelheci e um dia despertei
e no encontrei meu amante, ele havia partido sem mim. Arrumei um emprego na
taberna e passei a beber em demasia. Desencarnei numa manh fria, de um ataque
do corao. Sofri muito no Umbral, at que, cansada, quis melhorar. Fui socorrida
e aqui estou, me esforando para modificar-me. Voc no acha, Cabocla, que no
preciso de mais recordaes, que j tenho muitas?"
        Sorri, compreendendo-a. Ela continuou a falar: -- No dei valor  famlia.
Meus pais tanto sofreram por mim, por minha atitude, que quase os levei  runa
por no saberem de mim. Nunca escrevi uma carta para eles. Abandonei meus
filhos, um marido honesto que tudo fazia para dar o que eu exigia. Ele no foi atrs
de mim, resolveu criar os filhos sozinho. Depois de algum tempo casou-se
novamente. Eles sentiam meu abandono, principalmente os filhos, que tiveram
muita vergonha de minha atitude. E a filha que eu abandonei no ficou na casa rica
em que a larguei, os moradores no a quiseram e um outro casal pobre a criou.
Voltarei a reencarnar assim que me for permitido e no terei famlia, na tentativa de
aprender a dar valor a uma. Certamente sofrerei o abandono dos pais, aos quais
no dei valor na ltima encarnao, no terei lar e nem a bno de ser me.
        -- Sente-se forte para tudo isso? - Indaguei.  Tem certeza de que tem
necessidade de passar por tudo isso?
        -- Mereo outra coisa? No, Cabocla, no mereo, tenho conscincia de
meus erros. No aprendi por amor, mas estou a fim de aprender e, me conhecendo,
acho que a dor me levar a compreender muitas coisas.
        Despedimo-nos, j era tarde e tnhamos nossos compromissos. Fiquei
pensando em Maria dos Anjos. Ela certamente sabia mais do que ningum o que
seria melhor para ela. Temia fracassar novamente se no tivesse srias dificuldades.
Tomara que ela, ao passar por tudo o que planejou, no se revolte, porque muitos,
se esquecendo de que foram eles mesmos que planejaram as dificuldades, se
revoltam, piorando sua situao.
        Numa tarde conversava com Manu no jardim de nossa casa, tinha algumas
horas livres e meu filho voltaria logo ao trabalho. Estava muito contente por ele,
tinha recebido um cargo de instrutor em uma parte do hospital. Segurando minha
mo, ele falou emocionado:
        -- Sou muito grato! Profundamente grato a Deus, a todos os que tm me
ajudado e  oportunidade de voltar ao corpo fsico muitas vezes.
        -- Manu, voc no teve rancor do feitor que o castigou? - Indaguei,
lembrando como foi sua desencarnao.
        -- No tive rancor dele, senti mais por ele t-la machucado. J o perdoei,
embora ele no me tenha pedido perdo. Desencarnou e vaga pelo Umbral,
sofrendo muito. J tentei ajud-lo por diversas vezes, mas ele no aceita meu
auxlio. Odeia a todos. Porm, sei que chegar um dia em que compreender a
gravidade de seus erros e que seu sofrimento no lhe foi imposto,  a conseqncia
de seus atos.
        -- Filho, voc sabe o que fez no passado para ter tido uma encarnao
como escravo? Por ter passado por essa lio to difcil? - Perguntei.
        -- Difcil? No, mame, no vejo minha vida assim.
        Foi uma prova para a qual me sentia apto, reencarnei e sa vitorioso e
contente por ter conseguido. Infelizmente no posso dizer isso das minhas outras
encarnaes. Tenho me esforado nas ltimas e melhorado. Antes de reencarnar
como Manu, na minha penltima encarnao, me preparei, queria vir para o Brasil e
lutar contra a escravido, tornar a vida dos negros escravos no Brasil mais humana.
E, por isso, resolvi ser padre. Com o poder que tinha a Igreja seria mais fcil
realizar o que planejei. E assim foi, reencarnei em Portugal, fui para um convento e
vim para o Brasil, perto de um tio que tambm era sacerdote e que havia tempo
estava na colnia.
        "Logo que cheguei me escandalizei com o modo de vida dos escravos.
Gostei do meu tio e o admirei, era um sacerdote srio e inteligente, que me tratou
como filho. Passei a ajud-lo em sua parquia, que era numa cidade que
prosperava.
              "S que ele pensava, acreditava mesmo, que negro no tinha alma, que
eram seres inferiores, animais para servir os brancos. No era errado t-los, s que,
piedoso, no gostava que judiassem deles. 'Todos os animais teis devem ser bem
tratados - dizia. - Mas  permitido castig-los quando merecerem' .
        "No pensava como ele, mas como admirava sua sabedoria, seus
conhecimentos, acabei acatando suas idias. No fiz o que planejei, fui um
sacerdote que procurou confortar, ajudar, mas s os brancos. Desencarnei jovem
por causa de uma febre dos pases tropicais. No vaguei, fui socorrido por negros
escravos que bondosamente me levaram para um posto de socorro. Ento entendi
o quanto errara e chorei muito. Deixei de fazer algo, quem pode e no faz cria
dbitos que geram sofrimentos e eu sofri mesmo estando socorrido. Pedi para
reencarnar negro e escravo para aprender que somos todos irmos e aprendi.
Tambm queria provar a mim mesmo que era capaz de receber uma ofensa e
perdoar."
        -- Provar a si mesmo que sabe perdoar... - Falei. Manu sorriu com seu
jeito agradvel e respondeu me dando uma preciosa lio:
        -- Muitos se esquecem de que nosso planeta, nosso querido e abenoado
lar terreno,  tambm de provas. Tanto assim que escutamos sempre: "est
sofrendo pelo seu carma negativo". Mas h tambm provas...  como os viciados
em tabaco que dizem: "vou parar de fumar"; mas s vencem o vcio quando o
abandonam por anos. Mas aquele que nunca foi viciado em tabaco no precisa
provar que  capaz de ficar sem fumar. Aquele que sempre perdoou no precisa
provar que  capaz de faz-lo, nunca deixou de fazer. Tenho um amigo que quis
passar pela prova de estar doente, sentir muitas dores e no se revoltar, no
blasfemar contra Deus, fato que j lhe havia acontecido. Passou e venceu, sente-se
um vitorioso, venceu em si algo que tinha como vcio: revoltar-se diante de seu
sofrimento. Tambm sei de um senhor que est, no momento, encarnado, que 
um trabalhador no seu servio material e incansvel no trabalho do bem.  doente;
para muitos, enfermo a ponto de no fazer nada, e outros dizem que sofre pelo seu
carma negativo. Mas no,  prova que ele escolheu, trabalha mesmo com
deficincia, doente. Seu protetor nos disse que ele anteriormente j usou de
doenas fictcias para no trabalhar, agora serve com as reais doenas que
inventava. H um abrigado no hospital que quer reencarnar e pedir como prova ser
cego, porque ele acha que com essa deficincia provar a si mesmo que ser capaz
de fazer muitas coisas teis e ajudar outros que tenham a mesma dificuldade que
ele. No sei se isso lhe ser permitido, porque existe a possibilidade de ele se
revoltar se no estiver ou se sentir preparado para isso.  sempre estudado cada
caso.
        Manu fez um pequeno intervalo e continuou: -- A senhora, trabalhando
na enfermaria, sabe que muitos dizem: "perdo", mas, diante de uma circunstncia
em que se  vtima, perdoaro ou no? Sabemos realmente perdoar? Eu necessitava
passar por essa prova. Desencarnei injustamente sob tortura e em nenhum
momento senti dio. Perdoei de corao o senhor Lisberto, desejando-lhe bem,
tanto que j quis ajud-lo. Um dia conseguirei, porque o amo como um irmo e
vejo nele um necessitado. Estamos quase sempre querendo provar algo a ns
mesmos: provar que vencemos um vcio, que realmente adquirimos virtudes. Meu
prximo objetivo  reencarnar e provar a mim mesmo que farei o bem sem exigir
nada, nem agradecimento, e nem sentir que tenho crdito. Fazer por amor!
        Manu despediu-se me beijando. Fiquei sozinha no nosso pequeno jardim,
pensando no que meu filho disse, e as lembranas vieram. Foram to fortes que
senti como se as estivesse vivendo novamente.
        Vi-me em trajes longos e pretos. Fui um sacerdote. Desde pequeno queria
ser padre. Nasci em Portugal, numa famlia de classe mdia muito religiosa, que se
alegrou com minha vocao. Depois de um tempo que j era padre vim para o
Brasil a mando da congregao.
        Aqui, em terras brasileiras, na poca colnia de Portugal, me escandalizei
com os ndios. Achei-os preguiosos, sujos e despudorados. Analisei-os e conclu,
sem duvidar, que ndios no tinham alma e que no serviam para nada. Mesmo
vitimados por doenas oriundas dos brancos que os levavam  morte, no me
apiedava, at os ajudei, certa vez, a ir para o interior, para as matas fechadas.
        Havia escravido. Acatei-a, pois acreditava que negros no tinham alma,
como dizia a Igreja. Se no tinham, eram animais, talvez mais aperfeioados, para
servir os brancos. E ns, brancos, seus superiores, tnhamos necessidade deles para
fazer da colnia um grande pas. Amei essas terras assim que cheguei e tratei de ser
um bom padre. No meu tempo livre estava sempre lendo e estudando livros que
trouxera comigo de Portugal.
        Uma vez, uma negra veio me pedir ajuda. Ela estava grvida, a criana era
filha de seu sinh e a sinh prometera mandar a criana para longe logo que
nascesse. Ela chorou.
        "Estranho - pensei -, tem sentimentos,  negra e mulher... Mas animais
tambm gostam e cuidam com carinho de suas crias..."
        Tive d e a ajudei, fiz a sinh vend-la para uma senhora que morava longe
e que era boa para os escravos. L ela no iria se separar de seu filho. Ela me
agradeceu chorando. Confesso que esse episdio me abalou, mas logo voltei a crer
na Igreja. Deus  justo, no ia fazer um ser negro e escravo com alma para viver
uma s vez na Terra. No tem alma e pronto!
        S que achava que todos os animais tinham que ser bem tratados, mas que
no era pecado mat-los se assim fosse preciso. No falava essas idias
abertamente, porque temia abusos, s para os que me indagavam, mas sempre
frisava: "Trate bem seus animais, pois eles so mais teis bem tratados e
alimentados".
        Achava tambm que a mulher no tinha alma. Preferia pensar como os
membros antigos da Igreja, embora ela j tivesse em concilio afirmado que o sexo
feminino a tinha, eu preferia crer que no. Era outro ser inferior que viera ao
mundo s para servir os homens.
        Embora pensasse errado, vivi tentando ser bom sacerdote. Segui os
mandamentos da Igreja, no tive vcios, nem amantes, no fiz nada que a Igreja
pudesse abonar. Fui para minha congregao um excelente membro. Quando meu
sobrinho, tambm padre, veio ficar comigo, achando-o sonhador, tudo fiz para que
ele mudasse e acatasse minhas idias.
        Ele desencarnou vtima de uma febre tropical, senti muito. J velho, fiquei
doente por muito tempo, sendo bem cuidado por mulheres piedosas que gostavam
de mim. Um dia, uma delas me disse:
        "O senhor sempre diz que mulher no tem alma. Acho que no tenho
mesmo. Vim ao mundo para sofrer, no devo ser filha de Deus. Pensando assim,
cometi alguns pecados, mas que me importa? Se no tenho alma, quando morrer
irei acabar. Talvez seja melhor mesmo, seno poderia ir para o inferno."
        No sei bem por que chorei ao escutar aquilo, e, pela primeira vez, cogitei
que poderia estar equivocado.
        Lembrei-me de Maria, me de Jesus. Talvez s ela tivesse alma, e para que
Jesus nascesse. Era um fato especial. Preferi no pensar nisso, mas passei a faz-lo.
Comecei a chorar, tristonho. Poderia ter passado toda a minha vida erradamente. E
comecei a pedir a Deus:
        "Deus Pai, se errei me perdoe, se errei..." No sabia se errara ou no, fiquei
em conflito e sofri muito mais com isso do que com as dores do corpo enfermo.
Desencarnei, dormi para acordar num outro leito, em um lugar estranho e ao meu
lado meu sobrinho me dando as boas-vindas.
        "Tio, como est?"- Perguntou ele com carinho.
         "Estava errado? Diga-me, estive errado?" - Indaguei aflito.
         "Sim, titio, estivemos errados..." - Respondeu ele.
         Chorei muito.
         No fiquei muito tempo no plano espiritual e me foi dada a bno de
reencarnar. A fui Jussara, mulher, filha de ndia e escrava. As recordaes findaram
e eu fiquei chorando.
         -- Mame, eu te amo! - Disse Manu me abraando.
         -- Voc foi meu sobrinho, fiz mal a voc. Por que voltou, no ia
trabalhar?
         -- Estive preocupado com a senhora, deixei uma colega no meu lugar e
voltei para v-la.
         -- Fui a causa do sofrimento de muitos...
         -- Mame - disse Manu carinhosamente -, no se lamente assim!
Escutamos a quem queremos, eu era livre para acatar suas idias ou no. Para mim
foi mais cmodo escut-la que atender a minha conscincia. Se seguisse meus
planos teria mais trabalho, seria muito mais difcil ser abolicionista, optei pelo mais
fcil.
         -- Como  perigoso incutir nas pessoas idias erradas. Fui um
escravocrata! Um fariseu, de quem Jesus disse:
         "Ai daquele que no entra no reino de Deus e impede que outros o faam".
         -- Mame, eu tinha o Evangelho, os ensinamentos de Jesus e deveria t-
los como meta. No fiz isso. A culpa foi minha - respondeu Manu.
         Enxuguei as lgrimas do meu rosto e falei suspirando:
             -- Voc est sendo bondoso me isentando dos erros.
         -- No estou dizendo que no teve culpa, somos eu e a senhora
culpados! Sou responsvel pela minha parcela e no quero jogar a falta que me cabe
em outros.
         -- Achava o ndio selvagem, um animal indomvel e ocioso que no
deveria existir e fui filha de uma... - Lamentei.
        -- Mas compreendeu que o ndio  um esprito que comea a ter noes
do progresso, que os brancos deveriam am-lo, respeit-lo e ajud-lo a progredir no
bem. No chore mais, mame, lembre-se de sua ltima encarnao - disse meu
filho, passando as mos com muito carinho pelos meus cabelos. - Voc sofreu,
recebeu por filhos as pessoas que mais influenciou. Para impedir que eu fosse
castigado foi machucada, desencarnou para que os outros conseguissem a
liberdade. Foi uma me dedicada, uma pessoa bondosa e sofreu sem se revoltar.
        Recomecei a chorar, Manu deixou que eu desabafasse. Como os erros nos
pesam, mesmo j tendo colhido de sua plantao. Senti que no bastava t-los
expiado, mas que era necessrio ajudar os que erraram pela minha insensatez.
        -- Ainda bem que no dizia minhas idias a todos, emia abusos! -
Exclamei.
        -- Sim, temia que houvesse mais castigos com os pobres animais que
julgava serem os escravos.
        -- Manu, perdoe-me! - Pedi.
        -- Por favor, mame, no me pea perdo, no tenho nada para lhe
perdoar. Mas, se isso a tranqiliza, perdo, e mais, te amo!
        -- Obrigada!
        Passei uns dias triste, mas tristeza no paga dvidas. Embora eu as tenha
pago pela dor, quis construir pelo amor. Fui ao Departamento de Auxlio e pedi:
        -- Quero ajudar os que prejudiquei!
        -- Jussara - disse bondosamente a atendente -, certamente ter ocasio de
ajudar os que acha ter prejudicado.
        Mas nem sempre quem prejudicamos carece de nossa ajuda.
        Pelo que sei, ningum a culpou ou deixou de perdo-la.
        Talvez um dia possa caminhar com algum deles e a podero ser
companheiros de jornada, como j foi com muitos na sua ltima encarnao.
        -- Tem razo - respondi. - Vou continuar fazendo o que me compete,
quero me fazer apta para ser til com sabedoria.
        "Quando reencarnar - pensei -, quero provar a mim mesma que serei capaz
de amar a todos igualmente".
        -- Ser, Jussara - disse a atendente, lendo meus pensamentos -, que j no
o fez? Dessa vez no amou negros, brancos e ndios igualmente?
        Sorri e agradeci.
        Entendi que para recordar o passado necessitava estar amadurecida.
Embora cada um se sinta, ao faz-lo, de um modo. Manu no se abalou ao
recordar; eu sofri, no queria ter agido assim. E certamente no agiria novamente.
        E continuei fazendo o que me era designado com mais amor.




                                             9



        ACONTECIMENTOS NO QUILOMBO


        Aprendi muito estudando e fixei o aprendizado colocando em prtica
aquilo que aprendia. Passei por diversos trabalhos, mas sempre estava
acompanhando os acontecimentos com meus filhos no quilombo e com meus
amigos na fazenda.
        No quilombo eles viviam livres, mas miseravelmente. Faltava-lhes tudo,
inclusive roupas e alimentos. O lugar era muito alto, frio e nem tudo o que
plantavam dava boa colheita. Desencarnavam por diversas doenas, principalmente
as crianas. Meu filho, Tonho, ficou solteiro, l havia mais homens que mulheres,
ele no se apaixonou por ningum; e depois no queria deixar filhos para viver
miseravelmente ou como escravos e se preocupava com os sobrinhos. Era
bondoso, leal e honesto, estava sempre tentando ajudar os companheiros. Adoeceu,
tinha muita febre por causa de uma infeco, delirava e me via. Tive permisso, ao
sab-lo adoentado, para ficar ao seu lado. Desencarnou e pude socorr-lo. Ele foi
conosco para a colnia, onde se adaptou rpido, maravilhado com o plano
espiritual. Logo estava ajudando e trabalhando, grato pela felicidade que estava
desfrutando. Pude acompanh-lo nos primeiros tempos na colnia, ensin-lo
muitas coisas.
         -- Mame, como sou feliz aqui! Que lugar maravilhoso!  to agradvel
no sentir mais frio!
        E ficou morando conosco em nossa casa. Estava sempre sorrindo e ns
carinhosamente o chamvamos de Tonho Feliz.
        Tobi teve vrios filhos, muitos desencarnaram ao nascer ou em tenra idade.
Tobi vivia bem com o esposo, Dito, os dois amavam-se muito.
        J estavam h dezesseis anos no quilombo quando ele foi invadido por
capites-do-mato, homens pagos para capturar escravos fujes. Atacaram de
surpresa. Foi um massacre entristecedor.
        Estava na colnia, em casa, quando ouvi os apelos desesperados de Tobi.
Tonho e eu pedimos em pensamento permisso para ir at ela e nos foi dada,
volitamos e l chegamos em instantes e vimos o que estava acontecendo.
        Os capites-do-mato renderam todos com facilidade, estavam muito
armados. Mataram os idosos, eram apenas quatro, e as crianas pequenas.
Assassinaram-nos sem piedade.  que havia alguns anos estava em vigor a Lei do
Ventre Livre e negros libertos no os interessavam.
        Jussara, minha neta, tinha casado com Tio, mocinho bom que muito a
amava, e eles tinham um filhinho de dois meses. Mataram a criana no leito, diante
dela, que ficou horrorizada, parada, olhando sem se mexer.
        Ela era bonita, herdara de mim os cabelos lisos e os traos de meu pai, seu
bisav. Um dos invasores, o que havia matado seu filhinho, a olhou cobiando e
quis violent-la. Tobi interferiu querendo defender a filha e foi morta. O invasor
assassinou-a enfiando em seu peito um faco. Dito, que veio atrs de Tobi, ao ver a
cena, pegou um pedao de pau, golpeou o assassino vrias vezes na cabea,
matando-o. Outro invasor atirou em Dito, que tambm desencarnou.
        Como  triste ver cenas de violncia! Tonho pediu ajuda e um grupo de
socorristas veio ter conosco, entre eles estavam alguns ex-escravos e se puseram a
trabalhar calados, concentrados em prece, ajudando como podiam. Desligaram os
que haviam padecido, mas nem todos puderam ser socorridos.
        "Meu Deus! Meu Deus!" -Escutava-se muito. Eu mesma o disse vrias
vezes, tentando me equilibrar diante de cenas to marcantes.
        Os invasores prenderam os sobreviventes em duas cabanas. Medicaram os
feridos leves e os mais machucados foram mortos.
        -- Esses no agentam descer a montanha,  melhor que fiquem aqui e
mortos. No vamos dar o luxo de enterr-los, deixem para os urubus comerem -
disse o chefe deles.
        Planejaram passar a noite ali e partir no outro dia, logo que o sol nascesse.
        Muitos eram os negros mortos. Haviam tentado bravamente lutar, mas no
foi possvel vencer os capites-do-mato armados e dispostos a matar.
        Nossos amigos presos ficaram amontoados nas duas cabanas, tentando
saber quem estava vivo. Sofriam muito e alguns choravam, outros pareciam
apticos, estremecidos com tanta dor. Eu os amava como se fossem de minha
famlia, tive muita pena deles e tentei confort-los. Tambm me apiedei dos
invasores, teriam sem dvida a reao dessa ao. Porm, senti um certo rancor.
Por que tanta maldade? Como a crueldade faz mal! Para quem recebe  doloroso, e
para quem faz  terrvel. Creio que a crueldade  um dos mais pesados fardos que
se carrega.
        "Ainda tenho muito que aprender - pensei. - No os odeio, mas agora
tambm no consigo am-los. E acho certo que a colheita deles seja dolorosa".
        Um dos socorristas me abraou e confortou: -- Cabocla, j pensou que
essas cenas tristes so colheita tambm? Que as vtimas podem ter sido carrascos
anteriormente?
        Compreendi que ele tinha razo e tratei de ser til. At os dois capites-do-
mato foram desligados e tambm receberam, como todos, os primeiros socorros.
Um deles, a me desencarnada o levou para outro local, at que sua perturbao
melhorasse, porque ele no tinha condies para ser levado a um local de auxlio.
Por suas aes maldosas ele ia vagar ou ir para o Umbral at que se arrependesse e
quisesse se modificar para melhor. O segundo, que meu genro golpeou, ficou horas
por ali sem entender que seu corpo falecera. Um grupo de vingadores, seus
inimigos desencarnados, o pegou e com dio o levou para o Umbral.
        Tobi ficou abraada ao seu netinho, os dois adormeceram tranqilamente.
Meu genro estava inquieto, matou um homem, mas no tivera inteno e essa ao
pesava muito para ele. Atacou-o por desespero, querendo defender a famlia que
tanto amava. Foi acalmado por um socorrista e demorou para adormecer. Quando
estavam todos desligados e adormecidos, foram separados os que tinham
merecimento de serem levados para a colnia. Todas as crianas foram. Alguns
negros que desencarnaram com dio seriam levados para um posto de socorro
perto do Umbral. Seriam orientados, ficariam os que perdoassem e aceitassem o
socorro e os que planejassem melhorar, seno poderiam sair e ir para onde
quisessem.
        Procurei saber deles mais tarde, foram trs que no quiseram ficar no
posto, saram para se vingar.
        Depois que todos partiram, tive permisso para ficar com o grupo de
encarnados que estava preso, na tentativa de ajud-los. Meus entes queridos
desencarnados iriam demorar para acordar e Manu ia cuidar deles.
        A noite para os prisioneiros foi angustiante, temiam, choravam, todos ali
tinham algum morto, um membro da famlia ou amigos, e nem podiam enterr-
los. Pela manh foram amarrados uns aos outros com cordas pelos punhos e
tornozelos e foi dada a ordem:
        -- Vamos, negros, descer a montanha. Voltaro  escravido da qual nunca
deveriam ter fugido!
        Partiram tristes, cabisbaixos, muitos nem quiseram dar a ltima olhada para
suas casinhas ou para os mortos que estavam jogados nos mesmos lugares em que
caram sem vida. Tio, o esposo de Jussara, minha neta, a abraou, querendo
proteg-la. Esta no mais falou, no chorava, estava aptica e alheia. Ele deu um
ltimo olhar para o lugar que sempre teve por lar, suspirou e lgrimas escorreram
pelo rosto. Tio veio pequeno, com o pai e um irmo, fugido de uma fazenda. A
me morrera antes da fuga e o pai, tempo depois, no quilombo, quando foi ferido
numa queda e o irmo estava entre os mortos, ali jogado. Sua dor foi grande,
parecia que ia lhe arrebentar o peito.
         Medo e incerteza dominavam todos, mas um tentava ajudar o outro.
Desceram a montanha entre gozaes e ameaas daqueles homens rudes.
         Mas alguns moradores do quilombo escaparam na hora da invaso,
estavam nas plantaes e se esconderam. Passaram a noite ao relento, sentindo
muito frio. Voltaram quando viram que todos desceram a montanha. Eram nove
homens e trs mulheres, entre eles um neto meu. Desesperaram-se, choraram,
tentei consol-los e instru-los. Um deles, mais velho, resolveu assumir o controle,
disse alto:
         -- No adianta ficarmos em desespero. Vamos enterrar nossos mortos,
jogar os dois assassinos no precipcio.
         Vamos ao trabalho, que todos estejam enterrados antes do anoitecer.
         Entristecidos, trataram de fazer o que fora ordenado. Enterraram todos e 
tardinha se reuniram, estavam cansados e muito tristes. E um deles, que estava mais
equilibrado, disse:
         -- No vamos acender fogo por uns trs dias, talvez voltem se
perceberem que tem gente por aqui. Vamos ficar todos juntos numa casinha, um
ajudar a aquecer o outro.
         Havia pouco alimento, os capites-do-mato levaram tudo o que estava
armazenado. No outro dia comearam a se organizar e a repartir o que sobrou.
         Trs dias depois, um deles desencarnou, havia tomado muita friagem e
adoeceu. Fraco, triste, seu corpo fsico morreu e pudemos socorr-lo.
        Ficaram onze e fizeram um trato, iam viver como irmos, no queriam
procriar, ter filhos. Temiam outra invaso e no queriam seus rebentos mortos
como foram as crianas dali.
        Sempre ia visit-los, por anos assim viveram, um ajudando o outro, e
foram desencarnando, at que a comunidade acabou. A libertao dos escravos
aconteceu e eles nem ficaram sabendo, desencarnaram desconhecendo esse fato.
Mas foram todos socorridos aceitando a ajuda oferecida. Tiveram uma existncia
sofrida, de privaes, mas nunca perderam a f. Foi uma reencarnao de expiao,
mas tambm provaram que eram capazes de sofrer sem se revoltar.
        Acompanhei tambm a descida dos capturados, que foi em condies
desumanas. Era difcil caminhar entre as pedras, lhes era dado pouco alimento,
dormiam ao relento e para se esquentarem um abraava o outro.
        At certo ponto os capites andaram tambm, depois encontraram os
cavalos que deixaram num vale com um de seus homens guardando. E os negros,
cansados, tiveram que andar mais depressa.
        Quando chegaram  cidade, estavam, alm de tristes, abatidos, cansados e
esfomeados. Foram para um galpo da igreja e l lhes foi dado alimento, puderam
tomar banho e colocar roupas novas e quentes.
        Jussara no falou mais, tudo o que fazia era automaticamente, obedecia
Tio.
        -- Coma, Jussara, est gostoso! Coloque essa roupa.
        No outro dia, logo cedo, foram para o mercado e Tio rogava a Deus que
permitisse ficar perto de sua esposa.
        Foram expostos no mercado. Se algum reconhecesse entre eles um
escravo fugitivo, poderia ficar com ele, mas teria que pagar uma taxa aos capites-
do-mato que os haviam capturado. Os outros seriam vendidos. Tio abraou
Jussara tentando proteg-la, orava com f, orei tambm e fiquei atenta procurando
ajud-los. Queria que uma pessoa caridosa adquirisse os dois e cuidasse deles.
           Uma senhora viva, que logo percebi por sua vibrao ser bondosa, olhava
tudo com tristeza. Fui at ela e lhe pedi:
           "Por favor, senhora, compre aquele casal!" No me escutou, mas consegui
que pensasse no assunto. Ela replicou, pensando:
               "No compro escravos, no preciso!"
           "Faa ento uma boa ao!" - Insisti.
           Ela ento fixou seu olhar no casalzinho, apiedou-se da mocinha.
           "Quase uma menina! - Pensou. - Muito bonita, plida, quieta, cabea baixa,
com o olhar distante, e o jovem que a abraa tem desespero e medo no olhar".
           "Eles sofrem e a senhora pode ajud-los, compre-os, por favor..." -
Implorei.
           -- Quanto quer por esse casal? - Indagou a senhora para o mercador.
           Ele falou uma quantia alta, ela ia desistir, mas voltei a insistir:
           "Por favor, compre-os! E se eles fossem seus filhos? Iria quer-los bem e
juntos. So filhos de algum e eu lhe imploro: cuide deles! Insista com o mercador,
ele deixar por menos."
           -- Muito caro - disse a senhora. - Voc, mercador, sabe bem que no ir
vender fcil os escravos. Todos ns sabemos que logo sero libertos, nosso pas
ficar para sempre livre dessa praga da escravido. E, se no vend-los, seu prejuzo
ser grande, principalmente porque ter que aliment-los bem, essa  a lei e por
aqui ela tem que ser cumprida. Ofereo a metade do preo pelos dois e trate de
aceitar!
           Ele replicou, resmungou e eu o envolvi com meus fluidos e lhe implorei
que aceitasse a oferta dela. Discutiram por minutos e o mercador acabou por
concordar, e a senhora os comprou.
           Tio chorou, ajoelhou e beijou a mo de sua nova sinh, agradecendo-lhe
por no separ-los.
           -- Obrigado! Deus lhe pague! Serei um bom escravo.
        Foram levados para a casa da senhora e ela repartiu o servio, como deu a
eles um quarto nos fundos da casa, que era grande, arejado, com uma cama macia.
E o servio no era muito e nem pesado. Tio suspirou aliviado. Mas a senhora
logo percebeu que havia algo errado com Jussara, e ele lhe contou tudo o que lhes
havia acontecido, e terminou dizendo:
        -- Mas no se preocupe, sinh, fao o meu servio e o dela, quando
Jussara no o fizer. Tenho a certeza de que ela ficar boa.
        -- Coitadinha - disse a senhora, apiedando-se -, to novinha e j sofreu
assim. Vamos cuidar dela.
        E Jussara foi melhorando devagar. Tudo o que lhe ordenava fazia, s vezes
devagar, mas bem-feito.
        -- Tio - disse a senhora -, se Jussara tiver outro filho ir sarar.
        -- Ser, sinh?
        -- Claro, ela se distrair com outra criana! E no se preocupe, o filho de
vocs nascer livre e podero cri-lo aqui. Gosto de crianas e ajudo vocs.
        Jussara ficou grvida e de fato melhorou. Mas falava pouco, nunca sorria, e
Tio cuidava dela com muito carinho.
        Quase todos os membros do antigo quilombo estavam por perto. Naquela
regio os escravos eram bem tratados e os da cidade saam, faziam compras, se
encontravam nas noites de sbado e conversavam. Os traumas foram sendo
esquecidos, a vida continuou. Alguns achavam que ali era melhor que no quilombo,
outros no e as opinies eram diversas.
        -- Aqui no sou livre, mas me alimento bem, tenho roupa e meu sinh
nos d pinga todos os sbados - Disse um negro.
        -- Livres? E ramos no quilombo? L vivamos com medo. Revolto-me
quando penso na matana... - Disse um jovem.
        -- Odeio os brancos - disse uma senhora. - Eles mataram meus dois
filhos e o outro ficou l e no sei dele. Ser que est vivo? Aqui sou bem tratada,
me esforo para pensar que existem brancos bons, mas no me esqueo daqueles
capites-do-mato, nem que seja no inferno me vingarei deles. No deveria existir
diferena entre raas.
        -- No se amargure assim - disse outra senhora. - Tambm tive minha
filha e trs netos mortos. Choro por eles, tenho saudade, tento me conformar
crendo que eles esto livres e felizes l no cu. Aqui somos bem tratados, eu estou
junto de meu companheiro, seremos libertos logo.
        -- Eu - disse um negro -, apesar das dificuldades, preferia o quilombo, l
no tinha ningum para me dar ordens.
        -- Mas no quilombo trabalhvamos mais e passvamos frio! - Disse a
esposa dele.
        -- Isso ! Mas prefiro o quilombo - respondeu ele. - Tenho saudade dos
que morreram e do tempo em que estvamos todos juntos.
        Tio gostava da vida na cidade, a sinh era bondosa, preocupava-se com
Jussara, que continuava esquisita. Seu olhar triste impressionava quem a via.
        Os meses se passaram e chegou o dia de o nen nascer. O parto
complicou, a sinh mandou chamar duas parteiras para ajudar e elas tudo fizeram,
mas Jussara veio a desencarnar juntamente com a criana. Tobi e eu pudemos
socorr-la.
        Tio chorou desesperado, a sinh sentiu, mas a vida continuou e ele, tempo
depois, casou-se novamente. E a libertao veio, foi uma enorme alegria para todos
os escravos. Tio e a esposa, que era uma jovem boa, ficaram com a sinh, que, j
idosa, necessitava deles. Quase todos os escravos por ali ficaram com seus sinhs,
que passaram a ser patres.
        Mas, voltemos  desencarnao de Tobi e Dito. Eles foram levados para o
hospital da colnia, onde acordaram refeitos, aceitaram a desencarnao. Dito deu
mais trabalho, chorava inconformado pelo acontecido. Ele teve que fazer um longo
tratamento e acabou por superar o trauma. Foram morar conosco e passamos a ser
uma famlia feliz. Quando Jussara veio se unir a ns, nos desdobramos em cuidado
e ateno, mas ela continuava triste, se queixava.
         -- No consigo esquecer as cenas horrveis que vi, me esforo, mas no
d. Como seria bom esquecer...
         O orientador da colnia achou que seria melhor para ela reencarnar.
         -- Ser o melhor para ela - nos disse ele -, a reencarnao  uma bno.
Jussara esquecer o trauma que passou, recomear, ter um lar cristo e ser
amada.
         -- Minha filha ter outra me! - Queixou-se Tobi.
         -- Por favor, Tobi, quantas mes voc j teve? E quantas ter? O amor
permanece! - Disse, tentando orient-la.
         -- Tem razo! - Concordou Tobi. - Devemos querer o melhor para ela.
         E Jussara reencarnou...
         No existe tempo marcado para ficar desencarnado, depende muito da
necessidade de cada um, mas h um limite, que est sempre variando para os que
tm uma razo forte para faz-lo.
         Jussara teve um choque muito grande ao ver o filhinho, o pai e a me
assassinados de forma violenta na sua frente. E o esquecimento, um recomeo, lhe
era muito importante. Bendita seja essa oportunidade! Bendita seja a reencarnao!
         Com a volta de Jussara ao corpo fsico, falamos muito sobre essa fabulosa
oportunidade que nos  dada por Deus. Um dia, Tobi aproximou-se de mim e
comentou:
         -- Mame, no  bom saber o passado s por curiosidade, mas pode ser
um aprendizado recordar, como tambm para que entendamos que no h
injustia. Tive minhas recordaes de forma espontnea, para me certificar de que
eram verdadeiras, procurei orientao do Departamento de Reencarnao. No me
abalei com elas, errei no passado, mas tenho a certeza de que no erro mais. Na
encarnao anterior, fui uma sinh muito religiosa, poderia ter sido mais caridosa,
mas no fui. O padre que por anos servia nossa cidade dizia que negro no tinha
alma, que no era errado t-los. E os tive como animais, ainda bem que no usei
maldade para com eles, mas no os tratei com benevolncia como havia planejado.
Era casada com um homem mais jovem que eu, vivemos bem at que envelheci e
ele se apaixonou por outra, que no queria ser amante, mas esposa. Queria ficar
vivo para casar-se com ela, mas eu tinha boa sade e tudo indicava que no ia
morrer to cedo. Ele era religioso tambm, tanto quanto eu, conversava muito com
esse sacerdote, os dois tinham instruo, meu esposo havia estudado em Portugal.
E, para ficar com sua amada, ele me matou, me asfixiou com um cobertor. Para
todos tive um ataque qualquer. Fiquei perturbada, vagando pelo meu ex-lar, vendo-
o feliz casado com a outra. Chorava de tristeza, a morte do meu corpo me deixou
angustiada, no fui para o inferno e nem para o cu e no queria ficar ali vendo a
felicidade deles. Um dia resolvi orar e pedir ajuda a Nossa Senhora e vi minha me,
desencarnada havia tempo, ao meu lado, ela me explicou o que havia acontecido e
me levou para um socorro. Anos depois, meu esposo desencarnou, me apiedei dele
e fui ajud-lo. Ele se espantou ao me ver e indagou: "Voc tem alma?" No  que
ele me assassinou pensando que eu no tinha alma? Acatou as idias do padre. Ele
sofreu e, aps um tempo que foi socorrido, nos foi dada a oportunidade de
reencarnarmos juntos. Meu ex-esposo foi Dito, que nessa existncia me foi fiel,
bom, muito me amou e desencarnou tentando me defender. Resgatamos nossos
erros e, o mais importante, aprendemos muito. Tanto que quero ser negra
novamente, no haver mais escravido, mas h ainda o preconceito, o racismo,
creio que ainda tenho muito que aprender e fazer. Quero me preparar para
reencarnar e ser til, ajudando a tantas vtimas do preconceito.
        -- E esse sacerdote? - Indaguei, sentido certo temor.
        -- Creio que aprendeu tambm. Esse esprito muito me ajudou e agora
eu o amo.
        Vi cenas do passado, a sinh que Tobi foi e seu esposo. Chorei.
        -- Tobi, perdoe-me... - Pedi.
        -- H tempo sei disso. Perdo, nunca a julguei culpada e acho que no
deve sentir tanta culpa. A senhora foi uma me maravilhosa e eu a amo muito, no
esqueo o que fez por mim, no esquecemos. Dito lhe quer como me, ele tambm
sabe disso, preferimos nos lembrar da senhora pelo bem que nos fez. Mame, no 
fantstico a bondade de Deus nos permitindo expiar nossos erros, e mais, repar-
los?
        -- Repar-los... - Balbuciei.
        -- Sim, quero reencarnar e trabalhar pelos abandonados na Terra. Quero
construir, fazer algo til onde abusei por imprudncia. Dito e eu planejamos estar
juntos, tenho a certeza de que conseguiremos. Queremos ser servos teis!
        Abraamo-nos com carinho.
        Somos livres aqui no plano espiritual para escolher nosso vesturio. Depois
disso, passei a me trajar como fazia quando era escrava, saia comprida e escura,
blusa de manga longa de algodo cru e um leno na cabea.
        -- Por que isso, mame? - Indagou Manu.
        -- Para no esquecer, filho, que fui escrava, para no esquecer as lies
que tive nessa encarnao.
        E passei a ser mais dedicada, lembrando que muito me foi perdoado e
muito teria que amar. E tentava ver em cada necessitado um filho, porque creio que
no existe amor maior que o paternal ou maternal. Talvez seja por isso que muitos
chamam a Divindade de Pai ou Me. E tudo o que almejamos e no deixamos para
depois, conseguimos realizar.


                                            10


        NA FAZENDA


        Acompanhava com carinho os acontecimentos na fazenda. Jacinta, minha
me adotiva, estava velha, ficou esclerosada, achava s vezes que era jovem, com os
filhos crianas. Sua mente a fazia nos ver como infantes e ao seu lado. Falava
sozinha, andava com dificuldade, mas estava sempre sorrindo.
           A senzala havia muito estava desativada, l ficou deteriorando. Sinh
Frano mandou construir uma casa maior com vrios quartos e nela acomodou os
velhos da fazenda, principalmente os que no tinham companheiros. Eles viviam
bem nessa casa, onde cozinhavam e um cuidava do outro. E vieram at outros
idosos da regio e a bondosa sinh os abrigou. Eram muitos, se davam bem, mas
eram quase todos doentes, doenas da velhice. E minha Jacinta vivia ali, no dava
trabalho, ajudava nos servios da casa lavando os utenslios da cozinha. Mas, como
os garotos da fazenda diziam, ela era caduca. Ela ia muito para a antiga senzala, l
se sentava num canto e se lembrava de fatos ocorridos ali, tinha saudade de seus
entes queridos que haviam partido, desencarnado. E orava muito, embora com
enfermidade que lhe afetava a memria, no se esqueceu das preces e as fazia
sempre.
           Estvamos sempre, seus dois filhos, seu companheiro, Anastcio, e eu, ao
seu lado e s vezes ela nos sentia, se alegrava e nos contava fatos e acontecimentos
antigos.
           Um dia, Anastcio e eu ficamos conversando e ele me falou:
           -- Jacinta logo vir ter conosco, temos nossa casinha preparada para ela.
Essa encarnao lhe foi de grande proveito. Ela, no plano espiritual, antes de
reencarnar, querendo progredir, aprender a ser til, achou que estava pronta para
fazer sua oferta de gratido aos ps do Criador como aquela pessoa da parbola do
Evangelho. Foi ento que ela se lembrou de seu passado distante em que
contribuiu para que seu pas tivesse escravos. Achou ento que deveria ir primeiro
se reconciliar com seu prximo, com aqueles que mais prejudicara. Foi a nossa
procura e nos encontrou, eu e mais dois.
           "Nessa ocasio ns trs nos preparvamos para ser escravos para expiar
erros cometidos. Conversamos, no tnhamos nada para perdo-la, j o havamos
feito. Mas ela quis ento nos ajudar.
           "Lembro bem que eu disse a ela: '"Por que reencarnar escrava? No deve
se sentir em dvida para conosco.
           "E Jacinta respondeu:
           '"Engana-se, no me sinto em dbito com ningum a no ser comigo
mesma. Tenho muito que aprender, mas no quero deixar de aproveitar a
oportunidade de tentar ajudar, estar junto nos momentos difceis daqueles que
prejudiquei. Depois, tenho a certeza de que muito irei aprender nessa encarnao.
Porque  a vida que nos ensina e a Terra  uma grande escola. E creio que  essa a
oferta que devo fazer, de estar perto, ajudar nossos irmos. Alm disso, meu caro,
sou ainda muito imperfeita, em encarnaes passadas me suicidei porque temi a
velhice, nessa planejo desencarnar bem idosa, doente, quero provar a mim mesma
que aprendi a dar valor ao corpo fsico, mesmo ele estando debilitado e fraco.'
           "E como vemos, Cabocla, Jacinta conseguiu realizar o que planejou. Muito
me ajudou e aos outros dois, que so nossos filhos. E somos muito gratos a essa
mulher, a esse esprito."
           -- Se voc sabe dela, deve tambm conhecer seu passado. O porqu de
ter sido escravo - falei.
           -- Sei - respondeu ele. - S quero fazer uma ressalva:  que ser ou ter
sido escravo no foi para mim ruim. Se entendemos que a encarnao nos  um
precioso aprendizado, fazendo o que nos compete tudo ficar mais fcil. Ao
negligenciar, no fazer a lio ou no realiz-la como deveramos, deixamos de
aprender e esse aprendizado nos far falta. Sempre me lembro de um ensinamento
de meu genitor.
           Quando pequeno, meu pai nos chamou, meus cinco irmos e eu, assim que
viemos para essa fazenda.
           " 'Filhos - disse ele -, aqui h um riacho de guas muito frias e, para
atravess-lo precisamos passar por uma pinguela'. (tronco de rvore que vai de uma
margem a outra)
           "Hoje j no existe, fizeram uma ponte no lugar.
           '"Vocs - continuou ele pacientemente - tm que ser cautelosos e passar
assim...
         "Ensinou-nos como fazia, porque do outro lado havia muitas rvores
frutferas e poderamos comer  vontade, era um lugar muito bonito. No prestei
ateno s explicaes e nem quis atravess-la com meu pai para aprender.  no
aprendi...
         "Numa tarde a meninada se reuniu para ir ao tal campo. Passaram todos
pela pinguela porque sabiam, eu fiquei para trs, inseguro, como se pudesse adiar a
travessia. Mas achei que conseguiria, que seria capaz, fui atravessar e ca na gua
gelada. A garotada riu de ver o meu tombo. Tive que voltar, tremendo de frio. Meu
pai, ao saber, falou, tentando me orientar:
         '"Voc no quis aprender quando fui lhes ensinar, se no aproveitamos a
oportunidade de aprender, sofremos as conseqncias da negligncia ao
precisarmos desse conhecimento. Voc agora estaria com a meninada brincando e
desfrutando de saborosos frutos, mas em vez disso est aqui, triste, pensando no
que perdeu, e ainda passou ridculo e frio. Foi castigo? No, menino, ningum o
castigou. Isso aconteceu porque no aprendeu...
         "Assim  a vida, Cabocla, uma maravilhosa escola em que podemos
aprender a viver, e para ter felicidade  s ficar atento e no negligenciar. E fui feliz
como escravo. Fui sim! Na fazenda vivi nos tempos bons, quando o sinh
Honorato veio para c, eu j havia desencarnado. Fui um menino alegre, sempre
gostei de trabalhar, nunca invejei os que tinham ou julgavam ter vida melhor.
Porque, filha, a inveja  uma das grandes causas que levam muitos a sofrer, querer
ser o que no podem, causa muita angstia. Fiz muitos amigos, fui um
companheiro para o sinh Floriano e nos dvamos bem. Sempre gostei de animais,
cuidava deles com carinho e me colocaram para trabalhar no trato dos cavalos da
fazenda. Depois tive como companheira Jacinta. Tive sade e o que mais poderia
pedir? Liberdade? Pois pode crer, Cabocla, que somos mais escravos de ns
mesmos, dos desejos, dos vcios. E sempre me senti livre e feliz. Mas acho que no
respondi a sua pergunta. Estou falando demais, filha?"
         -- No, senhor, gosto de escut-lo, continue, por favor - pedi.
        -- Achei que, como escravo, teria uma encarnao de expiao. Havia, na
minha outra existncia, trabalhado num mercado que vendia negros. Quando
desencarnei, me arrependi muito e o remorso doa demais. Resolvi ser negro e
escravo para aprender a no colaborar de forma alguma com a represso aos
outros. Foi permitido e reencarnei. Mas, filha, no sofri, talvez porque aceitei o que
a vida me ofereceu e tratei de fazer as lies direitinho e, quando precisei, soube
resolver as dificuldades que tive. Fui bom filho, tive bons pais, fui amigo e tive
amizades. Tentei ser timo esposo e a vida me deu esse anjo da Jacinta por
companheira, fui pai e meus filhos so gratos e amorosos. Como escravo, fui
trabalhador e por isso recebi regalias. No desejei nada e tive tudo de que
necessitei. Foi uma encarnao proveitosa, em que dei largos passos no caminho do
progresso.
        Concordei com Anastcio, realmente sempre que me lembrava dele o via
sorrindo, gentil e tentando ajudar algum. Ele achava todas as pessoas boas ou
conseguia ver a parte boa de todos. Foi realmente bom pai, filho, amigo, mas teve
afetos que no foram, como ele dizia, bons. Mas, para o esposo de Jacinta, ningum
lhe fez nada de mal, talvez porque ele no se ofendesse com nada. Ele aprendeu a
amar e nada mais certo do que os dizeres: "Aquele que ama no precisa perdoar,
porque tudo compreende e no se ofende, e nem pedir perdo, porque vive de tal
forma que no prejudica ningum".
        Era sempre prazeroso conversar com Anastcio, me despedi dele com um
carinhoso abrao.
        Jacinta ficou acamada, aps uma gripe forte teve pneumonia, soubemos
que ia desencarnar e fomos at ela querendo ajud-la, confort-la. Estvamos em
oito, familiares e amigos, e a rodeamos lhe transmitindo bons fluidos e equilbrio.
Minha me adotiva estava tranqila, parou de respirar e seu desligamento foi
rpido. Anastcio e seus filhos a levaram para a colnia, para o lar que lhe haviam
h tanto tempo preparado, e certamente agora a teriam como rainha da casa. Seu
corpo foi enterrado na fazenda. Todos sentiram seu desencarne, ali eram todos
como uma grande famlia.
        Jacinta recuperou-se rpido. Estando sadia espiritualmente, o perisprito
tambm o , e as enfermidades terminam com a morte do corpo fsico. Remoou,
sentindo-se bem, queria trabalhar e agradar a todos. Ia todos os dias visit-la,
        conversvamos.
        -- Jussara - dizia ela com carinho -, me preocupei tanto quando fugiu
sem me dizer nada...
        -- Desculpe-me, mas no quis correr o risco de prejudic-la. Temi que,
se desconfiassem, pudessem castig-la.
        Mas nesse tempo todo fui visit-la, no a esqueci.
        E logo voltou  atividade.
        -- Como Deus  bom nos dando servio, trabalho.
        Temia que por aqui tivesse que descansar. J chega o tempo em que fiquei
sem fazer nada enquanto estive doente.
        E, quando lhe foi possvel, foi trabalhar ajudando os encarnados. A preta
velha, querida de todos que a conhecem...
        Sinh Narciso e sinh Frano j estavam velhos, eles viviam de forma
simples, havia muito que nem roupas novas compravam. Tudo o que conseguiam
arrecadar com a fazenda era para se manter e tudo era repartido. Ele administrava
os negcios e ela, os moradores. Assim a sinh se referia aos negros que l viviam:
moradores e amigos. A casa que abrigava os velhinhos tinha tudo de que eles
precisavam e muitos idosos da regio, que no conseguiam mais trabalhar, iam para
l e eram bem recebidos por Frano. Alguns velhos tinham sido enxotados,
outros, sentindo-se abandonados, l iam em busca de companhia e carinho. Todos
lhe eram gratos e a amavam.
        Sinh Narciso tinha uma grande preocupao, de morrer primeiro que a
esposa. Tinha receio de que seus parentes ocupassem a fazenda ou que
descobrissem o segredo deles. Orava muito pedindo a Deus que a levasse antes
dele. Os dois havia tempo viviam como irmos, numa amizade carinhosa.
        -- Narciso - dizia sempre a sinhazinha -, peo sempre perdo a Deus por
ter errado tanto. No  certo viver como vivemos. Deus fez o homem para a
mulher e esta para o homem.
        Ele suspirava, concordando.
        Como o sentimento de gratido age em nosso favor! A gratido, quase
tanto quanto o amor, faz a pessoa grata enviar ao benfeitor os mais puros fluidos,
que envolvem tanto o grato como a pessoa que beneficiou, modificando ambos,
fazendo o amor puro florescer e dar frutos.
        E no eram s os encarnados que lhes eram gratos, ns, os desencarnados,
tambm, e estvamos atentos para auxili-los no que nos fosse possvel. Reunimo-
nos e fomos ao Departamento de Auxlio pedir por eles, que, se fosse possvel,
realizassem os rogos de Narciso. Orvamos sempre por eles.
        Sinh Frano adoeceu, ficou acamada e s o sinh e uma negra cuidavam
dela. Assim mesmo, s ele a banhava e lhe fazia a barba todos os dias. Ficou
enferma quase dois meses. Numa manh, ela desencarnou tranqila. Seu quarto se
encheu de desencarnados amigos, eram muitos os ex-escravos que vieram lhe dar
boas-vindas e lev-la para um socorro.
        Sinh Narciso chorou sentido, mas estava grato, Deus o havia atendido e
no tinha mais nada para pedir.
        Tudo na fazenda continuou como era, o sinh ficou morando, agora
sozinho, na casa-grande, mas no se sentia s, todos ali lhe devotavam amizade e
carinho. J pensando em sua morte e querendo deixar seus amigos protegidos, deu
carta de alforria a todos os que ainda no eram livres, porque j tinham sido
outorgadas as leis que antecederam a Lei urea.
        As leis que libertaram os escravos no Brasil foram: Lei Eusbio de
Queiroz, promulgada em 1850, oficialmente colocava fim no trfico de escravos da
frica para nossa ptria. Lei do Ventre Livre, de 1871, todos os negros nascidos em
terras brasileiras seriam livres. Lei dos Sexagenrios, de 1885, dando liberdade aos
idosos negros com idade superior a sessenta anos.
        Essas leis foram pouco obedecidas. O trfico continuou enriquecendo os
traficantes e deixando os escravos mais caros. Os nascidos livres continuavam nas
senzalas, para serem alimentados e terem onde ficar, pois no tinham como
sobreviver. Tinham que trabalhar e viviam como escravos. Depois de adultos quase
sempre no tinham para onde ir e ficavam trabalhando para seus ex-senhores,
sendo tratados como cativos, pouqussimos contratavam negros como empregados.
A lei que libertava os idosos tambm pouco adiantou, raros negros ultrapassavam
essa idade, depois no tinham para onde ir e nem coragem para deixar a famlia.
Muitos continuavam trabalhando, foram poucos os donos que os aposentavam. 
por isso que tnhamos, temos, gratido para com aqueles que foram sinh Narciso
e sinh Frano. Houve muitos abolicionistas, pessoas inconformadas com a
escravido,mas tambm muitos queriam a libertao desses por questes
econmicas e polticas.
        E, finalmente, a bendita Lei urea, assinada pela princesa Isabel em 13 de
maio de 1888, libertando todos os escravos. Com a libertao teve incio a
imigrao de brancos europeus e os empregadores preferiram dar emprego aos
imigrantes, deixando mais uma vez os negros desprotegidos, sem auxlio. E muitos
saram da senzala para lugares to ou mais ruins, passando privaes e sofrendo
com o racismo. Mas houve muitos que continuaram vivendo com seus ex-senhores
como empregados.
        Narciso fez um testamento deixando a fazenda para um sobrinho em quem
confiava, que lhe havia prometido deixar a propriedade como era e que no
mandaria os negros idosos embora.
        Trs anos aps a sinh Frano ter desencarnado, Narciso amanheceu no
se sentido bem, mas mesmo assim foi a cavalo ver uma plantao, teve um mal-
estar, caiu do animal, os negros que estavam com ele se assustaram, tentaram ajud-
lo, mas no sabiam o que fazer. Com cuidado o levaram de volta  casa-grande,
mas no meio do caminho ele desencarnou. E foram muitos os ex-escravos que
vieram socorr-lo, juntamente com a sua me, e foi levado para a colnia.
        Os negros da fazenda choraram a perda, o sinh Narciso era um pai,
algum que cuidava deles. Choravam tambm por medo: que seria agora deles sem
o sinh? Enterraram-no junto da sinh.
        O sobrinho que herdou a fazenda cumpriu o que prometera, deixou-a para
os negros cuidarem, quase no ia l e esta, por falta de administrao, foi se
acabando, ficando em runas. Com a libertao de todos os escravos, os negros
foram indo embora. Com a morte desse dono, sobrinho do sinh Narciso, os
filhos, herdeiros dele, a venderam e depois ela foi reconstruda. A vida continua...
        Frano, no plano espiritual, sentiu-se envergonhada e um orientador a
ajudou a retornar  aparncia de sua outra encarnao, em que era mulher,
Georgette. Tambm passou por uma orientao especfica que a equilibrou.
Sentindo-se bem, passou a trabalhar, servindo com amor na colnia.
        Sinh Narciso tambm, ao desencarnar, foi para a colnia e logo estava
bem, ficou morando com sua me, queria estudar e, assim que lhe foi possvel, foi
para uma colnia de estudo.
        Os dois no ficaram juntos, cada um morava em um lugar, numa casa, mas
encontravam-se sempre, conversando muito.
        Um dia, ao visitar Frano, ela me disse:
        -- Antes de reencarnar, quis mudar de sexo, mas o fiz sem um preparo,
sem querer realmente, voltei ao plano fsico num corpo masculino, mas me senti
sempre feminina porque gosto de ser mulher. Na prxima reencarnao voltarei
num corpo feminino e Narciso ser homem novamente. Ns dois temos muito que
aprender...
        -- Todos ns temos - respondi. - Tudo dar certo, vocs tm muitos
amigos para ajud-los.
        -- Sou grata a todos. Como  importante fazer, conservar amigos.
Sempre h entre eles algum que pode nos ajudar.
        -- A colheita no  s m, ruim - respondi. - Existe a boa. E como pode
ser farta a reao de nossos bons atos!
        Recebemos ajuda conforme ajudamos.
        -- Cabocla, tenho tentado entender os sentimentos do ser humano. O
que leva tantos a agir como Narciso e eu.  certamente por diversos motivos.
Muitos querem tanto reencarnar que no se importam em mudar de sexo, mas na
matria sentem-se diferentes sexualmente do corpo de que revestem, no
conseguem um acomodamento psicolgico.
        Sentem-se mulheres no corpo de homens e vice-versa. Isso no acontece
quando um esprito consciente muda de sexo, . principalmente se  para fazer
alguma coisa que lhe  importante, para ajudar algum ou provar algo a si mesmo.
O esprito no tem sexo, mas, quando vivemos com o perisprito, nos sentimos
ainda femininos ou masculinos at ultrapassarmos esse sentimento.
        --  verdade - interrompi-a. - Desencarnei h tempo e me sinto mulher.
        -- Certamente, se voc quiser reencarnar no sexo masculino, ter que se
preparar e se sentir apta para essa mudana. No agi como planejei nessa minha
ltima encarnao, por isso me arrependi e quero acertar.
        --  isso o que importa! - Exclamei.
        Depois de um tempo, reencarnaram Narciso e Frano numa mesma
cidade, seus pais eram amigos. Ela, uma linda menina, ele, um forte garoto.
Planejaram se encontrar, casar e ter filhos, como tambm trabalhar no campo da
cincia, ajudar encarnados com problemas sexuais. Voltaram  matria confiantes,
principalmente porque muitos amigos daqui, do plano espiritual, estariam atentos
para ajud-los no que fosse necessrio e possvel.
        E como  prazeroso retornar ao plano espiritual com a tarefa realizada,
sente-se uma felicidade indescritvel. E essa vitria deveria ser mais comentada,
porque os bons tm tudo para sobressair s maldades. Os exemplos edificantes
devem ser mostrados para que orientem e eduquem outros, para que todos juntos
caminhem rumo ao progresso, porque a Terra ser morada dos mansos e pacficos,
como Jesus nos ensinou no Sermo da Montanha.




                                             11

        MEU PASSADO COM JOS

        Visitava sempre Jos, a paixo de minha adolescncia, o nico amor de
minha vida. Ele, por toda a sua ltima existncia encarnado, foi bondoso, lder,
conselheiro, apazigua-dor, cuidou com extremo carinho de sua companheira, de
sua esposa, que era ranzinza, geniosa e revoltada. Ela ficou doente, ele se
desdobrou em cuidados e ateno. Ficou vivo e no arrumou mais companheira.
Viveu para ajudar os outros, foi pai dedicado e amoroso.
        Quando o sinh Narciso o aposentou, no querendo ficar  toa, passou a
fazer remdios de ervas e a benzer. Aprendeu com uma escrava velha que morava
em outra fazenda. E passou a ser o Pai Jos, o pai de todos.
        Era respeitado, amado e viveu muitos anos. Desencarnou tranqilamente
quando estava sentado num banquinho na frente da antiga senzala. Ele gostava
muito de ir l orar e recordar o passado.
        Foi recebido no plano espiritual com festas de boas-vindas.
        Logo depois que recordei minha penltima encarnao, lembrei-me
tambm de muitas outras existncias. E vim a saber o porqu de meu amor por
Jos.
        Estava encarnada em Portugal, era filha de um comerciante de uma cidade
pequena. Jos morava perto, nossos pais eram amigos, ele me amava desde menino.
Eu o tinha como amigo, estvamos sempre conversando. Mocinha, me apaixonei
perdidamente por Afonso, um moo bonito que estava sempre bem vestido, que
havia estudado, filho de um senhor que tinha uma vinha, mas ele nem me olhava.
Confiava em Jos e contava a ele tudo o que acontecia comigo e lhe falei do meu
amor, ele ficou triste. Jos era calmo, amigo e muito trabalhador, tinha uma
pequena chcara e dela tirava o seu sustento. Ambos sabamos que o amor que
sentamos era impossvel, mas nenhum de ns dois perdia a esperana de
conquistar a pessoa amada.
        Havia um bosque muito bonito perto da cidade. Descobri que Afonso ia
sempre l a passeio ou para caar. Fiz amizade com uma servial da casa dele e
fiquei sabendo o horrio em que ele ia ao bosque. No era difcil eu sair de casa,
principalmente  tarde, porque minha me ajudava meu pai e eu ficava sozinha.
        Comecei a ir ao bosque escondida de todos, na esperana de encontr-lo,
insisti e acabei encontrando-o. Puxei conversa, Afonso pareceu estranhar, tudo fiz
para agrad-lo e comeamos a nos encontrar em dias e horas marcadas, sempre
escondidos. No tinha coragem de contar a ningum, nem a Jos, em quem
confiava. Sabia que estava agindo errado, s vezes me preocupava e temia as
conseqncias, mas minha paixo por ele me deixava cega. Como  ruim se deixar
cegar por esse sentimento forte, tornar-se escrava dele. Sentia-me inquieta, no
dormia direito, mas tudo fazia, me esforava para parecer natural.
        J fazia dois meses que nos encontrvamos. Numa tarde bonita, criei
coragem, confessei meu amor por ele e tornamo-nos amantes.
        Mas minha felicidade durou pouco. Um dia, quando fazia compras no
mercado, escutei a terrvel notcia:
        "Afonso, o filho do senhor da vinha, vai se casar."
        Como tambm tive a confirmao de que estava grvida. Desesperei-me.
Fui  tarde ao encontro dele no bosque, ele no foi. Soube  noite pela empregada
dele, minha amiga, que Afonso teve que partir, estava sendo obrigado pelo pai a se
casar. Tinha viajado, iria passar uma temporada na casa da futura noiva at o
casamento.
           "Nem se despediu de mim, nem sabe que ir ter um filho..." - Pensava,
sentida.
           No sabia o que fazer. No dia seguinte, fui no horrio de costume ao
bosque. L fiquei pensando, queria achar uma soluo, mas no sabia como
resolver meu grave problema. Quando Jos aproximou-se de mim, me assustei.
Depois entendi que ele sabia dos meus encontros. Apaixonados sempre sabem de
seu amor.
           Abracei-o, querendo proteo, ele me disse: "Sei que Afonso foi embora.
Casar com outra!" "Estou s e abandonada, no sei o que fazer" - queixei-me.
           Naquela poca no era fcil ser me solteira. Meu pais eram muito
conservadores e rgidos, sabia que no iam aceitar minha situao. Seria expulsa de
casa, jogada na rua, como muitos diziam. O preconceito era grande e uma mulher
que se entregava a um homem sem ser casada era marcada por toda sua vida.
           "Fique comigo!" - Pediu ele. "Voc me quer?" - Indaguei baixinho. "Amo
voc" - disse ele com sinceridade. "Agradeo-o! Jos, estou grvida! Voc  bom, eu
lhe quero bem, admiro-o e no quero engan-lo. Espero um filho de Afonso, no
tive tempo de contar a ele, o pai o obrigou a partir e eu no sei o que fazer."
           Jos abaixou a cabea. Ficamos em silncio uns minutos, depois ele me
olhou e falou:
           "Sabe o que acontecer com voc? Ser expulsa de casa, ningum por aqui
lhe dar abrigo. Voc ir sofrer!" "Sei disso - respondi - e estou com medo..." "Se
quiser, caso com voc e esse filho ser meu."
           Olhei para ele e o abracei novamente, a chorei de soluar.
           "Jos, meu bom e maravilhoso Jos, voc far isso por mim? Vai me ajudar
dessa maneira?"
           "Amo voc! No iria agentar v-la pelas ruas ou no * meretrcio. Se voc
sofre, sofro tambm. Ningum precisa saber que o filho que espera  de Afonso.
Ser nosso! Todos na cidade sabem que eu a amo, no ser surpresa se dissermos
que resolvemos nos unir. E vamos casar logo, dentro de duas semanas, e sua
gravidez no levantar suspeita. Para todos ser meu filho e eu serei o pai dele,
sendo seu, ser nosso."
        No tinha como recusar e aceitei, agradecida. Ningum estranhou a notcia,
nossos pais ficaram contentes, s minha me pediu para namor-lo mais tempo.
        "Talvez voc no o ame o bastante" - disse ela preocupada.
        "Mame - respondi -, Jos sempre me amou, agora que tenho a certeza de
am-lo  melhor nos casarmos. No se preocupe, seremos felizes".
        Me quase sempre sente o que acontece de fato conosco, mas ela no
insistiu. Os dias passaram rpido com os preparativos e, como havamos
combinado, duas semanas depois nos casamos numa cerimnia simples. Senti-me
aliviada e Jos estava felicssimo. Fomos morar na casa que ele j h tempo havia
preparado.
        Agradecida a Jos, tudo fiz para ser uma boa esposa, e ele sempre foi
carinhoso e atencioso. Vivamos tranqilos, nasceu nosso primeiro filho e dissemos
a todos o que havamos combinado, que nasceu antes do tempo. Se algum
desconfiou, achou que foi um arroubo nosso e ningum duvidou de que Jos era o
pai. Tivemos mais dois filhos.
        Mas por que sempre tem que haver um porm? O pai de Afonso
desencarnou e ele voltou para organizar e receber a vinha de herana. Veio s,
deixou a esposa em sua residncia. Ao rev-lo meu corao disparou, ele me olhou
insistentemente e vi carinho em seu olhar. Passou perto de minha casa dias
seguidos.
         Fiquei a pensar, ansiosa: "Ser que ele ainda me quer? Ser que eu o amo?"
        Ele continuava muito bonito. No quis pensar nas conseqncias, na
gratido que deveria ter por Jos, na vida tranqila, honesta que tinha, s pensava
nele e, inconseqente, fui escondida ao bosque onde anos atrs nos encontrvamos.
Numa rvore, que falvamos que era nossa, encontrei um bilhete. Abri, aflita, era
dele, pedia que fosse encontr-lo. Tinha dia e hora marcados. O encontro era para
o dia seguinte. Voltei para casa ofegante, louca de vontade de ir, mas com medo.
No queria magoar Jos, mas queria ver, conversar com Afonso. A paixo
novamente me cegou.
          Acabei indo e nos beijamos assim que nos encontramos. Tornamo-nos
amantes. Combinamos novos encontros, dizia a mim mesma que no ia, mas
acabava indo.
          Mudei, fiquei nervosa, inquieta, gritava com as crianas. Para ningum
desconfiar, deixava meus filhos sozinhos, tentava engan-los para sair. s vezes os
ameaava para eles no dizerem ao pai que estava me ausentando de casa.
          Descobri que estava grvida. Contei a Afonso e dele escutei:
          "Por favor, no me cobre nada! Sou casado, tenho filhos e devo retornar
ao meu lar assim que resolver meus negcios. No voltarei mais aqui. Nunca irei
largar minha esposa por uma amante. Divertimo-nos apenas. Depois, voc 
casada, como sabe que o filho que espera  meu?"
          Levei um choque ao escut-lo, percebi o quanto agi levianamente e pensei
aflita: "Meu Deus, o que estou fazendo com minha vida?"
          Magoada, decidi no v-lo mais. Tnhamos um encontro para a tarde do
dia seguinte, no fui. Resolvi cuidar de meu lar, ser novamente a esposa, a me que
fora. Foi ento que notei que Jos estava diferente, nervoso e quieto. "Ele sabe!"-
Pensei.
          No outro dia, no se falava noutra coisa na cidade, Afonso, meu amante,
foi encontrado morto. Acharam-no cado num atalho, local que ele percorria para ir
ao meu encontro no bosque. Comentavam que ele caiu do cavalo e bateu a cabea
numa pedra. No foi encontrado outro ferimento em seu corpo. Uns diziam que
podia ter sido ferido por um golpe, mas ele no tinha inimigos e no o roubaram. E
o caso foi dado como acidente, a esposa dele veio para o enterro, o pai dela vendeu
a vinha e foram embora. O fato foi esquecido...
            No senti a morte dele, compreendi que no o amava, mas sim a Jos,
meu esposo. Como tambm entendi que Afonso nunca gostou de mim e que
sempre me teve como uma amante, uma fonte de prazer fcil. Sim, porque eu,
apaixonada, sempre me comportei levianamente. E naquele momento estava mais
preocupada comigo. Egosta, me vi em apuros e tive medo das conseqncias do
meu ato errado.
        Jos estava calado, estranho, quase no me olhava e quando o fazia era
com raiva no olhar. No tendo mais como esconder minha gravidez, falei com ele:
        "De novo? Ser possvel que novamente terei que criar rebento de outro?"
        "Que fala? - Indaguei. - Este filho  nosso!" " seu, voc quer dizer!"
        Saiu e naquela noite no voltou e passou a vir pouco para casa, muitas
vezes no vinha nem para dormir. Descobri que ele arrumou outra mulher e que
dormia na casa dela. Tinha medo de conversar com ele, passamos a falar s o
necessrio. Nesse clima nasceu o outro filho. Tive quatro meninos, todos lindos e
sadios. No perodo de gravidez, no tinha certeza de quem era o pai daquela
criana. O primeiro, que era filho de Afonso, era muito parecido fisicamente
comigo, mas o ltimo sim, era a cpia do meu amante, confirmando quem era o
pai. Creio que isso maltratou ainda mais meu esposo.
        Jos e eu no nos separamos, ele nos sustentava, era bom pai, mas sempre
agradou mais os dois do meio. Evitava-me, passou a dormir em outro quarto e
nunca mais me tocou. Arrependi-me amargamente do que fiz. Compreendi o tanto
que era feliz, fui uma imprudente e s dei valor  felicidade que tinha quando a
perdi. Tentei at reconquist-lo, mas ele me repelia com raiva. Culpava-me. Sempre
desconfiei de que Jos matou Afonso, nunca comentei nada, temia. Nossos filhos
cresceram, casaram e a amante dele desencarnou. No arrumou outra, passou a
ficar mais em casa, continuou evitando-me. Fiquei doente, cncer no pulmo, as
noras vinham cuidar de mim, ele no deixou me faltar nada, mas nem entrava no
meu quarto. Um dia o chamei:
        "Jos, me perdoe!" - Pedi.
        Ele abaixou a cabea, aps um prolongado silncio, respondeu:
        "No posso, no agora, talvez no futuro..." Desencarnei e ele foi morar
com um dos nossos filhos, que ele tinha a certeza de ser dele, e tempo depois
tambm ficou doente e desencarnou.
        Foi aps eu ter desencarnado que descobri a verdade. Jos desconfiou que
eu estava me encontrando com Afonso e foi nos surpreender, s que eu no havia
ido e ele encontrou com meu amante. Os dois discutiram, Afonso o ofendeu e lhe
apontou uma arma, lutaram e meu esposo o atingiu na cabea com um pedao de
pau. Desesperou-se ao v-lo morto, colocou-o em seu cavalo, foi puxando o animal
at o local das pedras e derrubou-o. Voltou rpido para a cidade e aguardou os
acontecimentos. E ficou para todos parecendo : que Afonso caiu do cavalo.
        Jos, porm, no teve sossego, arrependeu-se muito por ter matado uma
pessoa mesmo em legtima defesa, sinceramente ele no o queria ter assassinado.
Ele foi ao bosque para nos surpreender, embora em seu ntimo achasse que eu no
seria capaz de tra-lo, no depois do que ele me havia feito. Para meu esposo eu era
a culpada, muito mais errada que Afonso, e me desprezou profundamente. Poderia
ter falado a todos o que aconteceu, um marido trado no ia para a priso quando
matava. Se quisesse poderia at ter me assassinado tambm, mas preferiu ficar
calado, a ningum falou desse triste acontecimento, nem do acidente, nem da
minha traio. Isso pelos nossos filhos, porque naquele tempo no era fcil ter uma
me adltera, ficariam marcados, e tambm se apiedou de mim novamente, porque
sabia que seria desprezada por todos. Jos, j naquela poca, no era capaz de fazer
maldades. Compreendi tarde demais a pessoa maravilhosa que era, um amigo em
que sempre poderia confiar.
        Sofremos muito, os dois, ao desencarnar. Depois de algum tempo fomos
socorridos e um orientador promoveu nosso encontro, conversamos e novamente
lhe pedi perdo: "Perdoe-me, Jos, eu te amo!" "Perdo" - respondeu
simplesmente.       "Quero reparar meu erro junto de voc."
         "No precisa- disse ele. -Desculpe-me, mas no quero estar junto de voc.
No precisa me reparar nada. Viva sua vida e v se aprende a dar valor aos
sentimentos verdadeiros. Quero que seja feliz, mas longe de mim."
         Separamo-nos, mas a vida sempre rene aqueles que tm necessidade de se
reconciliar ou provar que realmente podem viver fraternalmente. E nos
reencontramos na senzala.
         Depois de alguns meses que o escravo Jos desencarnou, fui visit-lo.
Recebeu-me com alegria:
         -- Cabocla, que bom rev-la! Como est voc? O que aconteceu quando
fugiu da fazenda? Nunca soubemos o que realmente se passou.
         Contei a ele nossa fuga e o que fiz nesse tempo em que estava no plano
espiritual.
         -- Voc foi corajosa! - Exclamou ele.
         -- Jos...
         Contei a ele todo nosso passado, escutou-me silencioso, no me
interrompeu nem uma vez. Finalizei dizendo:
         -- Jos, encarnada eu sempre o amei...
         -- Cabocla, sempre fui seu amigo e quero continuar sendo. Percebi seu
amor por mim, s que estava casado, tinha uma companheira e por nenhum
motivo iria deix-la ou tra-la. Depois, no a amei como mulher, sempre a quis
como irm. Por favor, no se sinta devedora para comigo.
         O que passou, passou e j resgatamos nossos erros. J havia recordado essa
encarnao, como tambm j reparei meu erro junto quele que assassinei. Na
minha penltima existncia Afonso foi meu filho e tornamo-nos grandes amigos. E
Zefa, minha esposa nessa, foi, naquela poca, filha dele e, por ter ficado rf, teve
uma vida difcil, em que cometeu muitos erros. Ela ficou sem pai, porque eu
mesmo, sem querer, a deixei sem seu genitor. Ao ficar viva, sua me casou-se
novamente. Ela, garotinha, foi assediada pelo padrasto, na adolescncia foi
estuprada e ameaada para ficar calada. Um dia a me os pegou juntos, o padrasto
defendeu-se dizendo que fora ela que se ofereceu, a me preferiu acreditar no
esposo e ela foi colocada para fora de casa. Tornou-se prostituta, desejou se vingar,
viciou-se no lcool, fez muitos abortos, foi infeliz, desencarnou e sofreu muito.
Cabia a mim ajud-la nesta encarnao, em que teria que passar pela escravido
para aprender a trabalhar e a ser mais dcil. Agora Zefa est reencarnada, 
novamente filha de Afonso, branca e livre. Sofri muito de remorso por ter sido a
causa da desencarnao de Afonso, foi para me defender, mas cometi um erro e
quis reparar at com aqueles que indiretamente, como Zefa, prejudiquei com meu
ato insensato. Sou profundamente grato pela oportunidade de me redimir.
        -- Tudo pela minha leviandade... - Queixei-me.
        -- No deve mais pensar nisso e sim no que ir fazer agora, no presente.
J a julguei culpada, mas agora no, porque foi mais fcil para mim, naquela poca,
colocar a culpa nos outros. No pense mais no passado, todos a perdoaram.
        Jos me olhou com carinho. Aps um intervalo, continuou com seu modo
tranqilo:
        -- Fui pai de muitos de corao, de todos da senzala, da fazenda, dos que
precisavam do meu auxlio. Pai Jos...
        E quero continuar sendo. Voc, Cabocla,  como se fosse minha filha.
        Estendeu a mo, apertei-a com fora, ele sorriu e eu lhe disse emocionada:
        -- Obrigada!
             -- At um dia, menina! - Exclamou ele sorrindo.
        Compreendi os sentimentos dele, Jos no me queria mais como quis no
passado, agora me amava como filha e cabia a mim am-lo como pai. Ele foi
estudar e trabalhar ajudando encarnados, tornou-se o Pai Jos, amado por muitos.
 um esprito que aprendeu a amar a todos como filhos...
        Ele foi muitas vezes branco, na ltima encarnao vestiu um corpo fsico
negro e permaneceu assim. Poderia mudar, mas preferiu continuar com a aparncia
da ltima, em que foi escravo, porque isso lhe  importante. Sabe das inmeras
dificuldades em que a escravido deixou muitos espritos, quer ajudar aqueles que
continuam escravos do rancor, dio e desejo de vingana, porque  o objetivo de
todos os que tentam ajudar os outros a tornar livres a si mesmos e aos irmos.
        Amor. H muitas formas de amar ou uma s? Creio que esse sentimento 
confundido, s vezes, com interesse, paixo ou entusiasmo passageiro. O amor real
 puro, desinteressado, sem egosmo. Podemos amar muitas pessoas exercitando o
amar a todos como a ns mesmos. Sempre tive interesse em conhecer mais um
pouco sobre esse sentimento que  capaz de anular erros e nos impulsionar na
caminhada rumo  felicidade. E tenho estado atenta para aprender a amar.
        Assim que pude, aqui no plano espiritual, quis saber de meus pais. Ser que
amaram realmente um ao outro? Meu pai morreu por amor? Encarnada, pensava
muito neles, senti muito a orfandade. Um orientador me esclareceu:
        -- Seu pai. Cabocla, no desejou desencarnar por amor a sua me. Ele
sentiu muito o desenlace dela, esposa querida, mas foi para ter mais dinheiro que
aceitou fazer um trabalho perigoso. Ele queria ir embora da fazenda, ia residir
numa cidade e levar voc para viver mais confortavelmente. No pensou em
morrer. Hoje os dois esto encarnados, so novamente casados, colonos de uma
grande fazenda e tm muitos filhos.
        Fui visit-los. Estranho. Sim, estranhei, vi pessoas que nada tinham a ver
comigo. Depois compreendi que fui filha deles, mas no estivemos juntos. Viviam
bem. Fiz uma prece desejando a todos daquele lar humilde paz e alegria. Abracei-
os. Retornei  colnia alegre por ter revisto meus pais, que agora eram pais de
outros. Todos ns somos realmente irmos!




                                            12


        TRABALHO DE RECONCILIAO
             No se falava noutra coisa na colnia espiritual em que morvamos.
Espritos que residiam em planos superiores estavam fazendo palestras por todas as
colnias do Brasil, da Terra e at em alguns postos de socorros maiores. Na nossa
colnia os palestrantes iam nos brindar com sua presena no Campo da Paz. E um
recanto encantador, um enorme parque ou jardim, como alguns preferem chamar.
 uma rea arborizada, em que no centro h um local gramado em que seria a
palestra, onde podem se acomodar inmeros convidados. E tudo foi planejado para
que quase todos os moradores da colnia fossem assistir, como tambm os
trabalhadores dos postos de auxlio pertencentes a nossa cidade espiritual. O fato
seria gravado para ficar  disposio de todos, principalmente dos que, por motivo
de trabalho, no poderiam ir a esse evento.
        Como  gostoso preparar algo para um acontecimento que nos 
importante! Todos queriam de alguma forma colaborar. Depois de tudo arrumado,
l fomos ns, ansiosos e alegres, para ouvir a to esperada palestra.
        A hora esperada chegou, os convidados, muito simples, foram  frente,
num tablado, para que pudssemos, todos os presentes, v-los. Eram um senhor e
uma senhora, ambos simpticos e risonhos. Primeiramente falou a senhora, se
apresentando; nos disse que na sua ltima encarnao na Terra chamou-se Yurge.
No sei se  assim que se escreve, mas  como se pronuncia. E o senhor disse
chamar-se Pedro. Agradveis, falaram de modo que todos ali entendessem. Quando
cheguei em casa, escrevi o que eles disseram, mas com minhas palavras, como havia
entendido, e  assim que agora escrevo o que esses dois amigos nos orientaram.
Disseram:
        "A crueldade acarreta grande dano, talvez mais que os outros erros, por ser
algo feito contra o amor. A crueldade intencional, aquela feita com inteno de
prejudicar, a que causa mal a um ser vivo,  a ao que mais deixa marcas em quem
a pratica. Fica no cruel, no perisprito, uma ndoa escura, ftida, que necessita de
tempo, muita purificao para tirar de si essa mancha grudenta. s vezes  com
muitas lgrimas de dor que a lavar ou muito trabalho edificante em que a gratido
de outros far soltar essa 'pasta'. Como h tambm a crueldade por costume,
superstio, por achar que todos fazem. Embora mais branda, causa muito mal a
quem a recebe e a quem a faz.
        "No nosso querido planeta que temos por lar, comete-se muita maldade.
Vrias vezes, em nome de Deus, de religies, por problemas polticos e sociais,
irmos so mortos com crueldade, so torturados. Todos aqueles que querem
progredir, trabalhar para o bem, certamente tm plena conscincia de no fazer mal
a ningum, nem aos animais e nem a nenhum ser vivo. Como tambm tm que
alertar os outros para que no o faam e, sempre que nos cabe, evitar que se
pratique uma maldade. Devemos no s refrear o mal como tambm ser ativos no
bem.  sobre isso que estamos a alert-los. As conseqncias da crueldade so
inmeras, a vtima pode receb-la de muitos modos, se no perdoar gera obsesses
que fazem um esprito parar no tempo, no caminho.
        "Em guerras, lutas, se praticam muitas crueldades. Por motivos polticos
fazem-se atrocidades que julgamos que no seriam possveis de serem praticadas.
Religiosos esquecem que Deus  pai de todos, e que, se Ele no se importa pelas
muitas formas que se usam para ador-lo, por que importaria a ns, seus filhos?
        "Na nossa ptria, o Brasil, houve escravido por motivos sociais,
econmicos, costume, porque era permitido por lei. Mas no h desculpas! E como
houve abusos nesse perodo! E ' muitos sofrem por ter cometido atrocidades e as
conseqncias sofridas deixaram marcas, como tambm sofrem os que no
perdoaram, ambos necessitam se equilibrar nas Leis Divinas. "Aqui estamos para
convidar todos a contribuir de alguma forma na recuperao de espritos
envolvidos em tramas que ocorreram na poca da escravido."
        A motivao oferecida por esses dois amigos  grande, porque s se vive
bem se o maior nmero de pessoas tambm o fizer. Quanto maior o desequilbrio,
maior a desarmonia que atinge a todos.
        E foram convocados os que haviam participado diretamente, de alguma
forma, da escravido, e os que se sentiam aptos a trabalhar nessa tarefa.
        A maior parte deveria reencarnar, porque  na matria que somos
agraciados com o esquecimento, que se tem a grande oportunidade de recomear.
        Reunimo-nos muitas vezes na colnia para fazer planos, acertar detalhes.
Meu grupo familiar correspondia bem  expectativa, havamos sido escravos,
perdoado e estvamos ansiosos para ajudar a outros.
        Foram muitos na nossa ptria que aceitaram a tarefa, o Trabalho de
Reconciliao, como foi chamada essa tentativa de fazer irmos se perdoarem,
tornarem-se amigos. E, com tudo planejado, os que aceitaram a incumbncia foram
reencamando. Meus entes queridos tambm voltaram ao plano fsico numa mesma
regio, s eu fiquei, cabia a mim motiv-los, ajud-los e tentar encaminh-los ao
Espiritismo para que a tarefa deles fosse facilitada, pois teriam mais com preenso
da vida por meio dessa Doutrina fraterna que nos
        ensina a praticar a caridade em sua forma mais verdadeira.
        E como esse entendimento nos ajuda!
        Estariam juntos de ex-senhores, ex-feitores e ex-escravos para que, com
ajuda e compreenso, se tornassem amigos, afetos, companheiros de jornada.
        Claro que tinham e ainda tm dificuldades, mas esto se saindo bem.
Consegui que todos fossem para o Espiritismo e passei a trabalhar com eles, sendo
a Cabocla, que eles amam sem saber do vnculo do passado.
        Para que um desse fora ao outro, so parentes, amigos. Tobi e Dito se
uniram novamente e entre eles esto os necessitados de se equilibrar, e vejo com
alegria que esto conseguindo, embora tenham problemas, porque estes precisam
mais de ateno e cuidados.
        Para os que tentam ou esto cumprindo essa tarefa, provam a si mesmos
que so capazes e, se sarem vitoriosos, sentiro alegrias indescritveis e estaro
aptos a outros trabalhos, porque os que foram fiis nas pequenas causas sero
incubidos das grandes. E os que se reconciliarem se sentiro felizes e voltaro a
caminhar rumo ao progresso e  felicidade, pois papam no caminho os que no o
fazem. E os que no se reconciliaram perderam mais uma oportunidade e sofrero,
uma vez que, ao continuar tendo inimigos e a estar na mesma faixa vibratria deles,
a vida novamente os aproximar at que se harmonizem. E perder oportunidade 
bem triste!
        E eu, no plano espiritual, acompanhei-os, me tornei a companheira de
trabalho, a amiga que tenta sempre dar uma palavra de consolo no s a eles, mas a
todos os que vm a nossa Casa Esprita.
        Continuei a me vestir como fazia no tempo de escrava. Saia longa, blusa de
algodo cru, um leno na cabea. Um dia, um orientador da colnia veio nos
visitar, conversou com todos, motivando-nos e esclarecendo-nos sobre diversas
dvidas. Conversou em particular com muitos de ns, gentilmente se aproximou de
mim.
        -- Por que, Cabocla voc se veste assim? No seria melhor se trajar como
seus companheiros? A roupa  algo externo que no deve fazer diferena a ns. Se
no tem motivos e gosta, tudo bem, mas, se for para no esquecer o passado, deve
entender o porqu. No devemos mostrar o que temos por dentro com algo
exterior. Vemos no plano espiritual muita diversidade nas vestes, no damos
importncia ao traje, a moda aqui no tem prioridade. A beleza sem abuso alegra,
encanta. Quero, Cabocla, que se sinta  vontade, vista-se como quiser, se realmente
gosta desse traje, use-o, mas, se tiver algum motivo, quem sabe resolveremos juntos
essa questo, que talvez esteja pendente a dentro, no seu ntimo.
        Olhou-me sorrindo. Pensei um instante. O orientador tinha razo, ele era
sem dvida grande conhecedor da alma humana. No me vestia assim porque
gostava. Ser que no era para parecer diferente? Mostrar aos outros que eu,
Cabocla, fui escrava, que estive cativa quando encarnada? Ser que esse fato me
fazia sentir importante? Ou era porque vestida assim queria ser humilde? Ou, indo
mais longe, para recordar que j fui escravocrata, que nada era, que nada fui? Meus
olhos se encheram de gua. Esse bondoso orientador me abraou.
        -- Minha amiga, voc no precisa de nada exterior para lembrar algo que
aprendeu. Conhecimentos guardamos no nosso ntimo. A humildade do ser no 
externa. Pode-se ser profundamente humilde e vestir-se bem, com gosto, ser
elegante, parecer agradvel aos outros, no se confundir com aquele que abusa ou
que tem orgulho da aparncia. E vemos muitos que se vestem de maneira simples e
nada tm de humilde.  certo voc dar importncia a essa sua existncia em que foi
escrava, em que reparou e aprendeu muito, mas basta s voc saber. Voc 
importante como somos todos ns. No se julgue melhor e nem pior. Esse
sentimento  normal em ns, que almejamos progredir, s vezes nos achamos
melhores, outras piores. Esses sentimentos devem ser repelidos. Se nos julgarmos
melhores, o orgulho pode ofuscar muitas outras virtudes e nos levar a fazer
incorretamente nossas tarefas. Se nos acharmos os piores, esse pensamento poder
causar desmotivao, que  um freio que nos impede de realizarmos o que
podemos e devemos fazer. Voc  um reflexo do que faz, do que realiza. Cabocla,
admiro-a, voc  um esprito interessado em aprender e progredir. Por que voc
no lembra que  uma serva, uma colaboradora do trabalho do bem, uma
batalhadora?
        Compreendi, no so os trajes que nos fazem mudar o que somos. Tinha
at ento motivos para me vestir daquele jeito, superei-os e passei a me trajar como
a equipe, como meus companheiros de trabalho faziam, e me senti bem melhor.
Porque, ao me analisar, entendi que usava aquelas roupas porque queria ser vista
como escrava, porque tinha orgulho de ter sido uma. E esse aprendizado s passou
a ser meu mesmo quando superei esse orgulho. E como isso me fez bem!
        Depois disso, fui ver Jos, estvamos sempre nos visitando, tornamo-nos
amigos. Ele nem prestou ateno na mudana das minhas vestes. Creio que meu
amigo nunca deu importncia a isso. Observei-o, ele se vestia de forma simples,
mas para ele no fazia diferena. Ter sido escravo, para Jos, foi s mais uma
experincia. A simplicidade de suas roupas refletia o que ele tinha dentro de si, ele
superou todo o orgulho. Para ele o importante era o que realmente sentia e no
necessitava mostrar isso a ningum.
        Talvez eu me vista novamente com minha saia longa e blusa de algodo
cru, mas o farei por gostar, ser diferente. O orientador, sabendo o que acontecia
comigo, me fez compreender que, enquanto eu queria mostrar que era humilde,
no o era, e tento aprender a s-lo.
        Anos se passaram. Amei trabalhar com os encarnados,  aprendendo a
conhecer o ser humano que conhecemos a ns mesmos, como tambm  ajudando
os outros que encontramos solues para nossos problemas.
        Estvamos sempre recebendo visitas de orientadores que procuravam nos
esclarecer para que pudssemos ajudar melhor. E foi nessas palestras que aprendi
muito, porque no basta querer ajudar,  preciso saber ser til. E um desses amigos
estava sempre frisando a necessidade de ensinar todos a serem auto-suficientes,
porque quem sabe resolver seus problemas sabe tambm solucionar os dos outros.
Um dia, em uma de suas visitas, nos disse bondosamente:
        -- Aqui estamos aprendendo a ser teis. No devemos fazer o que cabe a
outro faz-lo. Quando se pode,  a pessoa mesmo que deve fazer por si. Trabalhar
ajudando outros no  ser servial sem vontade. H pessoas que gostam de ser
servidas e, quando encontram algum disposto a fazer, abusam, e todo uso
indevido  prejudicial. E, se voc permitir o abuso, est colaborando para que o
outro aja errado. Alimentar em algum a ociosidade, o preconceito e o orgulho no
 certo. Alimentamos a ociosidade quando fazemos para algum o que ela poderia
fazer por si mesma, e o preconceito e o orgulho, quando atendemos algum fora
do Centro Esprita, sendo que essa pessoa poderia ir at l,  mais fcil para muitos
serem atendidos em seus lares, estabelecimentos comerciais, temem ser vistos ou
que a sociedade saiba que vo a lugares ditos espirituais para receber auxlio. Quem
tem vergonha de pedir, creio que no  digno de receber. Voc pode alegar que
muitos que agem assim o fazem por ignorncia. Ento, est a uma boa
oportunidade de mostrar a eles o que  uma reunio esprita.
        "A ajuda espiritual  valiosa e no devemos torn-la banal. Quem  ajudado
necessita aprender e esse conhecimento  a mais preciosa ajuda, mas na maioria das
vezes o necessitado no a quer, porque  mais fcil receber do que fazer.
        "Quando aqui vm pessoas necessitadas, desorientadas, podemos compar-
las a sedentos. Muitas no sabem como encontrar gua. Nosso trabalho  dar-lhes
de beber, orient-las e ensin-las a ir pegar gua no pote, depois a busc-la na fonte.
Esse  o verdadeiro auxlio. Se fizermos a lio que cabe ao outro, iremos priv-lo
de aprender."
        -- Orientador - falou um companheiro -, tenho notado que muitos, aps
receber ajuda, no voltam mais e at evitam encontrar com os encarnados que
trabalham aqui.
        -- Sei disso, todos ns sabemos. E alguns s lembram de voltar quando
esto novamente necessitados. Pelo menos aprenderam, ao retornar, que aqui h
gua, ajuda. Mas volto a insistir na necessidade de instruir os pedintes que leiam
livros espritas, que escutem as palestras, que vivenciem mais os ensinamentos de
Jesus, que aprendam a vibrar melhor         para entrar em sintonia com energias
benficas. E, amigos, no deixem que outros menosprezem seu trabalho, devemos
dar muito valor ao auxlio prestado, ao trabalho que realizamos junto aos
encarnados e ensinar a todos a faz-lo tambm. A primeira lio que devemos dar
ao auxiliado  que valorize o trabalho alheio, porque todos ns temos que passar de
servido a servidor.
        E assim estou trabalhando entre encarnados, no esquecendo meu
objetivo, que  tentar reconciliar irmos que tiveram desavenas na poca da
escravido, apagando marcas deixadas nos que abusaram, nos que agiram com
crueldade e naqueles que no souberam perdoar. Espero que logo a escravido
fique s na Histria de nossa ptria e que as chagas profundas que esse perodo
deixou sejam cicatrizadas e que no fiquem marcas em ningum. E que todos ns
sejamos livres dos vcios, dos prazeres prejudiciais e dos desejos. Livres para
caminharmos para a felicidade que s os libertos conseguem ter.
       Paz e Alegria!




       FIM




       Se voc gostou desse livro, o que acha de fazer com que outras
pessoas venham a conhec-lo tambm? Poderia coment-lo com aquelas do
seu relacionamento, dar de presente a algum que talvez esteja precisando
ou at mesmo emprestar quele que no tem condies de compr-lo. O
importante  a divulgao da boa leitura, principalmente a literatura
Esprita. Entre nessa corrente!




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